“Aviso: Em virtude das avarias causadas pelo temporal, não se realiza o baile marcado para esta noite.”
Inaugurado em 1931 pelo Presidente da República, general Óscar Carmona, na Avenida Álvares Cabral, o Jardim Cinema era um dos principais polos de animação da vida lisboeta. Só a gravidade da situação provocada pelo ciclone que devastou a capital poderia ter levado a sua gerência a anunciar, na edição de 15 de fevereiro de 1941 do Diário de Lisboa, o cancelamento do baile de sábado.É legítimo presumir que terá sido igual o destino do filme em cartaz noutra sala emblemática da cidade, o Cineteatro Capitólio. Por irónica coincidência, a película era O Monte dos Vendavais, de William Wyler. Durante alguns dias, “a fúria dos elementos” (Diário de Lisboa) varre das manchetes as notícias literalmente bombásticas da II Guerra Mundial, que decorria na Europa e noutras paragens, e já tinha transformado a capital portuguesa num ninho de espiões e no cais de partidas e chegadas do Velho Continente. Aliás, é também de 1941 um discurso do Presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, a salientar a importância estratégica das ilhas portuguesas para os EUA e a entrada em Timor de tropas australianas e holandesas para combater as forças japonesas. “Lisboa açoitada por um vento ciclónico de extraordinária violência que derrubou chaminés, telhados e árvores, chegando a atirar, nas ruas, os transeuntes ao chão”, escreve em título o referido vespertino. O Diário de Notícias do dia seguinte, domingo, 16 de fevereiro de 1941, vai no mesmo sentido: “Um ciclone sobre Lisboa.” O jornal O Século faz em título e subtítulos uma síntese da situação: “Lisboa foi assolada no dia de ontem por um terrível ciclone. O vento, que chegou a correr a 127 quilómetros à hora, causou grandes estragos e muitos desastres, afundou barcos e provocou cenas de pânico. Há a lamentar algumas mortes e é enorme o número de feridos.”
