“Caladinha é que tu estás bem”, “havias de ser violada por um indiano”, “quando fores raptada, logo vês”, “calada, és uma puta”, “tem vergonha”, “tem juízo”. “És bonita, é pena seres tendenciosa”, “deves ter a mania que és inteligente”. Todas estas mensagens (e muitas outras do mesmo género) chegaram-me através das redes sociais. Mas não foi só isso. Perdi a conta às vezes em que tive um homem na minha rua a gritar-me que me odeia e que eu devia estar calada. Cheguei a ir atrás dele, para o ameaçar com a polícia, mas ele fugiu, refugiando-se na entrada do seu prédio e fechando-me a porta na cara. Começo este texto na primeira pessoa, porque foi por sentir na pele as consequências de ser uma mulher com intervenção pública que surgiu a ideia de o fazer. Na verdade, o difícil é saber por que história começar, quando se fala com mulheres que são vítimas de campanhas de ódio, numa tentativa de silenciamento. Há muitas histórias, quase todas com ingredientes comuns: insultos ou reparos sobre o aspeto físico, alusões a agressões sexuais, tentativas de desqualificação. E uma ideia, partilhada por quase todas as que aceitaram dar o seu testemunho: a de que se assiste a uma escalada da violência verbal e simbólica generalizada da qual as mulheres são alvos preferenciais.

Capicua
Rapper e cronista
Ser mulher de esquerda vale-lhe insultos vários nas redes sociais. Muitas vezes chamam-lhe “esquerdalha” por acharem que esse é o pior insulto. Há quem veja no seu refrão “Por cada grunho um punho” uma mensagem violenta, mas diz que a metáfora é sobre a luta e recusa-se a acreditar que haverá retrocesso nos direitos das mulheres.
“Quando as mulheres saem do arquétipo da Thatcher, da Manuela Ferreira Leite ou Maria de Belém, há logo uma crítica imediata”
“Vai ser difícil que o retrocesso aconteça. Não vai ser sem luta. Somos mais e temos mais noção do que devemos à defesa da igualdade de género”
Isabel Moreira estava numa arruada do PS nas últimas legislativas, em Lisboa, quando um homem lhe deu uma cotovelada nas costas, ao mesmo tempo que lhe chamava “puta”. No meio da confusão, só quem estava muito próximo se apercebeu e a deputada socialista optou por não reagir, temendo que naquele contexto essa reação desencadeasse um tumulto. “Sinto mais agressividade nas ruas e sinto que me protejo muito mais”, confessa à VISÃO, notando que este é um sintoma de um problema mais profundo.
