Dino D’Santiago está nos últimos ensaios da ópera Adilson, com estreia no CCB, em Lisboa, no dia 12 de setembro. É numa sala de ensaio que nos encontramos. Dino tem o tempo contado, controlado por uma série de gente que o segue e lhe reclama a atenção, o guia, o chama, interrompe a conversa. É preciso que tome decisões, é preciso que fale com este e com aquele. Mas Dino parece ter todo o tempo do mundo quando se senta para falar e nos olha de frente, com os olhos vibrantes, ainda toldados pela emoção do ensaio. Há uma energia especial num espetáculo construído em torno da história de um amigo de infância, perdido nos labirintos que a burocracia ergue em torno dos estrangeiros pobres. Sobre Adilson recai a ameaça de não saber para onde irá se o mandarem para a terra dele, porque não conhece outra que não seja Portugal. “O País já te viu as costas muitas vezes, vira-te para o público e olha-o de frente”, diz Dino, ao amigo Adilson, que fecha o espetáculo com uma dança para mostrar que existe. Há muitos anos, Dino comprou uns ténis de marca para mostrar que existia. Hoje, o País conhece-o bem, mas sente que o lugar que conquistou está sempre à prova “dos dois lados”, dos afrodescendentes e dos outros. E, por isso, mede as palavras, pesa-as, sabendo o tamanho que tem o que diz. Mas não tem medo de dizer a pobreza de onde veio nem o orgulho de ser “português a 100%” e “cabo-verdiano a 100%”. E acredita que, mesmo vivendo em tempos de ódio, no fim virá o amor.

Quando foi a primeira vez que percebeu a cor da sua pele?
A primeira vez que eu descobri, assim, de uma forma amarga, a cor da minha pele, eu estava na segunda classe.
