Qual é a pessoa portuguesa mais famosa? Se fizermos hoje esta pergunta na Europa, na Ásia, nas Américas ou na Oceânia, a resposta sacramental será sempre a mesma: Cristiano Ronaldo. Mas daqui por dez ou vinte anos continuará a ser assim? É de duvidar… Na imparável sucessão das décadas, já lá vão os tempos (relativamente recentes) em que os estrangeiros reconheciam facilmente o nome de Luís Figo e, antes, os de Eusébio e Amália Rodrigues. Passados os circunstancialismos e as modas, permanecerão, no entanto, três figuras de portugueses universais: o infante D. Henrique, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães.
Destes três, o primeiro foi o impulsionador das viagens dos Descobrimentos, esses empreendimentos hoje tão malvistos pela cultura woke, mas que revelaram os contornos do lar mundial à totalidade dos humanos – que até aí viviam fechados cada um em seu quarto. O terceiro, que deu nome a galáxias, crateras da Lua e de Marte, um asteroide, sondas espaciais, telescópios e computadores, esteve na origem da primeira viagem de circum-navegação, mas, por circunstâncias que não vêm agora ao caso, viajou ao serviço da Espanha. Quanto ao segundo, Vasco da Gama, esse foi o homem que comandou a expedição que mostrou à Europa como se podia navegar diretamente até à Índia, trazendo de lá, sem recorrer a intermediários, as tão cobiçadas especiarias, sobretudo a pimenta. Dito assim, não parece nada de muito extraordinário, mas essa façanha literalmente picante inaugurou uma nova era da História da Humanidade.

Vasco da Gama morreu há precisamente 500 anos, em dezembro de 1524, e é justo que essa efeméride seja devidamente assinalada. Já a data em que nasceu não é conhecida com exatidão, apontando-se para 1469 (mas pode ter sido alguns anos antes), visto que foi com cerca de 30 anos de idade que comandou a grande viagem que o celebrizaria para sempre. O homem propriamente dito é uma figura algo apagada, sobre a qual se sabe pouco, além de ter dirigido a famosa expedição.
Para começar, ignora-se quase todo sobre os seus primeiros anos de vida, sendo contudo provável que tenha nascido em Sines, visto ser filho do alcaide-mor (ou governador civil) da vila, Estêvão da Gama, e de sua mulher Isabel Sodré. Vasco tinha um irmão mais velho, Paulo da Gama, que o acompanharia até à Índia. Há quem levante a possibilidade de ter feito estudos em Évora e de ter aprendido astronomia com o matemático e rabino sefardita Abraão Zacuto, mas tudo não passa de pura especulação. Uma coisa é segura: em 1492, tinha ele vinte e poucos anos, o rei D. João II incumbiu-o de confiscar as mercadorias de navios franceses ancorados em Setúbal e nos portos do Algarve, em retaliação por ataques a barcos portugueses levadas a cabo por corsários daquela nacionalidade. Vasco saiu-se bem dessa incumbência, e o sucesso tê-lo-á catapultado para o comando da aventura indiana.
Mas antes de passarmos à descrição da viagem que mudaria o mundo e celebrizaria Vasco da Gama, que tal recordar os seus antecedentes e descrever o contexto em que ela haveria de realizar-se? É que, sem isso, não se entende bem a importância da coisa.
Picante na língua
Normalmente, quando olhamos para os pequenos frascos alinhados nas prateleiras da cozinha, custa-nos a entender a enorme relevância que as especiarias tiveram no passado. E se, para se nos fazer luz no espírito, tentássemos pensar com a cabeça de uma pessoa da Idade Média, ou mesmo da Antiguidade? Ora bem, ao contrário de hoje, em que grande parte do que se come é “processado” industrialmente, a comida era então insípida, para não dizer enjoativa. Os alimentos, mal cozinhados e por vezes já um pouco decompostos (escusado será recordar que não existiam frigoríficos) estavam “a pedir” um sabor extra que os apaladasse. Nada melhor, para isso, do que a pimenta.
O primeiro ocidental a trazer esse condimento para solo europeu foi Alexandre Magno (que, à frente dos seus exércitos conquistadores, foi até à Índia por terra), e os gregos passaram-na depois aos romanos. Embora sejam muitas as variedades de pimenta, o berço desta planta era a costa indiana do Malabar. Esgotadas as provisões trazidas pelo grande general da Antiguidade, foi preciso ir lá buscar mais. Estabeleceu-se assim um tráfico permanente ligando o oceano Índico ao mar Mediterrâneo – uma viagem aventurosa e dispendiosa. Os carregamentos eram transportados primeiro de barco até ao Iémen e atravessavam depois o deserto da Arábia sobre as bossas dos camelos, até à costa mediterrânica. Quem se encarregava em seguida do seu encaminhamento para a Europa eram os fenícios do atual Líbano, com os quais não era fácil regatear preços. Depois da época de Alexandre, no período helenístico, o grande porto comercial passou a ser Alexandria, na costa mediterrânica do Egito, aonde iam desembocar as caravanas oriundas das Arábias.

Quando os romanos passaram a dominar grande parte da Europa e a totalidade da bacia mediterrânica, nada mais natural do que terem pretendido apoderar-se do comércio com o Oriente, incluindo o lucrativo tráfico da pimenta. Em grande parte, foi esta a causa das três Guerras Púnicas, que opuseram durante mais de um século Roma a Cartago, as duas superpotências da época. É curioso pensarmos que, pelo seu poder sobre a vida e a morte de muitos milhares de pessoas, a pimenta foi uma espécie de petróleo daquele tempo.
Pouco depois, o Egito era anexado ao Império Romano e transformado em província, pelo que a importância de Alexandria como grande porta para o Oriente se viu amplamente reconhecida pelos novos senhores. O comércio continuou a ser feito como antes, mas com um aumento exponencial de escala, o que contribuiu para que os cidadãos de Roma desenvolvessem à vontade o seu gosto muito particular pelo picante na língua.
Quando a Síria (pobre Síria, que tantos tombos tem dado…) se transformou também em província romana, parte do tráfego passou a ser feito pelo rio Eufrates e em caravanas de camelos que, fazendo escala em Palmira, atingiam o Mediterrâneo. A certa altura, o comandante de um navio romano no Golfo Pérsico fez uma descoberta sensacional: notou que os ventos nas costas da Pérsia e da Arábia sopravam durante metade do ano numa direção e durante a outra metade na direção oposta. Eram as monções. Ora bem, se as viagens fossem planificadas como devia ser, de acordo com estas leis da natureza, seria possível fazer o percurso de ida e volta entre o delta do Nilo e a costa indiana do Malabar, sempre navegando, em menos de um ano.
Depois da queda de Roma, e após múltiplas vicissitudes, o escaldante comércio da pimenta passou para as mãos dos árabes, e Alexandria, como toda a costa sul do Mediterrâneo, tornou-se praticamente inacessível aos europeus. O antigo Mare Nostrum, em torno do qual se desenvolvera o Império Romano, passava a ser um fosso entre dois mundos: a Cristandade e o Islão. As cidades comerciais costeiras deixaram, pois, de ser utilizadas no tráfego da pimenta para a Europa e foi necessário encontrar uma rota alternativa.
Na verdade, existia já uma, que era a da seda. As caríssimas peças deste tecido eram empacotadas na China e transportadas em caravanas de camelos até à costa oriental do mar Cáspio, e aí despachadas, por via marítima, fluvial e uma ou outra ligação terrestre, até à Geórgia de hoje, na costa do mar Negro, onde voltavam a ser arrumadas nos porões de navios que seguiam para Constantinopla, a antiga Bizâncio (e atual Istambul).
Acabou por ser esta a rota adotada para a generalidade dos produtos, cabendo aos venezianos fazerem o seu transporte do Bósforo para cá. A cidade de Veneza tinha sido fundada na alta Idade Média, quando habitantes do Norte da Itália, em debandada perante o avanço das hordas bárbaras do visigodo Alarico, se fixaram nas desoladas ilhotas de uma laguna do Adriático; aí, sem terra para cultivar nem para dar pasto ao gado, não lhes restou outra alternativa que não fosse dedicarem-se ao comércio marítimo – e dentro de poucos séculos formavam uma grande potência comercial. Nem lhes passava pela cabeça que um dia viriam a ser uma das Mecas do turismo…

Os venezianos não eram, porém, os únicos italianos que se dedicavam à traficância, já que esta fora igualmente adotada como atividade predominante pelos genoveses, cuja cidade se situava do outro lado da península em forma de bota, no topo do mar Tirreno. Inaugurou-se então uma grande rivalidade entre Veneza e Génova, um jogo de cartas sangrento cujo trunfo era o comércio de Bizâncio/Constantinopla.
Quando a grande cidade do Bósforo caiu nas mãos dos turcos, e apesar das más relações políticas entre a Cristandade e o Islão, os comerciantes venezianos voltaram-se então para o Egito, que levantava menos obstáculos, e em breve detinham o monopólio do comércio oriental; toda a gente lucrava, pois os sultões do Cairo, por si sós, não dispunham de meios para colocar os produtos na Europa. Sendo assim, a partir de Alexandria diferentes frotas venezianas zarpavam ora para Oriente ora para Ocidente: as primeiras iam buscar a pimenta à origem, as segundas transportavam-na para os mercados de destino, na Europa. Imagine-se o preço por que o produto era vendido, após toda a grande sucessão de lucros obtidos por intermediários…
É então que entra em cena um pequeno país do extremo ocidental da Europa chamado Portugal, cujo “plano da Índia” consistia em alcançar as terras da pimenta contornando a África pelo cabo da Boa Esperança, através de – no dizer do grande poeta Luís de Camões – “mares nunca antes navegados”. Não havia, de facto, nada melhor do que ir diretamente à origem e comprar barato para vender caro!
A aventura portuguesa
A aventura marítima de Portugal, que hoje não deixa de nos surpreender, tinha começado com a conquista de Ceuta, no Norte de África, em 1415. A cidade marroquina era o término das caravanas que atravessavam o Sara carregadas de ouro, marfim e malagueta. Dava-se o caso de Portugal viver em paz há três décadas, desde as guerras com Castela (Aljubarrota, etc.), o que impossibilitava a classe nobre de guerrear, quando era essa a sua atividade favorita. “Coitados” dos nobres! Ora, a conquista de Ceuta poderia, assim, servir dois objetivos: favorecer a economia nacional e matar a sede de aventuras da façanhuda fidalguia. Um terceiro argumento, muito medieval e inserido no espírito de cruzada, dava força aos dois anteriores: estender o cristianismo a outras terras, claro está.
Concretizada a tomada de Ceuta, feito o gosto ao dedo, seguir-se-ia a de outras cidades norte-africanas. Mas a tarefa revelava-se dispendiosa, tanto em dinheiro como em vidas humanas. E os portugueses em idade e em condições de servirem militarmente eram poucos, já que o País teria nesse tempo, quando muito, um milhão de habitantes.
Havia, porém, uma alternativa: tomar posse de terras desabitadas e não reivindicadas por ninguém. Mas onde estavam essas terras? No meio do mar. Então não é verdade que os mapas medievais eram “ornamentados” com muitas ilhas, umas imaginárias, outras reais? A desabitada Madeira, por exemplo, figurava já nessas cartas, e desde o século XIV que alguns europeus, sobretudo italianos, lá iam abastecer-se da resina de dragoeira conhecida por “sangue de dragão”. O mesmo se passava com as Canárias, muito frequentadas tanto por portugueses como por castelhanos, tratando-se neste caso de um arquipélago habitado por povos berberes que viviam como se fosse na Idade de Pedra. Se estas ilhas já eram conhecidas na altura da tomada de Ceuta, não era esse o caso de outras. A questão estava em ir descobri-las onde quer que elas estivessem. Nasceu assim a palavra “descoberta”, ou “descobrimento”, hoje muito contestada pela cultura woke, mas que, naturalmente, deve ser tomada do ponto de vista europeu.
O grande promotor da política portuguesa do “descobrimento” de novas terras foi o já atrás referido infante D. Henrique, quarto filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre e irmão do rei D. Duarte. Um dos seus objetivos era entrar em contacto com uma figura mítica: o Preste João, hipotético soberano de um poderoso mas imaginário reino cristão existente algures na Ásia ou na África com o qual os europeus sonhavam aliar-se contra o Islão.

Aprendia-se em tempos na escola que a Madeira foi descoberta em 1418 por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, dois navegadores do infante D. Henrique. Mas a versão da descoberta acidental tem sido recentemente posta em causa, pois, sendo já conhecida na época a existência das ilhas, o infante terá antes incumbido os navegadores de as reencontrarem e de dirigirem a sua colonização, antecipando-se a idêntica iniciativa dos castelhanos. Também os Açores terão sido procurados no sítio onde se dava por quase certa a sua existência.
Ao mesmo tempo que procuravam ilhas, os navegadores portugueses iam explorando metodicamente a costa africana, em busca de uma passagem para o oceano Índico e para as tão desejadas terras das especiarias. O avanço era lento, pois acumulavam-se os terrores infundidos pelo mar, uns com razão de ser, outros fruto das fantasias e crenças da Idade Média.
Depois de, em 1422, e ao fim de várias tentativas, algumas barcas terem dobrado o cabo Não, no extremo sul marroquino, até então considerado o limite sul navegável, foi preciso esperar mais 12 anos para que Gil Eanes vencesse, mais abaixo, o cabo Bojador, dissipando o terror que este promontório do atual Sara Ocidental inspirava. Considerava-se que ali acabava o mundo e que para além existiam monstros e as águas ferviam. Seguiram-se, África abaixo, o rio do Ouro, o cabo Branco, o golfo de Arguim, o cabo Verde e o arquipélago com o seu nome, a Gâmbia e os rios da Guiné.
Entretanto, em 1460, morria o infante D. Henrique. Reinava então o seu sobrinho D. Afonso V, homem avesso a estas navegações e mais seduzido pela conquista das praças norte-africanas, o que fez com que as viagens marítimas ficassem durante algum tempo, como se costuma dizer popularmente, “em banho-maria”. A empresa da exploração africana seria então arrematada por um burguês endinheirado chamado Fernão Gomes; não admira, pois dava lucro, já que os navegadores traziam ouro, malagueta e pessoas escravizadas… Haveria de ser, porém, já com o rei D. João II, no último quartel do século XV, que os progressos se revelariam mais rápidos e espetaculares.
Ignora-se quase tudo sobre os primeiros anos de vida de Vasco da Gama, sendo contudo mais do que provável que tenha nascido em Sines, vila de que o pai era alcaide-mor
Certo dia, o marinheiro genovês Cristóvão Colombo, residente há alguns anos no nosso país e casado com uma portuguesa, propôs a D. João II, com grande lábia, tentar alcançar a Índia navegando para ocidente. Se o rei lhe confiasse os necessários navios, ele demonstraria a veracidade da hipótese. E fazia, decerto, muitos gestos com as mãos… Mas D. João II recusou: havia de se chegar à Índia contornando a África. Ponto final.
A verdade é que já faltava pouco para atingir esse objetivo. Em 1484, o navegador Diogo Cão chegara à foz do Zaire e subira parcialmente o curso deste grande rio africano. No interior, tinha entrado em contacto com o reino africano do Congo. Numa segunda viagem, dois anos depois, o mesmo Cão exploraria a costa angolana mais para sul, embora sem conseguir ainda contornar a ponta mais meridional da África e abrir a rota para a ambicionada Índia, proeza que seria rubricada por Bartolomeu Dias em 1488.
Quando o caminho para a Índia parecia estar, pois, desimpedido, Colombo foi de novo bater à porta de D. João II. Mas desta vez – estava-se em 1492 – ele acabava de chegar “das Índias”, para onde viajara com patrocínio castelhano. D. João II ficou desolado, receando ter perdido a corrida às especiarias. Mas veio depois a apurar-se que Colombo estivera, não no almejado Oriente, mas sim num “Novo Mundo” – as Américas. Sem ter consciência disso, note-se, sendo engraçado pensar que o genovês morreu a julgar que tinha chegado à Índia. De qualquer modo, a partir de então Castela entrava também na História dos Descobrimentos.
Em 1494, D. João II e os Reis Católicos de Espanha, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, decidiram repartir o mundo entre si. Nesses finais do século XV, fazia já mais de meio século que Portugal tinha iniciado a exploração dos mares. E a Espanha, como acabamos de ver, seguira-lhe o rasto, graças à iniciativa do descarado Colombo. Não admira, pois, que os dois Estados ibéricos tenham achado por bem definir as respetivas esferas de influência. O tratado foi assinado na localidade espanhola de Tordesilhas. Ficou ali estipulado que todas as terras a descobrir a oeste de um meridiano que passava a 370 léguas de Cabo Verde pertenceriam à Espanha, e que todas as que se encontrassem a leste dessa linha caberiam a Portugal. D. João II, que já sabia da existência da terra que viria a chamar-se Brasil, conseguiu que ela viesse a fazer parte do hemisfério português. O árbitro deste jogo de influências foi o Papa Alexandre VI.
A França, que era o Estado predominante na política europeia, não fez qualquer caso do que fora estipulado em Tordesilhas, e passados anos, o rei Francisco I pediria até, gracejando, que lhe mostrassem o “testamento de Adão” que daria fundamento ao tratado… De qualquer modo, na década de 1490 só Portugal e Espanha dispunham de meios – tecnológicos e derivados da situação geográfica – para promover a exploração da Terra. A Inglaterra e a Holanda só passados cem anos, no final do século XVI, entrariam na corrida, e a França ainda mais tarde. Sim, houve um tempo em que Portugal foi mesmo pioneiro, e não devemos ter vergonha disso.
Entra em cena Vasco da Gama
Antes de enviar uma esquadra a demandar em definitivo a Índia, seguindo a rota aberta por Bartolomeu Dias, D. João II incumbiu dois espiões – Pero da Covilhã e Afonso de Paiva – de irem por terras colher informações. Um deles, Covilhã, alcançou o objetivo e reuniu conhecimentos geográficos e culturais preciosos.
Mas, entretanto, D. João II morreu sem deixar filho legítimo e sucedeu-lhe no trono o primo e cunhado D. Manuel. Este homem teve sorte (até foi cognominado O Venturoso), pois veio encontrar, como se costuma dizer familiarmente, “a papinha toda feita”. A primeira escolha do novo rei para comandante da esquadra que navegaria diretamente entre Portugal e a Índia foi Estêvão da Gama, mas o velho alcaide de Sines viria a falecer nesse próprio ano de 1497. A fazer lembrar a história do lobo e do cordeiro (mas ao contrário), a segunda escolha recaiu no filho mais velho de Estêvão, Paulo da Gama, que no entanto declinou o convite e indicou o nome do seu irmão Vasco. Exatamente o “nosso” Vasco da Gama, destinado a tornar-se uma celebridade mundial. Lembre-se de que ele ficara bem-visto ao apreender as mercadorias dos navios franceses em Setúbal e no Algarve.
Vai, pois, arrancar a grande viagem que mudou o mundo. A frota comandada por Vasco da Gama, composta pelas naus S. Rafael e S. Gabriel, pela caravela Bérrio e pela carraca S. Miguel, largou do Tejo, em Belém (nesse tempo uma localidade um pouco afastada de Lisboa), a 8 de julho de 1497, com 170 homens a bordo. Luís de Camões, com a genialidade que o caracteriza, conta, n’Os Lusíadas, que à hora da partida surgiu no areal do Restelo um homem idoso que preveniu toda a gente, incluindo o rei, contra os malefícios da aventura ultramarina, condenada a desviar o País do seu rumo certo, que seria o desenvolvimento interno. Era o emblemático Velho do Restelo, usado de aí em diante como símbolo da reação conservadora. Quem teria razão? O Velho do Restelo saído da imaginação do poeta ou os patrocinadores dos Descobrimentos? E que ligações poderão ser estabelecidas entre essa personagem e o “politicamente correto” dos nossos dias? O problema continua em aberto.
O que sabemos sobre a histórica viagem chegou-nos através de um roteiro não assinado mas atribuído a Álvaro Velho (um dos membros da expedição) e também das descrições que nos deixaram os cronistas quinhentistas Gaspar Correia, Fernão Lopes de Castanheda e João de Barros (todas elas baseadas, fundamentalmente, nesse roteiro). Não é muito, mas mesmo assim permite-nos conhecer – como se verá – alguns pormenores cheios de colorido.

Após três semanas de navegação sem história, a frota chegou a Cabo Verde. O arquipélago, descoberto 40 anos antes pelos portugueses, quando era desabitado, acolhera desde então colonos, a quem Vasco da Gama comprou galinhas, porcos, frutas e legumes. Mais adiante, Bartolomeu Dias, que acompanhava a expedição num barco próprio, virou a proa à feitoria de São Jorge da Mina, que era o seu objetivo. Vasco da Gama e as suas quatro naus descreveram então uma grande curva pelo Atlântico e, durante três meses, navegaram sem ver terra, só virando a leste na direção da extremidade sul da África. Aproveitavam assim os ventos e as correntes favoráveis. Especula-se hoje sobre a possibilidade de expedições anteriores (e, eventualmente, o próprio Vasco da Gama) terem explorado previamente essa rota, mas nenhum documento nos esclarece a tal respeito. Aparentemente, nunca, desde que o mundo é mundo, alguém tinha navegado três meses seguidos no mar alto! Já perto do cabo da Boa Esperança, atingiram a costa africana e lançaram ferro numa baía que batizaram de Santa Helena.
Estavam os marinheiros a dar largas à alegria por poderem desentorpecer as pernas em terra quando surgiram uns homens de reduzida estatura, pele acinzentada e com tangas por único vestuário. Tratava-se, decerto, de hotentotes, um povo nómada do Sul da África. Estes logo se viram “caçados” pelos portugueses, que os levaram para os navios a fim de melhor os observarem. Deram-lhes de comer, vestiram-nos e devolveram-nos a terra. No dia seguinte aparecerem mais hotentotes, que os marinheiros presentearam com barretes vermelhos e contas de vidro, recebendo em troca brincos de conchas e leques de cauda de chacal.

Estava tudo a correr pelo melhor quando um jovem marinheiro da esquadra, chamado Fernão Veloso, resolveu ir visitar a aldeia hotentote. Almoçou por lá, mas deve ter feito alguma coisa que violava os costumes locais, pois ao fim da tarde apareceu na praia a correr, perseguido pelos anfitriões, e só a custo conseguiu embarcar no bote que fora mandado para recolhê-lo. Que falta teria ele cometido? Não o sabemos, pois as crónicas omitem-no, e decerto nunca viremos a sabê-lo.
A frota fez-se uma vez mais ao largo e, passados quatro dias, dobrava o cabo que Bartolomeu Dias batizara, uma década antes, de cabo das Tormentas, mas de que o rei D. João II mudara o nome para a mais auspiciosa designação de cabo da Boa Esperança. Foi ali que Camões (sempre n’Os Lusíadas) colocou a monstruosa figura do gigante Adamastor, símbolo do terror do desconhecido experimentado pelos marinheiros, por mais intrépidos que estes fossem.
Numa enseada do oceano Índico, a que os navegadores deram o nome de angra de São Brás, apareceram então mais hotentotes, com os quais os portugueses organizaram um bailarico, ao som das flautas dos nativos. Mas a festa acabou mal quando, no dia seguinte, estes se opuseram à recolha de água pelos marinheiros. Os dois grupos estiveram à beira das vias de facto, só evitadas quando Vasco da Gama mandou disparar para o ar alguns tiros de bombarda.
Resolvido este problema, e feita a aguada, os portugueses pegaram então fogo à carraca dos mantimentos, que estava a navegar mal e se tinha tornado um empecilho (isto, obviamente, depois de terem transportado para as outras três embarcações o que restava dos víveres trazidos de Lisboa). Antes de voltarem a levantar ferro, ergueram ainda um padrão de pedra e uma cruz de madeira, mas tanto um como outra foram logo destruídos à paulada pelos africanos, com os portugueses ainda a assistirem.
Entrada no desconhecido
Desabou a seguir uma enorme tempestade, até que a esquadra, muito danificada pela chuva, pelo vento e pelas vagas, avistou os ilhéus Chãos e o rio do Infante. Estes nomes tinham sido postos por Bartolomeu Dias, que chegara até ali em 1488, na sua viagem em que dobrara a ponta sul da África. Ao contrário do que pode parecer, o “infante” a que se refere o nome do tal rio não é o célebre infante D. Henrique, mas sim João Infante, capitão de uma das caravelas de Dias, a São Pantaleão. Hoje, os sul-africanos chamam a esse curso de água Great Fish River, ou Groot Visrivier (rio do Peixe Grande).
Vasco da Gama e os que o acompanhavam entraram depois em pleno desconhecido (dos europeus, entenda-se). A costa aprazível mas deserta avistada a 25 de dezembro de 1497 foi por eles batizada de Natal, nome que os futuros colonizadores ingleses e os atuais sul-africanos mantêm, assim mesmo em português.
Seis semanas depois de terem deixado a região do cabo da Boa Esperança, ancoraram junto da foz de um outro rio, onde lhes apareceu uma multidão de homens e mulheres, muito diferentes dos hotentotes. Altos, fortes, de pele muito escura, usavam lanças e punhais de ferro com cabo de marfim e adornos de cobre a enfeitar-lhes as cabeças. A troca de calças e barretes por cobre operou milagres, gerando-se um perfeito entendimento entre as duas comunidades. Não admira que os navegantes tenham chamado ao sítio Terra da Boa Gente.
Mais a norte, em Quelimane, já no atual Moçambique, indígenas tripulando esbeltas canoas acostaram às naus e, sem darem mostras de receio, treparam para bordo, sorridentes. Mas eis que aparece aqui um elemento novo: entre aqueles africanos havia alguns indivíduos de pele mais clara e que “arranhavam” a língua árabe.

Queria isto dizer que os marinheiros portugueses, depois de terem visitado gentes nunca antes vistas, reatavam o fio à meada, voltando a deparar-se com pessoas algo semelhantes às da costa marroquina e da orla mediterrânica. Aos negociantes do sítio chamou “fidalgos” o nosso cronista Gonçalo Velho (ou outro, pois, como vimos, não se sabe ao certo quem foi o autor do roteiro), e lá tinha as suas razões, tão empertigados e formais aqueles “mouros” se apresentavam. Ali, em Quelimane, procedeu Vasco da Gama à carenagem dos navios, uma operação difícil que consistia em esvaziar os barcos, puxá-los para terra fazendo-os deslizar sobre troncos de árvores bem aparadas e raspar os cascos para remover as conchas ali coladas. Foi nessa altura que muitos marinheiros começaram a queixar-se de falta de forças e de dores no corpo. Seria cansaço devido à dureza do trabalho? Podia ser, mas tratava-se de muito mais do que isso: tinham sido atacados de malária, aquela terrível doença transmitida pelos mosquitos que pousam nas águas paradas. Parece ironia, mas Vasco da Gama chamou ao local rio dos Bons Sinais, privilegiando a presença de gente que falava árabe, o que parecia indiciar a proximidade de terras mais civilizadas.
Reatada a viagem, os expedicionários que iam sobrevivendo às provações depararam-se, passados dias, com a ilha de Moçambique, que daria mais tarde nome à futura colónia portuguesa da África Oriental. E eis que, dobrado um cabo, deram de chofre com um navio ancorado.
E outro! E mais outro! Ao todo eram sete e não se tratava de pirogas como as dos habitantes do litoral que ficara para trás, mas sim de navios a valer, com mastros e velas, embora relativamente pequenos. Aqueles barcos só podiam pertencer a árabes, inimigos tradicionais dos europeus de então – o que prenunciava violentos conflitos.
Traições e amizades
Logo de entrada, e só para mostrar “quem mandava ali”, Vasco da Gama mandou disparar uma salva de artilharia. E a coisa resultou, pois alguns “mouros” (como os ibéricos chamavam sempre aos muçulmanos e aos árabes em geral) aproximaram-se em pequenas embarcações, e daí a pouco surgia o xeque em pessoa. Em conversa, o intérprete Fernão Martins apurou que os tais navios árabes estavam carregados de especiarias, pedras preciosas e tecidos finos acabados de chegar da Índia. De súbito, a desconfiança atravessou o cérebro de um dos árabes, que se lembrou de pedir aos forasteiros que lhes mostrassem os livros sagrados, só para apreciarem a qualidade das suas decorações. Por “livros sagrados” entenda-se o Alcorão. Estava visto que os árabes tomavam os portugueses por turcos, estrangeiros mas muçulmanos como eles. Vasco da Gama e os seus ficaram seriamente atrapalhados, mas lá conseguiram contornar o problema, afirmando que não precisavam de levar livros sagrados na viagem, pois sabiam a doutrina toda de cor e salteado. Os ditos “mouros” é que, como se compreende, ficaram bastante desconfiados. A conversa, no entanto, prosseguiu, com Gama a mudar de assunto fazendo perguntas sobre a rota para atingir a Índia e a pedir os serviços de um piloto.

E nos dias seguintes foi uma roda-viva, com candidatos a pilotos num vaivém entre as naus e terra, até que, de repente, começou a correr a notícia de que os visitantes vindos de longe afinal eram “nazarenos” (ou seja, cristãos), o que, como sabemos, correspondia à verdade. Parece que foi um marroquino que por ali andava, e que conhecia bem os portugueses por os ter defrontado no Norte de África, quem deu o alarme. Provavelmente, ouviu os homens de Vasco da Gama conversarem uns com os outros e identificou a língua em que se exprimiam. Só restava aos expedicionários zarparem enquanto era tempo! E foi o que tentaram fazer. Só que um piloto português tinha ficado em terra, o que obrigou dois marinheiros seus camaradas a meterem-se num bote para irem procurá-lo. Entretanto, surgiram muitos barquinhos carregados de “mouros” fazendo gestos aos portugueses para que não partissem e o piloto muçulmano que estava a bordo da São Gabriel aconselhou Gama a acatar a ordem. Mas este não só não o fez como mandou pôr o “mouro” a ferros e chicoteá-lo. Em seguida, ordenou que fossem disparados tiros de bombarda contra as embarcações muçulmanas.
Esta foi a primeira ação de fogo dos portugueses em marés “exóticas”. O piloto refém, embora contrariado, acedeu a conduzir os expedicionários até Quíloa, na atual Tanzânia, mas o pior é que não havia vento que possibilitasse a partida. E um desembarque para fazer aguada redundou em combate com os “mouros”. Quando, finalmente, partiram, ultrapassaram Quíloa sem que o piloto avistasse esta cidade, pelo que seguiram até Mombaça, no Quénia de hoje.
Mas chegara já ali a notícia de que uma armada de “nazarenos” vinha a caminho, e os da terra, igualmente “mouros”, acharam que a melhor forma de eliminar os importunos estrangeiros seria começar por se mostrarem amigáveis para com eles. Houve, assim, visitas a bordo, troca de presentes, passeios pela cidade com “guias turísticos” e contactos com alguns cristãos nestorianos ali residentes (trata-se de uma seita originária de Constantinopla que teve alguma difusão no Oriente). Pela calada da noite, porém, muitos “mouros” aproximaram-se, em pequenos barcos, da esquadra portuguesa e tentaram furar os cascos das naus.
A aventura marítima de Portugal, que hoje não deixa de nos surpreender, tinha começado mais de 80 anos antes, em 1415, com a tomada de Ceuta, no Norte de África
Dado o alarme, os atacantes furtivos puseram-se em debandada antes de terem conseguido concretizar os seus intentos e Vasco da Gama ordenou a partida imediata pala Melinde (também no moderno Quénia), onde talvez encontrassem algum piloto que conduzisse a frota à Índia.
No caminho, a esquadra deparou-se com uma pequena embarcação apinhada de muçulmanos, que logo foram apresados sem contemplações. Entre os reféns contava-se um homem idoso acompanhado de uma jovem e bela esposa; para a salvar, o detido prometeu a Gama fornecer-lhe um piloto assim que chegassem a Melinde. E assim aconteceu: nesta cidade, o homem, pelos vistos pessoa bem relacionada, desenvolveu todos os esforços para cumprir a promessa, visitando o xeque local e descrevendo-lhe os portugueses e o seu poderoso e distante rei D. Manuel nos termos mais elogiosos que pôde.
O xeque ficou com tal curiosidade de conhecer Vasco da Gama que lhe enviou emissários pedindo que desembarcasse, mas o nosso comandante achou mais prudente não o fazer, alegando que o seu rei o proibira de abandonar os navios (o que era verdade). O xeque lá aceitou a explicação e organizou, mesmo assim, grandes festejos de acolhimento da esquadra estrangeira.
Só que, à última hora, Gama sempre se decidiu a violar as instruções de D. Manuel I e a ir abraçar o amistoso xeque na praia, ocasião que o anfitrião aproveitou para lhe pedir aliança com Portugal. Esta bela amizade em terras hostis é largamente descrita por Camões n’Os Lusíadas. A substância do célebre poema épico é, como se sabe, a descrição da História de Portugal feita por Vasco da Gama ao “sultão” (como os portugueses chamavam a todos os monarcas muçulmanos) de Melinde.
O piloto efetivamente fornecido por este imprevisível aliado mostrou ser um verdadeiro sábio. Ben Madjid de seu nome conduziu a frota portuguesa ao porto indiano de Calecute sem o menor desvio, atravessando o mar Arábico em 23 dias e aportando ali a 20 de maio de 1498.
Finalmente, a Índia
A frota de Vasco da Gama chegou, pois, à Índia. Mas que Índia era aquela? Claro que, no final do século XV, não se tratava de um país unificado – longe disso.
Em termos simplistas, a norte, no vale do rio Ganges, estendia-se o Império Mogol, enquanto o interior da península indostânica era ocupado pelo império de Vijayanagara, a que os portugueses chamaram, não sem alguma graça, “reino de Bisnaga”. Ao longo da costa do Malabar, o setor sul da orla ocidental da Índia, existia um rosário de pequenos estados, em regra semi-independentes e tributários de Vijayanagara.
Um desses pequenos estados, Kozhikode (Calecute para os portugueses), viria por sua vez a constituir um pequeno império governado por um rajá cujo título era samutiri, que significa “grande senhor do mar” e que os nossos deformaram para “samorim”. Apesar de professar a religião hindu, o samorim de Calecute era, como toda a casta dirigente da costa do Malabar, um grande amigo e aliado dos muçulmanos desde que, seis séculos antes, os árabes tinham estendido o seu domínio comercial (e não só) a quase todo o mundo conhecido.
Concretizado o velho sonho europeu de atingir a Índia por via marítima, Vasco da Gama optou por fazer ancorar a esquadra num local um pouco afastado da cidade de Calecute, junto de uma aldeia de pescadores chamada Kappakadavu. Como era costume, um condenado foi incumbido de desembarcar a fim de tomar o pulso da região. Crivado de perguntas, o desgraçado não percebia uma só palavra do que lhe diziam, quando eis que surgiu um “mouro” que lhe lançou, textualmente, as seguintes palavras: “Al diablo que te doo; quem te trouxe acá?” A presença ali de um indivíduo que falava uma língua tão familiar depressa se esclareceria: tratava-se de um mouro natural de Tunes, no Norte de África, chamado Monçaíde. E pensar que os portugueses se tinham visto na necessidade de contornar toda a África para chegar a um sítio onde alguém se lhes dirigia praticamente na sua língua!
Entre o samorim e o catual
Foi através desse tal Monçaíde, convidado a subir a bordo da São Rafael, que Vasco da Gama veio a saber quem era o senhor local. Uma delegação partiu logo ao encontro do samorim, que nessa ocasião andava em cima de um elefante numa caçada ao tigre, e que convidou os navegantes portugueses a irem na manhã seguinte visitá-lo no palácio. Embora os outros capitães achassem mais prudente que Gama não correspondesse ao convite, este decidiu ir mesmo, acompanhado de uma dúzia de homens. De manhãzinha, esperava-os na praia o catual, uma espécie de primeiro-ministro do samorim, à frente de uma delegação de funcionários da corte. Atrás vinham, alinhados, uns 200 guerreiros, conhecidos por naires.
Vasco da Gama subiu para um palanquim erguido aos ombros de quatro indianos e a comitiva rumou ao palácio, atravessando palmares e arrozais. Já dentro da cidade, caminhando entre alas de gente surpreendida, depararam-se com um templo. Julgando encontrar-se perante uma igreja, os portugueses fizeram questão de entrar e de reverenciar os “santos” cujas imagens se destacavam das paredes. Tratava-se, claro, de um templo hindu e de representações dos deuses dessa religião, tudo coisas que eles desconheciam, visto que a única grande religião que conheciam, além do Cristianismo, era o Islão. Só mais tarde se aperceberiam do equívoco.
Quando D. João II morreu sem deixar filho legítimo, sucedeu-lhe no trono o seu primo e cunhado D. Manuel I, que encontrou tudo preparado para a viagem da Índia. Não foi sem razão que foi cognominado O Venturoso.
Foi este que nomeou Gama para o comando da esquadra
O samorim esperava-os no seu palácio, reclinado num fofo tapete de veludo verde forrado de fino algodão. Ordenou que fosse oferecida fruta aos portugueses e estes, esfomeados e carentes de vitamina C devido à longa permanência no mar, devoraram-na sofregamente, o que gerou gargalhadas entre os cortesãos indianos que enchiam a sala. Foi, portanto, bastante envergonhado que Vasco da Gama esperou que o samorim desse seguimento à audiência. Este, finalmente, perguntou-lhe, ainda no meio dos risos dos nobres locais, o que pretendia dele, ao que o visitante respondeu que preferia que os dois tivessem uma conversa em privado. A condição foi aceite e o samorim e o navegador entabularam um longo diálogo numa outra sala, apenas na presença dos intérpretes e de um conselheiro árabe do soberano local. A verdade é que Gama teve artes de convencer o senhor de Calecute de que era de sua conveniência assinar uma aliança com o rei D. Manuel I de Portugal, já que o seu remoto país era uma grande potência e aquele soberano “o mais poderoso do mundo”. Nesta entrevista ficou decidido que os visitantes residiriam durante a sua estada numa casa própria, posta à sua disposição nos arrabaldes. E, guiados pelo catual, para lá se dirigiram.
Na manhã seguinte, o catual foi acordá-los e levantou o problema da rica oferta que, de acordo com os costumes locais, Vasco da Gama, como embaixador, teria de fazer ao samorim. Ao saberem que os nossos não tinham para oferecer nada melhor do que umas peças de pano, uma caixa de açúcar e alguns ramos de coral, desataram novamente a rir. Esta incapacidade de oferecer coisas valiosas serviu de argumento aos influentes comerciantes árabes para convencerem o samorim de que os homens de Vasco da Gama não eram embaixadores de nenhum reino poderoso, mas simplesmente uns reles piratas.
Só na segunda entrevista que tiveram é que Gama entregou ao samorim uma carta de D. Manuel I, na qual era formalmente pedido um tratado de amizade e de comércio. Ora, comércio já era uma linguagem que agradava ao senhor local, que logo autorizou os portugueses a desembarcarem as mercadorias que levavam e a transacionarem-nas na cidade. Como era de prever, o catual ficou furioso e, no dia seguinte, foi atrás dos homens de Vasco da Gama quando estes se dirigiam para as naus (fundeadas, como já sabemos, num local afastado).
Convidando os portugueses a descansarem numa estalagem que ficava a meio do caminho, não tardou que o edifício estivesse cercado por naires e que os muçulmanos impusessem a Vasco da Gama as suas condições: ou mandava ordenar aos seus marinheiros que depusessem as mercadorias em terra, ou eles atacavam. Vasco fingiu aceitar a imposição e escreveu ao seu irmão Paulo, que ficara a bordo, que se ele não aparecesse daí a pouco junto dos navios se fizesse à vela para Portugal e pedisse ao rei D. Manuel que preparasse uma nova esquadra, mais poderosa, capaz de vingá-lo. Paulo da Gama não desembarcou as mercadorias e decidiu que mandaria bombardear a cidade se o irmão não regressasse a bordo num período de tempo razoável. A verdade é que o catual acabou por ceder, deixando Vasco da Gama seguir para os navios.

No dia seguinte, fingindo desconhecer o que se passara, o samorim autorizou os portugueses a fundearem os navios em frente da cidade e cedeu-lhes, mesmo, uma casa para servir de feitoria; simultaneamente, proibiu os negociantes árabes de comerciarem com os visitantes europeus, reservando esse privilégio aos indianos.
Os dias seguintes decorreram na maior harmonia, com os portugueses a passearem pelas ruas e os indianos a visitarem os navios, em amena confraternização. Mas foi sol de pouca dura. Nomeado feitor por Vasco da Gama, Diogo Dias, irmão de Bartolomeu Dias, foi certo dia levar os célebres presentes ao samorim, e a indescritível irrelevância destes deixou o senhor local muito frustrado e, o que é pior, irritado. Ao saber que Dias fora feito prisioneiro na própria feitoria, Gama reteve a bordo da São Gabriel 19 indianos importantes que ali se tinham deslocado em visita de cortesia. O samorim mandou então libertar o feitor e entregou-lhe uma carta para Gama, em que declarava aceitar ser parceiro comercial de D. Manuel I.
Vasco da Gama não ficou ainda satisfeito, pois faltava-lhe recuperar as mercadorias desembarcadas, e por isso enviou a terra seis dos 19 reféns com a mensagem de que os restantes 13 só seriam libertados em troca das mercadorias. Como estas nunca mais chegassem, Gama mandou um dia levantar ferro rumo a Portugal, levando a bordo os reféns.
O percurso de regresso decorreu sem problemas de maior, aparte os inevitáveis atritos com os “mouros” da África Oriental. Antes disso, no mar Arábico, o comandante português ordenou que fosse afundado um barco carregado de peregrinos muçulmanos que se dirigiam a Meca. Enorme crueldade, sem sombra de dúvida, mas, pensando bem, com equivalência nos nossos dias, tão carregados de matanças de civis e de quase genocídios…
Em Melinde, Gama caiu nos braços do seu amigo “sultão”. Por fim, entrou no Tejo a 29 de julho de 1499, dois anos depois da partida, à frente dos 65 sobreviventes dos 170 expedicionários iniciais. Paulo da Gama adoecera gravemente durante a viagem e fora morrer aos Açores, na ilha Terceira (onde se encontra o seu túmulo). O mundo, depois desta viagem, era já outro, aberta que estava a estrada líquida para o Oriente.
Vasco da Gama foi premiado por D. Manuel I com recompensas materiais, a partícula “Dom” e o título de “Almirante do Mar da Índia”. Mais tarde seria feito conde da Vidigueira. Haveria de regressaria à Índia em 1502, comandando dessa vez 20 navios. Foi uma expedição muito diferente da primeira, mais manifestação de força do que tentativa de aproximação diplomática. E morreria no decorrer de uma terceira viagem sua ao mesmo destino, na véspera de Natal de 1524, quando ia ocupar o posto de governador e foi acometido de um fatal ataque de malária. Exatamente meio milénio passou desde então.
Nessa altura, já o Estado Português da Índia tinha sido delineado e concretizado por Afonso de Albuquerque. Com efeito, às primeiras viagens à Índia seguiram-se muitas outras, ao longo de séculos, num vaivém marítimo designado por Carreira da Índia. Para comandar a segunda expedição, logo em 1500, tinha sido escolhido Pedro Álvares Cabral, que no caminho descobriu oficialmente o Brasil. Chegado à Índia, Cabral fundou, em Cochim, o primeiro estabelecimento europeu no Oriente.
Os nossos antepassados estabeleceram naquelas paragens um império comercial baseado no poder de tiro dos canhões e fixaram-se em vários pontos da costa, com destaque para Goa, cabeça do Estado Português da Índia, que, tal como Damão e Diu, apenas seria integrada na “nova” Índia independente em 1961 – e também pela força das armas. Região eminentemente turística, Goa, com as suas praias, gastronomia e características muito próprias, é hoje “a Riviera da Índia”. Mas tudo isto foi, como alguém disse, o “império dos pardais”, pois os holandeses, os ingleses e os franceses não tardariam a seguir no rasto das naus portuguesas e a suplantar os nossos antepassados em poder militar, tecnologia e capacidade organizativa.
Pauzinhos e nozes
Se a busca da pimenta foi o verdadeiro motor da viagem de Vasco da Gama, existem outras especiarias muito apreciadas. Por exemplo, a canela, que rima com pastel de nata. Que os povos mediterrânicos já a conheciam na Antiguidade é atestado pela Bíblia, que a ela se refere por diversas vezes. Os romanos pensavam que era originária da Arábia, mas estavam enganados, visto que essa península era um mero ponto de passagem do produto na sua longa caminhada, sob muitos aspetos semelhante à da pimenta.
Os portugueses, nas suas andanças pelo Oriente depois da primeira viagem de Vasco da Gama e do estabelecimento da “carreira da Índia”, aperceberam-se de que o principal ponto difusor da canela era a ilha de Ceilão (hoje Sri Lanka). A permanência dos nossos antepassados na grande ilha, onde muitos apelidos têm ainda ressonâncias lusas, prende-se sobretudo com esta especiaria, que permitia fazerem-se negócios tão bons como os da pimenta. O monopólio destes cobiçados produtos passaria das mãos dos portugueses para as dos holandeses, que aumentaram os preços, e das destes para as dos ingleses, tudo em menos de cem anos. Os nossos ancestrais de há quatro séculos e os dos holandeses (ou neerlandeses, como pedem agora que se diga) travaram até uma grande guerra pela posse da ilha e do mercado.
Antes de se retirarem definitivamente de Ceilão face ao avanço inglês, os holandeses meteram ao bolso sementes de canela, que plantaram em Samatra, Java e Bornéu, grandes ilhas da atual Indonésia (até à independência, em 1945, conhecida por Índias Orientais Holandesas). Os portugueses fizeram o mesmo do Brasil e os franceses, que entretanto tinham tido acesso à planta, na ilha Maurícia (então Île-de-France).
Quem fala de pimenta e de canela fala também de noz-moscada. Esta especiaria chegou à Europa mais tarde do que as duas anteriormente referidas, já no período da expansão árabe. Primeiro usavam-na para fins aromáticos, à maneira do incenso, mas a certa altura passou a ser utilizada na confeção da cerveja, entrando dessa forma na cadeia alimentar. Julgava-se no Ocidente que a noz-moscada provinha da “Índia” (que era então uma noção geográfica vaga), e seriam os portugueses a descobrir que a sua pátria eram as ilhas Molucas, que hoje fazem também parte da Indonésia. Dali era ainda originário o cravinho. Antes da irrupção dos portugueses no arquipélago, já os soberanos locais faziam bom dinheiro à custa destas exportações. Escusado será dizer que, uma vez mais, aos comerciantes portugueses se seguiram ali os seus congéneres holandeses e a estes os ingleses. Porém, desta feita, a presença neerlandesa reiniciar-se-ia posteriormente, com a consolidação do seu domínio sobre o gigantesco arquipélago indonésio.
Um dia, na Índia, um jornalista português (por acaso, o autor deste texto) fazia compras a vendedores de rua na companhia de uma camarada belga. Por mais de uma vez, notou que os comerciantes identificavam imediatamente a nacionalidade portuguesa, mas desconheciam a existência de um país chamado Bélgica. Por outro lado, e como se viu há um quarto de século nas negociações para a restituição de Macau, a poderosa China continua a tratar Portugal com a deferência devida a um parceiro ancestral. Quanto aos japoneses, conhecem desde os bancos da escola as andanças dos velhos portugueses pelo Oriente, introdutores da espingarda no arquipélago. E não é verdade que a língua que falamos é a sexta do mundo enquanto idioma materno? Bom ou mau – ou, simplesmente, factual – , tudo isto se deve a um fenómeno chamado “Descobrimentos”.
À laia de remate, assinale-se que, por curiosa coincidência, Luís de Camões nasceu no ano em que Vasco da Gama morreu. Tratou-se de uma espécie de continuidade imediata no tempo entre a vida do descobridor do caminho marítimo para a Índia e o poeta que, n’Os Lusíadas, cantaria a viagem que mudou o mundo, e de que Vasco da Gama é o herói, à semelhança dos protagonistas da Odisseia, de Homero, e da Eneida, de Virgílio. “Cesse tudo o que a musa antiga canta,/ que outro valor mais alto se alevanta”, escreveu, com um certo exagero patriótico, o poeta, relegando para segundo plano os feitos dos míticos Ulisses e Eneias.
Estranhamente, antes de, em 1998, ter sido inaugurada a monumental Ponte Vasco da Gama sobre o estuário do Tejo, não existia em Portugal nenhuma forma de homenagem pública bem visível e permanente àquele que foi – e é – um dos mais famosos “portugueses universais” de sempre.