Lavava as mãos 98 vezes por dia. Estávamos em meados dos anos 80, e Maria (nome fictício) tinha um número exato para abrir a torneira de casa. Contava inexoravelmente as vezes que precisava de o fazer. Tinha 40 e poucos anos e “nem nos filhos pegava”, recorda Manuel Domingos, neurologista no Hospital Júlio de Matos, que a seguiu. Maria tinha uma “perturbação obsessivo-compulsiva perfeitamente intratável”, o comportamento repetido causava-lhe dor e afligia a família. Como tratamento de último recurso, a paciente foi sujeita a uma leucotomia pré-frontal (vulgarmente conhecida como lobotomia). Foi a penúltima pessoa a ser sujeita a esta psicocirurgia em Portugal.
Manuel Domingos lembra-se de que o bloco operatório parecia “um estádio de futebol em dia de jogo grande” – além dos neurocirurgiões e enfermeiros, estavam vários psiquiatras. Um deles, o clínico que recomendou a lobotomia a Maria, “estava sempre com sono”, graceja Manuel Domingos. Depois de fazerem o primeiro furo no crânio – sendo que, na leucotomia pré-frontal, são feitos dois, um de cada lado da cabeça –, alguém se virou para o psiquiatra e disse: “Ó doutor, pode ir embora, que do outro lado é igual”, lembra, a rir, o neurologista.
