A prisão de Urfi Cetinkaya, ontem, num apartamento em Istambul, Turquia, passou praticamente despercebida em Portugal. Poucas horas depois, seria anunciada a detenção de um português em Madrid, Espanha, na posse de 50 quilos de heroína (que, na verdade, ocorrera em janeiro). As autoridades portuguesas e espanholas acreditam que os dois acontecimentos estão relacionados.
A história explica-se rapidamente. O nome de Urfi Cetinkaya pode dizer pouco (ou nada) ao comum dos leitores, mas este turco, de 74 anos, é, há muito, considerado pelas autoridades europeias, o principal traficante de heroína da Europa, dominando o mercado no Velho Continente, pelo menos, desde a década de 1980. Estatuto que não perdeu, sequer, após ficar preso para a vida a uma cadeira de rodas – o que lhe valeu a alcunha de “O Paralítico” –, na sequência de um tiroteio com a polícia turca.
Segundo apurou a VISÃO, as autoridades acreditam que terá sido, precisamente, ao grupo de Cetinkaya que o português detido na capital espanhola adquiriu os 50 quilos de heroína – que, depois de introduzido no mercado, poderiam valer até €1.625 milhões, de acordo com os preços que constam no Relatório Europeu sobre Drogas de 2022.

Identificado como P.M.A., este português, nascido em Lisboa, com residência no município de Vila Franca de Xira, acabaria detido numa operação conjunta da Polícia Nacional espanhola e da agência norte-americana DEA [Drug Enforcement Administration], no passado dia 8 de janeiro, depois de apanhado em flagrante num parque de estacionamento público em Las Rozas, Madrid. O anúncio da detenção surgiria, apenas, ontem, depois de deflagrada a ação que colocou Urfi Cetinkaya atrás das grades.
Segundo acreditam as autoridades portuguesas e espanholas, o objetivo de P.M.A. seria introduzir a droga no mercado português.
A ascensão e queda do “barão da heroína”
A Turquia encontra-se no epicentro do tráfico de heroína na Europa, desde os anos de 1960. Aproveitando a posição geográfica do país euro-asiático, grupos criminosos multiplicaram-se com o objetivo de criar redes de transporte deste estupefaciente a partir do Afeganistão e Irão (países produtores) até ao centro e norte da Europa, através do extenso território turco, passando por países como Bulgária, Roménia e Moldávia.
Seria, porém, na década de 1980 que este negócio floresceria em força. Com a entrada em cena da máfia albanesa, a região dos Balcãs passou a ser o principal canal para a chegada de heroína à Europa, em grandes vagas. Por via marítima, os portos de Antuérpia (na Bélgica) e Roterdão (Países Baixos) também passaram a servir como “porta de entrada” da droga no espaço europeu consumidor.
Foi, aliás, neste contexto que Urfi Cetinkaya cresceu e se consolidou como grande “barão da heroína”. Na mira das autoridades, a partir de finais da década de 1980, “O Paralítico” passaria várias vezes pela prisão, na Turquia, mas também em Espanha, país onde se fixou, durante vários anos. Com fortes ligações à região de Pontevedra (na Galiza) e Portugal – onde as autoridades acreditam que terá um sócio –, protagonizou uma “guerra” sem quartel contra o superjuiz espanhol Baltasar Gárzon, mas, antes de poder ser levado à justiça, acabaria por se “evaporar”.
Refugiado no seu país-natal, ainda foi preso, uma vez mais, em 2000, mas seria colocado em liberdade, apenas um par de anos depois, por razões de saúde. Nas últimas duas décadas, decidiu dedicar-se a projetos com vista a “limpar” a sua imagem pública. Ligado a vários partidos e movimentos políticos, ao longo dos anos, faria uma aposta em investimentos públicos, em prol da comunidade, construindo várias escolas e até um centro hospitalar, acreditando, assim, “estar protegido pelo Estado”, como chegou a afirmar a pessoas que lhe eram próximas.
Entretanto, a heroína continuou a chegar à Europa (incluindo a Portugal). Três meses depois da grande apreensão de 50 quilos daquele estupefaciente, em Madrid, na posse do português P.M.A., Urfi Cetinkaya caiu. Arrisca, agora, uma pena de 24 anos de prisão.