Uns aproveitam o Dia de São Valentim para celebrar, outros para medir o pulso ao namoro. Pelo meio, há quem ignore a data, faça contas à vida sexual ou afetiva, e, não menos frequente, quem experimente aventurar-se, mais uma vez, nos mercados do amor, do romance e dos encontros casuais.
Tudo isto acontece sem o calendário a pontuar o curso das escolhas, embora ele sirva de pretexto para saber em que param as modas, ou seja, o que diz a ciência dos dados.
O mais recente inquérito do Pew Research Center, sobre os encontros online na América, realizado no verão passado, confirma o que já se suspeitava: desde o nascimento do Tinder, há uma década, os encontros remotos normalizaram-se (foram alavancados, até, durante a pandemia) e já não são olhados de lado.
Dos seis mil adultos inquiridos, trinta por cento afirmaram recorrer às apps e sites de encontros de forma habitual e foi assim que iniciaram relacionamentos estáveis (quase 10% dos encontros heterossexuais e 24% no caso das uniões entre lésbicas, gays e bissexuais).
Sem surpresas, os jovens adultos com idades abaixo dos 30 anos foram os principais utilizadores (53%) e, para 79% deles, a única maneira de encontrar parceiros online ocorreu via Tinder. O recurso aos encontros online diminui em faixas etárias mais avançadas: entre os 50 e os 64 anos, por exemplo, representaram 20% e, a partir dos 65, ficaram-se pelos 13%. Após os 50 e mais anos, as preferências passaram para o Match (50%), em detrimento da aplicação líder de mercado (11%).
“Foi bom?” As opiniões dividem-se
O saldo da experiência revelou-se positivo para mais de metade da amostra (um terço recorreu aos serviços pagos das plataformas), com um dado curioso: enquanto 54% das mulheres se sentiram assoberbadas pela quantidade de mensagens recebidas nesse ano (só 25% dos homens o referiram), no masculino a maioria admitiu ficar inseguro pela falta de mensagens recebidas, ou seja, bem mais do que elas (64% e 40% respetivamente). Quase todos relataram, algumas vezes ou frequentemente, ter-se sentido desiludidos.
Na hora de avançar, é fundamental saber o se quer: um relacionamento duradouro (44%), encontros ocasionais (40%), apenas sexo (24%) ou criar novas amizades (22%). Resta saber se estas funcionalidades facilitam o processo. Os resultados do inquérito não dão certezas: apesar de quatro em cada dez inquiridos acharem que sim, para 32% não fez diferença nenhuma e um quarto da amostra (22%) viu a tarefa dificultada se a meta era encontrar um parceiro estável.
Em qualquer dos casos, só 21% depositam no algoritmo a função de oráculo e mais de metade (53%) admite que as questões de segurança são reais, sobretudo no feminino, mas uns e outros confessaram ter tido suspeitas de que, entre as pessoas que contactaram online, algumas estariam envolvidas em esquemas fraudulentos.
Quem disse que era simples?
Nas questões da intimidade, há que aceitar que o risco e a complexidade fazem parte da equação. E que o novo parceiro de jogo digital lucra com isso. Em 2022, no mundo inteiro, e segundo a Global Consumer Survey (Statista), os utilizadores do online dating superaram a fasquia dos 366 milhões, com o Internet dating a representar uma receita de 2,7 mil milhões de euros.
Em Portugal, estima-se que os ganhos representem 4,16 milhões de euros este ano, mas as previsões até 2027 são menos animadoras, com um decréscimo de 0,32%. A mesma fonte refere o Tinder e o Zoosk como as apps mais procuradas para contacto casual e flirt, com mais utilizadores no intervalo etário dos 35 aos 54 anos (que representa 67%), estando o sexo masculino em clara vantagem.
A procura destes serviços, nas versões gratuita e paga, veio para ficar, e até as redes sociais não dispensam a funcionalidade dos encontros. Porém, nas conversas de café e nas plataformas digitais, abundam relatos de insatisfação, que pode dever-se, em parte, ao tão falado ‘paradoxo da escolha’: o excesso de opções e o constante deslizar de perfis acaba por revelar-se uma missão desgastante e, até, dificultar os processos de decisão (sabe-se lá se não haverá outra opção melhor?).
“Muitas vezes, a procura nem sempre é modulada pelos melhores motivos”, explica o psicólogo e sexólogo João Taborda. É o caso de quem recorre às apps com a intenção de “conhecer alguém que tenha uma função contentora e faça esquecer um relacionamento que terminou; havendo expetativas muito altas, elas têm mais probabilidade de ser defraudadas.”
Sendo certo que o estigma se esbateu nos últimos anos, o clínico acompanhou pessoas que “deixaram o cônjuge para viver e constituir família com alguém que conheceram online”, sendo essa uma evidência de que esta é uma via como qualquer outra para encontrar o amor e consolidar relacionamentos. “As pessoas sabem o que querem quando recorrem a esta via”, assegura. “Se houver uma aceitação, vão em frente, ou então vão só para falar; se prolongam ou não, tem a ver com esse entendimento.”
Agora que o pior já passou – os confinamentos que a pandemia trouxe – João Taborda faz um ponto da situação e adianta: “Falava-se em recuperar o tempo perdido mas não vejo isso, pois muitos continuam a queixar-se.” Ou seja, independentemente do registo, a vida é difícil.
Começar com o pé direito
Num artigo recente do Thriving Center Of Psychology foram identificados alguns obstáculos ao namoro, na sociedade atual: a impessoalidade dos encontros mediados pela tecnologia, a ilusão da melhor escolha, a dificuldade em saber o que se quer de um relacionamento, o crescimento de fenómenos como o ghosting (desaparecer sem deixar rasto por falta de química, para evitar o confronto ou por ter um perfil que não corresponde à realidade) e a definição do que é, ou não, considerado assédio e dos códigos implícitos associados ao namoro (que são diferentes, por exemplo, nos milenares ou na geração Z).
“As relações amorosas são importantes para os adolescentes e os adultos, mas é preciso estar consciente dos riscos e das vantagens da tecnologia e ter literacia (digital e emocional).” A afirmação é da psicóloga clínica Tânia Gaspar. A diretora do Instituto de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade Lusíada de Lisboa reconhece que “o Dia de São Valentim costuma trazer uma pressão, sobretudo para quem se sente excluído por não ter um relacionamento”.
Quando um romance acaba, “pode existir algum desencanto e tende-se a ficar mais exigente ou menos flexível para interagir com outras pessoas”. Outras vezes, “acontece não conseguir sentir aquilo que sentiu antes, seja online ou no registo presencial”.
Os dados do estudo Health Behaviour in School-aged Children (HBSC/OMS), que analisa os estilos de vida dos adolescentes em idade escolar nos seus contextos de vida, permitem dizer que, face ao estudo anterior, a primeira relação sexual aconteceu mais tarde (com 11 anos ou menos, foi de 8,5%; entre os 12 e os 13 anos, de 20,5%). “Isto pode ter a ver com a pandemia, mas a partir dos 14 anos, o cenário muda, por ganharem importância a socialização e a intimidade”, esclarece a coautora do estudo: para 71% dos inquiridos, o início da vida sexual aconteceu nessa altura.
Na amostra de 5809 estudantes, com uma média de idades de 14 anos, quase metade não tinha um relacionamento amoroso, mas entre os que disseram tê-lo, 23,5% referiram que era “das coisas mais importantes da minha vida”. Daí que seja fundamental aprender com eles, pois “se acumularem experiências negativas, isso gera frustração e cansaço”. Nesses casos, a abordagem clínica consiste em “perceber o que leva a pessoa a cair num padrão que a desilude e ajudá-la a aproximar-se daquilo que quer na sua realidade”. As queixas tendem a ser mais frequentes nas pessoas mais velhas, “por acharem mais difícil arranjar formas de conhecer pessoas novas”.
Uma nota final, sobre as expetativas face ao amor, nas gerações mais jovens, baseada em estudos prévios: “O namoro e a vida sexual deixou de ser uma prioridade; se fizer parte e for compatível, tudo bem, mas se não for, também está bem; a relação afetiva estável perdeu alguma importância”, remata Tânia Gaspar.
Em síntese, conhecer-se, aprender a estar bem consigo e ter literacia emocional e digital são fatores que devem fazer parte da mochila de viagem, para o que der e vier. São Valentim haveria de concordar com isso.