Não se vê, mas faz-se sentir. E, ao que tudo indica, de forma dolorosa em alguns setores mais conservadores, dada a forte resistência que está a levantar: é uma revolução silenciosa que avança dentro da Igreja Católica nacional, sob o alto patrocínio da Santa Sé, cujo braço atuante em Portugal, a Nunciatura Apostólica, começa a dar sinais da sua fórmula, através da gestão de silêncios e de decisões estratégicas. Os números provisórios de testemunhos recolhidos pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa só vieram expor a latência desse momento, com a agenda das forças progressistas a ser obrigada a vir à luz do dia, em defesa do trabalho com as vítimas e de uma reforma dos protocolos na instituição. Do outro lado da barricada, estão não só fortes organizações católicas como clérigos que lideram as suas dioceses com mão de ferro, ao ponto de contarem com cada vez mais vozes (ainda que discretas) contestatárias da sua atuação.

Trata-se de um processo reformista que não representa uma volta de 180 graus na Igreja, mas antes uma resposta à agenda desencadeada pelo Papa Francisco, que já leva nove anos de pontificado, desde Bento XVI. Apesar de poucos, os bispos que fazem parte dessa fileira, defensora de uma nova relação com as gerações mais jovens, começam a ocupar posições-chave. São os casos do líder da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), José Ornelas, que dirige a diocese de Leiria-Fátima (considerada a mais importante do País, não só pelo culto mariano ali existente mas por dali mesmo vir a maior fonte de receitas da Igreja Portuguesa), e dos bispos de Braga e Évora, duas das três arquidioceses existentes (a outra é Lisboa).
