Pela primeira vez, os cientistas conseguiram traçar todo o trajeto que um asteroide fez até chegar à Terra. Os astrónomos conseguiram reconstruir a sua viagem de 22 milhões de anos até ao céu do Botswana, na África Austral, onde foi avistado a 2 de junho, de 2018, parecendo um rasgão de luz, tão brilhante como o sol. Antes de aterrar, explodiu, espalhando meteoritos pelo deserto do Kalahari.
O estudo foi publicado no final de abril no jornal Meteoritics and Planetary Science, e é a primeira vez que foi possível rastrear estas pedras espaciais até à sua origem. Os dados do Catalina Sky Survey, um projeto da Universidade do Arizona e financiado pela NASA, e do SkyMapper, um telescópio automatizado da Universidade Nacional Australiana, foram capazes de mapear esta jornada. Assim, foi possível perceber que o asteroide era um pedaço do Vesta, o segundo maior asteroide do Sistema Solar, o único brilhante o suficiente para ser visto a olho nu, e que fica localizado entre as órbitas de Marte e Júpiter.
“Mal podia acreditar nos meus olhos quando me deparei com um pequeno objeto que parecia estar a mover-se nas imagens tiradas pelo SkyMapper. As últimas imagens antes do asteroide entrar na atmosfera da Terra foram as maiores contribuições do SkyMapper”, diz Christopher Onken, co-autor do estudo, cientista e astrónomo do projeto do SkyMapper, em comunicado.
Esta é apenas a segunda vez que os cientistas foram capazes de observar um asteroide, antes que este entrasse na atmosfera da Terra, segundo Peter Jenniskens, o autor principal do estudo e especialista em meteoros do Instituto SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence) e no Centro de Pesquisa Ames da NASA. O primeiro foi há 13 anos, com o asteroide 2008 TC3, no Sudão.
Este de que agora falamos, com cerca de seis toneladas de peso e 1,7 metros de diâmetro, passou a atmosfera da Terra a uma velocidade de quase 60 mil quilómetros por hora, fragmentando-se antes de aterrar acima da Reserva Central de Caça do Kalahari. “Conforme o asteroide se partiu a 27 quilómetros acima do solo, ele ficou 20.000 vezes mais brilhante do que a lua cheia”, explica Christian Wolf, co-autor do estudo e professor na Research School of Astronomy and Astrophysics, da Universidade Nacional da Austrália, num comunicado.
Os investigadores, bem como o Departamento de Vida-Selvagem de Bostwana, passaram dias à procura dos fragmentos até encontrarem um pequeno meteorito, que apenas pesava 18 gramas e tinha cerca de 3 centímetros. Passados meses de procura, os investigadores conseguiram encontrar um total de 23 fragmentos do asteroide.
“O nome do meteorito é Motopi Pan, em homenagem a um poço local. Este meteorito é um tesouro nacional do Botswana”, contou Mohutsiwa Gabadirwe, também co-autor do estudo e cientista no Instituto de Geociências de Botswana.
É como procurar pistas por um assassinato que ocorreu há 22 milhões de anos e tentar perceber o que aconteceu.
Hadrien Devillepoix, co-autor do estudo
“Combinar as observações do pequeno asteroide no espaço com as informações recolhidas dos meteoritos mostra que provavelmente veio de Vesta. Mil milhões de anos atrás, dois impactos gigantes no Vesta criaram uma família de asteroides maiores e mais perigosos. Os meteoritos recuperados recentemente deram-nos uma ideia de quando poderá ter ocorrido esse impacto”, explica Jenniskens, em comunicado.
Para os cientistas é complicado compreender a ligação entre os asteroides e os fragmentos que deles advêm. Embora entendam as localizações atuais e os tamanhos de cerca de um milhão de asteroides, não sabem qual a sua composição. Pelo contrário, dos meteoritos conseguem saber a composição, mas não de onde provêm antes de chegar à Terra. “É isso que estamos basicamente a tentar resolver: combinar tipos de meteorito com tipos de asteroides. Rastreando-os até uma cratera provável, é como procurar pistas por um assassinato que ocorreu há 22 milhões de anos e tentar perceber o que aconteceu. Cada vez que recuperamos um meteorito novo com uma órbita associada, lentamente mapeamos a composição do cinturão de asteroides. Quanto mais conseguirmos, melhor fica o mapeamento”, disse Hadrien Devillepoix, co-autor do estudo e astrónomo na Universidade Curtin na Austrália, num comunicado.
A deteção deste asteroide deve-se ao programa de Defesa Planetária da NASA que tem como objetivo identificar potenciais colisões com a Terra. “Pequenos asteroides com um metro de diâmetro não representam perigo para nós, mas melhoram as nossas habilidades de detetar asteroides que se aproximem”, defende Eric Christensen, co-autor do estudo diretor do programa Sky Survey, num comunicado. A descoberta dá-nos mais conhecimento sobre a história do nosso sistema solar.