Após um ano letivo atípico, o mundo inteiro prepara-se para o primeiro regresso às aulas em tempos de pandemia. Com uma média de 56 mil novos casos no últimos sete dias e mais de 150 mil mortes, os Estados Unidos da América representam uma realidade preocupante no que respeita o regresso de alunos e professores às salas de aula. Ao invés do que mostram os números, o Presidente Donald Trump insiste em afirmar que a situação está controlada e, há um mês, assegurou que iria “pressionar muito os governadores e toda a gente para que as escolas sejam abertas”.
Fotografias publicadas esta terça feira, no Twitter, por alunos do Liceu de North Paulding, Georgia, reacenderam a discussão. A escola reabriu na segunda feira e, segundo o Washington Post, não exige aos alunos o uso de máscara nem a prática de distanciamento social. Na fotografia pode-se observar um corredor cheio de alunos, sem espaço para cumprir a distância de segurança, e com apenas dois adolescentes a usar máscara. Hannah Watters, de 15 anos, foi suspensa durante 5 dias por ter publicado algumas destas fotografias, revela o The New York Times.
Apesar do responsável das escolas do condado ter afirmado que “o uso de máscara é uma escolha pessoal e não existe uma forma de o tornar obrigatório”, Ravina Kullar, epidemiologista e porta-voz da Sociedade Americana de Doenças Infeto-contagiosas, mostrou-se chocada com afirmação, ao Washington Post, comentando, “eles vão de castigo se não tiverem a camisa dentro das calças. É possível impor certas regras”.
Já no Indiana, outro liceu fechou um dia após o início das aulas, devido a um aluno infetado com o novo coronavírus que esteve em contacto com diversas pessoas e teve aulas em várias salas. “Sabíamos que seria quando e não se. Só ficamos chocados que fosse logo no primeiro dia”, revelou o superintendente Harold Holin ao The New York Times.
Sabíamos que seria quando e não se. Só ficamos chocados que fosse logo no primeiro dia
Harold holin – superintendente agrupamento de escolas do indiana
A complexidade da situação prende-se com as opiniões divergentes relativamente aos benefícios de manter as crianças em casa. Se, por um lado, a escola é um local privilegiado para o desenvolvimento de dinâmicas sociais e, para muitas crianças de famílias carenciadas, uma porta de acesso, não só à educação como ao acompanhamento psicológico e atividades extra-curriculares, por outro lado, pode representar um meio propício ao contágio, não só das crianças, mas sobretudo dos professores.
Pôr a vida em risco pela educação
Enquanto os pais e encarregados de educação podem escolher entre mandar os filhos à escola de forma presencial ou optar pelo ensino à distância, os professores norte-americanos não têm essa opção. Ao trabalharem em escolas que decidam reabrir com um regime presencial de aulas, a escolha divide-se entre a saúde pessoal e dos familiares e o vínculo laboral. De acordo com a CCN, muitos decidiram fazer um seguro de vida e até há quem tenha escrito um testamento.
Após o Conselho de Educação de Orange County ter votado a favor de fazer regressar as crianças às escolas, sem máscaras nem distanciamento social, apesar das mais de sete mil mortes por Covid-19 registadas no estado, Denise Bradford, professora da região, partilhou com a emissora norte-americana a frustração de encontrar, na lista de coisas a fazer, ter de desenvolver um plano para o caso de estudantes e professores morrerem.
A CNN reporta ainda o caso de uma professora de ensino especial que decidiu preparar um testamento e um seguro de vida suplementar, o de uma professora do ensino secundário, que já organizou um fundo fiduciário e um testamento em vida para o filho de 19 anos, cidadão de alto risco, e ainda o caso de uma professora primária que afirmou, “fazer um seguro de vida suplementar é uma prioridade para este fim de semana”.
Fazer um seguro de vida suplementar é uma prioridade para este fim de semana
Professora primária norteamericana
A responsabilidade dos planos de reabertura das escolas foi deixada nas mãos dos distritos escolares, a nível local, tendo em conta os contextos de cada um, orientados pelas autoridades estaduais e pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC).
Normas pouco claras e centralizadas
Num comunicado emitido pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) a 23 de julho, são apontados diversos fatores que confluem para tese de que a abertura das escolas é, não só económica e socialmente fundamental, como benéfica para a saúde mental das crianças. Após afirmar que evidêcias científicas apontam para um menor risco de contração, contágio e transmissão da Covid-19 em crianças, relativamente aos adultos, o documento declara, “a educação presencial oferece um acesso facilitado a serviços escolares, melhor eficácia educacional, mais oportunidades de interação social e oportunidade de os encarregados de educação regressarem ao trabalho, ainda assim há um maior risco de exposição à Covid-19 para as crianças, relativamente ao ensino virtual”.
O CDC acompanhou ainda o comunicado de uma série de documentos destinados a ajudar os encarregados de educação na escolha entre mandar os filhos para a escola ou mantê-los em casa. Os documentos publicados a 23 de julho surgiram, no entanto, após Donald Trump ter criticado as medidas inicialmente sugeridas pela instituição para reabertura das escolas, apelidando-as de “demasiado duras e caras”, num tweet onde se pode ainda ler “querendo-as abertas, eles estão a pedir às escolas que façam coisas muito pouco práticas. Reunirei com eles!!!”
I disagree with @CDCgov on their very tough & expensive guidelines for opening schools. While they want them open, they are asking schools to do very impractical things. I will be meeting with them!!!
— Donald J. Trump (@realDonaldTrump) July 8, 2020
Em declarações ao The New York Times, Robert Redfield, diretor do CDC, assegurou que o novo conjunto de documentos não se destina a substituir as diretrizes, previamente definidas pelo CDC, para a reabertura das escolas, “mas acrescentar pormenores importantes que possam ajudar os governantes e pais a pensar sobre como aplica, a nível prático, essas mesmas diretrizes”.
Segundo investigadores da Universidade do Texas, mais de 80% dos americanos vive em condados onde é expectável que na primeira semana de aulas, pelo menos uma pessoa de escolas com 500 pessoas (alunos e funcionários), chegue infetada. De facto, alguns liceus nos estados considerados de risco, como Los Angeles e Nashville, já anunciaram que, por agora, as aulas recomeçaram apenas online. Já Nova York está a planear uma sistema misto entre aulas presenciais e à distância.
Ainda assim, uma análise de dois economistas da Goldman Sachs revela que pais solteiros, com filhos pequenos ou que não podem trabalhar a partir de casa, correm o risco de perder o emprego, caso não tenham a possibilidade de deixar os filhos na escolha. Os mesmos economistas afirmam ainda que cerca de um terço da força laboral americana pré-pandemia tinha crianças em casa e 15% dessas pessoas (24 milhões) enquadra-se nos grupos de risco apresentados anteriormente.
Quanto a Donald Trump, inaugurou a semana do arranque letivo com um tweet onde defende a tese de que o número elevado de casos se deve ao elevado número de testes, para depois apelar à abertura das escolas. Na terça feira, a mensagem foi telegráfica e escrita em maiúsculas: “OPEN THE SCHOOLS!!!”
OPEN THE SCHOOLS!!!
— Donald J. Trump (@realDonaldTrump) August 4, 2020