Perdi a minha mãe no passado dia 13 de junho. Infelizmente, foi vítima de uma doença oncológica que só muito tarde se manifestou e nos impediu de vencer esta batalha. Lutou e resistiu 6 meses em duras condições dada a realidade que, entretanto, nos afetou a todos nós.
É com um nó na garganta que escrevo estas palavras. É uma dor que não posso calar e cuja indignação passo a explicar. Não escrevo esta carta para relatar o que representa a dor de perder uma mãe, pois certamente todos conseguirão imaginar o que representa tal perda.
As circunstâncias que rodeiam a sua morte, porém, obrigam-me a ir um pouco mais longe. Faço-o de forma mais abrangente por via das imposições com que me deparei na hora de tratar de todos os pormenores relativos ao serviço fúnebre. Já pararam para pensar de que forma é que estamos a sepultar os nossos entes queridos que tiveram o infortúnio de partir na realidade “covidiana” em que mergulhámos?
Como já referi, a causa da morte da minha mãe não foi Covid, ainda assim foi tratada como se fosse, o que é de todo inaceitável! Mesmo apresentando um comprovativo de teste negativo com menos de 48 horas, foi tratada como se tivesse uma doença altamente contagiosa.
A nossa estupefação, da família, começou quando questionámos a agência que contratámos para o efeito, como e quem procederia ao vestir do corpo. Fomos de imediato informados que tinham instruções para a não manipulação dos corpos e que, como tal, os mesmos não seriam vestidos. A estupefação foi dando lugar à indignação com a consequente descrição do que seria a prática que estava preconizada. Os corpos não só não seriam vestidos, por não poderem ser manipulados, como de seguida seriam literalmente enfiados dentro de um saco de plástico, eufemisticamente apelidado de sudário! Há lá ato mais digno do que este?!
Morra-se de Covid ou não, é-se tratado como tal, por igual. Ao menos aqui não há lugar a qualquer discriminação! A ironia é que este gesto constitui um atentado à dignidade humana que nem na hora da morte é respeitado e homenageado como seria suposto acontecer!
Por sermos uma família que questiona, conseguimos felizmente contornar a situação e a nossa mãe acabou mesmo por ser vestida, graças às pessoas que trabalham na unidade onde acabou por falecer. Mas não conseguimos evitar que o corpo agora frio, fosse fechado naquele gélido saco de plástico, antes de a urna ser selada.
Sabemos bem que vivemos tempos conturbados, com contornos difíceis de imaginar, por vezes, para todos. Mas a frieza e o tratamento indiscriminado que estamos a aceitar dar aos nossos entes queridos quando partem deste mundo, não é deste mundo. É desumano, mesmo!
Agora, o foco está todo no desconfinamento, na libertação da clausura a que fomos votados. Só que nos esquecemos de que com estas regras desumanas estamos a condenar aqueles que partem a uma espécie de prisão eterna. E fazemo-lo sem dó, nem piedade! Nunca há uma boa hora para morrer, mas partir desta vida em tempos de Covid é a coisa mais desumana e fria que pode existir!
Com a nossa mãe, o mal está irremediavelmente feito, mas espero que o eco das minhas palavras possa chegar mais longe e impedir que esta situação inaceitável se continue a repetir um pouco por todo o País, sem que tal seja do conhecimento público e que, desta forma, esta denúncia possa garantir um fim bem mais condizente e digno para com a vida humana, sempre e agora, sobretudo, na hora da morte.