Ver um grupo de trabalhadores parados enquanto outros põem mãos à obra é sempre motivo de troça ou indignação, mas uma investigação publicada na Science, depois de observar a organização das formigas, concluiu que ter mais pessoas a trabalhar não é necessariamente melhor quando o espaço é pouco.
Há oito anos que Daniel Goldman, especialista em robótica no Instituto de Tecnologia da Georgia, estuda uma espécie de formigas (as formigas-de-fogo), por ter percebido que compreender a forma como se organizam para escavar os seus túneis pode ser útil para a concepção de robôs. E o seu estudo mostrou que, em determinadas situações, uma abordagem “relaxada” pode ser o melhor.
Até chegar a esta conclusão, a equipa liderada por Goldman pintou os abdómens das formigas “recrutadas” para a investigação para as poder distinguir enquanto construíam um túnel e assim descobriu que 30% das formigas do grupo faziam cerca de 70% do trabalho. Os insetos mostraram-se rapidamente desencorajados por “engarrafamentos” e, quando isso acontecia, tinham flexibilidade para voltar para trás, deixando o trabalho a cargo de uma minoria.
“Algumas delas trabalhavam durante cinco horas seguidas, a andar para cima e para baixo, para cima e para baixo. E a maioria das outras nunca apareceu no túnel”, descreve Goldman ao The New York Times.
O passo seguinte foi tentar perceber porquê e colocou-se a hipótese de se tratar de uma espécie de especialização. Mas retiradas do grupo as formigas que constituíam os tais 30% de escavadoras mais ativas, outras assumiram o seu lugar. “Para nós, isso foi uma pista de que a distribuição desigual da carga de trabalho pode ser benéfica para trabalhos de escavação”, explica à BBC Daria Monaenkova, co-autora do estudo.
“Descobrimos um benefício funcional para a comunidade desta aparente desigualdade no ambiente de trabalho. Sem isso, a escavação, simplesmente, não é feita”, acrescenta Goldman.
Esta compreensão acerca da forma como as formigas evitam aglomerar-se para trabalhar com eficiência na construção de túnel fez os investigadores pensar na sua utilidade em ajudar a entender situações em que cada elemento – formigas, pessoas ou robôs – tem de trabalhar para o mesmo fim do que os outros mas com conhecimento limitado desses outros indivíduos.
Para testar a aplicação da teoria ao mundo real, os cientistas construíram robôs com a “missão” de escavar. A equipa queria perceber como um grande número de robôs se desimcumbiria da sua tarefa em pouco espaço, havendo o risco de colisão uns com os outros e dificultando-lhes os movimentos. Os robôs atiraram-se todos ao trabalho e não tardou a ficarem emaranhados. Uma abordagem “preguiçosa” mostrou-se mais eficaz em termos de consumo de energia e velocidade de escavação.
E isto, para Jeff Aguilar, que monitorizou e analisou os robôs, foi o mais interessante, “esta ideia de que ser preguiçoso, em certos casos, é melhor”.
Passando a teoria para a vida real, Goldman exemplifica que “se houver um desastre natural de alguma espécie, os robôs podem manobrar em espaços complexos e diminutos. Se tentassem ir todos ao mesmo tempo, podiam ficar emaranhados”. “Alguns dos princípios que aprendemos neste estudo podiam ser aplicados nestas circunstâncias”, conclui.