Não fosse a expressão “caminho da suavidade”, significado da palavra judo (ou juu dou, em japonês), e este texto começaria de forma diferente.
É suave e melodiosa a forma como se exprime. E tem sido consistente o caminho de João Pina, 30 anos, um dos mais medalhados judocas portugueses (categoria de -73kg). Prestes a embarcar para Paris, onde vai competir, como sempre, por um lugar no pódio, no Campeonato do Mundo de Judo (23 a 28 de agosto), o atleta lisboeta sente o peso da responsabilidade.
Ser bicampeão europeu revalidou o título em abril não é pouca coisa. Não gosta muito, porém, de matutar nesta parte da equação, preferindo dedicar-se à outra, o treino.
Sente-se preparado para este Mundial, mas não é de doutrinas fixas: “Posso fazer sempre mais, evoluir mais.” Até porque, explica, o judo pode ser bastante injusto. “Às vezes, pensamos que estamos muito bem fisicamente e perdemos ou vice-versa.” Com mais de três dezenas de medalhas ganhas, João nem sabe bem onde as guarda. Servirão, seguramente, para memória futura, “quando for altura de as mostrar aos netos”. Não quer dizer que não lhes atribua importância, muito pelo contrário. É apenas a forma de estar de quem vive intensamente o momento da vitória, para logo depois se focalizar no objetivo seguinte: outro triunfo.
UM ATLETA, DOIS CLUBES
Triunfo é outra palavra-chave na vida de João Pina. Quando, aos 4 anos, começou a praticar judo no Colégio Moderno, em Lisboa, onde estudava, logo se apercebeu de que o kimono (fato da modalidade) iria ser uma espécie de segunda pele. Teve nos pais, ele advogado e ela psicóloga, o indispensável apoio de que precisou. Mesmo quando a escola começou a pesar menos na balança da vontade. Não se livrou de um paterno “olha lá os estudos, João”, mas ele “já estava muito envolvido no judo”. A Matemática e a Física, as suas disciplinas preferidas tirando a que lhe preenchia mais o coração, a Educação Física, foram ficando para segundo plano. Aliás, nunca pensou que, um dia, tivesse de optar. Conciliar a formação com o desporto era, isso sim, o mais importante.
Foi ainda naquele colégio, onde esteve até ao 9.º ano, que teve oportunidade de representar, oficialmente, o primeiro clube, o Judo Académico de Lisboa. Nunca mais parou. Por alturas do 12.º ano, que concluiu no Externato Crisfal, já tinha o estatuto de atleta de alta competição. A escolha do tatame (tapete de judo) começava a justificar-se. Não obstante a modéstia: “A minha progressão como judoca foi gradual, não acho que tenha sido mais rápida do que a de outros colegas. Mas sentia que era mais dedicado.” Essa entrega acabou por aumentar ainda mais quando, em 1998, tinha João 17 anos, o pai faleceu.
“O judo foi o meu escape. Estava a começar a entrar nas competições mais importantes, concentrei-me só nisso e os resultados acabaram por surgir.” Seguiram-se os estudos superiores.
Enquanto frequentava as aulas de Ciências do Desporto, na Faculdade de Motricidade Humana fez dois anos deste curso e mudou, entretanto, para Fisioterapia, treinava, incansavelmente, no Estádio Universitário. Foi, aliás, a proximidade da universidade com o local de treino que o levou a escolher aquele canudo. “Se fosse hoje, teria optado por Medicina”, diz, talvez influenciado pela mulher, médica. Pelo caminho mudou de emblema. Vestiu o kimono do Clube de Judo da Universidade Lusófona e, em 2010, transferiu-se para o Sporting, onde se mantém. Muito embora, desde 2003, represente, também, as insígnias do alemão TSV Abensberg. O judo não é como o futebol. “Posso ter dois clubes ao mesmo tempo, não posso é representar ambos na mesma competição”, esclarece.
GUERREIROS DO ‘TATAME’
A notoriedade do judo tem vindo a crescer desde que Nuno Delgado ganhou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000. João Pina é um espetador privilegiado deste fenómeno de popularidade e até encontra explicação para ele: “Parece-me que a maior parte das pessoas não percebe muito bem a modalidade, mas gosta de ver. Por ser uma luta, veem-nos como guerreiros.” Com duas presenças em Olimpíadas, em Atenas e Pequim, prepara-se para uma terceira participação, em 2012.
“Quero muito ganhar uma medalha em Londres.” E não põe de lado a hipótese de ir aos jogos do Rio de Janeiro, em 2016. Sabe que não é normal, no judo, competir com 35 anos idade que terá nessa altura, mas se a condição física estiver no nível máximo…
Um objetivo de cada vez, no entanto, como mandam as regras deste judoca.
Agora, o que interessa mesmo é o Mundial da próxima semana. A preparação começou há dois meses, depois do Grand Slam do Rio de Janeiro, onde ganhou a medalha de prata lá está, um torneio de cada vez.
Treina diariamente: de manhã dedica-se à Fisioterapia e, ao entardecer, à luta de judo. Os fins de semana, esses, são para descansar, brincar com os filhos, Manuel, de 3 anos, e Vasco, de 1, e praticar BTT ou desafiar as ondas da Ericeira com a prancha de surf. “Sou um maçarico, mas adoro andar no mar”, diz, entre risos.
A disciplina de trabalho já lhe está tão entranhada que, assim como o kimono é a sua segunda pele, o treino de luta da tarde é um momento sagrado. “Quando não estou em competição, não sei o que hei de fazer àquela hora.” Um dos fatores mais importantes no judo, se não primordial, é o peso.
Os atletas competem em categorias de peso e a de João Pina é, como já se apontou, de -73kg. Não se pense, porém, que a ditadura da balança é coisa que o preocupe.
Conhece o seu corpo e sabe até onde pode ir. Apesar de gostar de comer bem “Não é muito, é bem”, sublinha, e de se considerar bom petisqueiro e cozinheiro, a boca tem de ser fechada.
E, claro, há técnicas apreendidas ao longo dos anos. Que João explica em três atos: “Na fase de preparação para a competição, chego aos 79 kg, que são ganhos em massa muscular”; “A um mês da prova, inicio a dieta para chegar aos 75 kg”; “Um dia antes do torneio, altura em que nos pesam, perco 2 kg em água. Ou seja, desidrato correndo e vestindo mais roupa para suar.” E aí estão os 73 kg.
O atleta concilia o trabalho para os clubes que representa, mais, claro, a seleção nacional, com a de professor de judo na Associação Tempo Mudar, no bairro de Chelas, em Lisboa, onde ensina crianças dos 4 aos 18 anos. Além disso, conta, mensalmente, histórias a crianças internadas na Unidade de Pediatria do Hospital de Santa Maria, através da ação solidária Um Livro Por Um Sorriso. Comovido, diz que tem “arrancado muitos sorrisos”. Os mesmos que quer provocar durante o tal suave caminho, de que falámos no início do texto, que o leva ao pódio.
Palmarés de fazer inveja
Algumas das mais importantes medalhas conquistadas pelo judoca João Pina nos últimos cinco anos:
2011
Ouro Campeonato da Europa, Turquia
Prata Grand Slam do Rio de Janeiro, Brasil
2010
Ouro Campeonato da Europa, Áustria
Ouro Grand Prix da Holanda
Ouro Taça do Mundo, Portugal
Bronze Grand Prix da Alemanha
Bronze Campeonato Europeu de Clubes, Rússia
2009
Bronze Campeonato Europeu de Clubes, Alemanha
2008
Ouro Taça do Mundo, República Checa
Bronze Campeonato Europeu de Clubes, Estónia
2007
Bronze Taça do Mundo, Reino Unido
Bronze Grand Slam da Rússia