Gonçalo Rocha, 36 anos, presidente da Câmara, socialista, mandou vasculhar, durante dias, os arquivos municipais, à procura de compromissos antigos. E assumidos. No mínimo, ele esperava encontrar garantias de que promessas feitas pelo Governo de Guterres a Castelo de Paiva, na sequência da tragédia da ponte, tivessem sido cumpridas. No final da busca, concluiu, com desalento, à VISÃO: “Não existe, no município, qualquer documento que comprometa o Governo com alguns dos investimentos importantes anunciados então nos jornais. Não digo que não haja, mas até agora não encontrámos.”
Nos primeiros tempos, nem tudo foi esquecido. Castelo de Paiva ganhou uma rede de apoios e infraestruturas sociais de fazer inveja e viu problemas pontuais resolvidos. Ponto final. “As ligações às principais vias rodoviárias, nomeadamente o IC35, permanecem adiadas e esquecidas. Por causa de uns poucos de quilómetros, continuamos no fim do mundo”, desabafa o autarca, desencantado com “alguma relutância” dos governantes em deslocarem-se ao concelho, talvez receando o confronto com outras tragédias: além do isolamento rodoviário, o dobro da taxa de desemprego nacional, a falta de médicos, a incapacidade para acudir a situações de alarme social, os parcos recursos financeiros, a dívida vertiginosa. “São mais de 18 milhões de euros, o dobro do orçamento. Se o Tribunal de Contas não aprovar o nosso plano de saneamento financeiro, Castelo de Paiva para e, em breve, não teremos dinheiro para pagar os salários”, admite Gonçalo Rocha, que solicitou uma audiência ao primeiro-ministro para abordar “a grave situação” do concelho.
Quando chegou à autarquia, em 2009, vencendo as eleições por 22 votos, este professor de História, filho de um cantoneiro e de uma doméstica, indignou-se com o desperdício e a pouca credibilidade do município: “Tínhamos crédito cortado nas mercearias e drogarias. Nem um prego nos fiavam.” Passado pouco mais de um ano, Gonçalo Rocha já consegue agarrar-se a um punhado de boas notícias: a requalificação das margens do Douro, a melhoria do abastecimento de água, os projetos turísticos em andamento, os pequenos investimentos que começam a frutificar e o sonho de ver uma empresa suíça de componentes para relógios instalar-se, em breve, no município. “Esta terra já fez vários lutos, mas somos gente habituada a reerguer-se e que sabe agarrar as oportunidades. Assim elas apareçam.”