Do Capitólio, a vista para o Altar Papal era privilegiada. É certo que, dali, ver o Papa de frente só mesmo pela televisão. Ao contrário do que os polícias que faziam guarda no local nos tinham dito, o Papamóvel nunca chegaria a passar diante do café situado à direita da Câmara Municipal. Mas, aquela vista lateral reservava outros privilégios. Mesmo em frente, estavam as escadas de acesso ao Altar – não aquelas por onde mais tarde passaria Bento XVI, mas as que subiriam todos os convidados a assistir à Missa em lugar de honra: Cavaco Silva, Rui Rio, D. Duarte e D. Isabel, Pedro Passos Coelho, Rui Moreira, Aguiar Branco e várias dezenas de ilustres, entre os quais, porém, não se encontravam os Presidentes das Câmaras de Gondomar e de Vila Nova de Gaia…
Quem seguiu atentamente os bastidores da cerimónia, não deixou escapar as caras de espanto e indignação que Valentim Loureiro e Luís Filipe Meneses fizeram quando, na secretária montada à entrada do Altar, souberam que não tinham lugar reservado junto ao Santo Padre e aos convidados ilustres. O mais discretamente possível, seguiram então para os bancos corridos forrados a vermelho, mesmo em frente ao Altar Papal, onde se sentavam também os entusiastas jovens jesuítas do CREU, que não perderam a energia – mesmo depois da directa feita na Avenida dos Aliados a receber os peregrinos – e cantavam “E viva o Papa lá lá lá”, com a música de Glória Gaynor.
Menos sorte que os Autarcas, porém, teve o Ministro das Finanças Teixeira dos Santos. Ele, sim, até tinha lugar reservado no Altar Papal, mas os assobios e apupos de quem esperava o Papa na rua ou nas muitas janelas que se encheram para assistir à cerimónia, não passaram despercebidos a ninguém que se encontrava no local. O Ministro não reagiu, subiu tranquilamente as escadas, e assim as desceu à saída, onde teve de esperar largos minutos pelo carro que o levaria ao Aeroporto. Nessa altura, já passada a homilia e serenados as almas pela mensagem de Bento XVI, não se ouviram manifestações de desagrado.
Ou talvez, simplesmente, já tivessem os fiéis o olhar posto nos enfeites que embelezaram o Altar Papal. Começaram discretamente por tirar as flores para levar para casa, mas rapidamente passaram aos vasos. Afinal, os tempos são de crise…