Falta pouco tempo do Grande Prémio de Spa, uma das mais míticas provas do calendário da Fórmula 1 (F1), e nas ruas de Francorchamps, na Bélgica, o ambiente é já de festa. Vamos ao que nos interessa – à zona das motor-home, as impressionantes e modernas estruturas que servem de base às equipas, de acesso exclusivo e condicionadíssimo. Movimenta-se, ali, uma fauna diversa de patrocinadores, convidados VIP, adeptos fanáticos, beldades para todos os gostos, jornalistas, fotógrafos e… pilotos, os reis e senhores deste território, a quem todos os outros prestam a devida reverência.
Uma conferência de imprensa do piloto espanhol da Renault Fernando Alonso, campeão mundial em 2005 e 2006, está demasiado tumultuosa. Afastamo-nos, para um passo atrevido: uma espreitadela às boxes da equipa francesa. Observamos um autêntico exército de engenheiros e mecânicos, já a trabalhar nos carros que vão disputar o Grande Prémio. O assessor de imprensa, o inglês Will Hings, 24 anos, avisa-nos de que não se pode fotografar os motores dos bólides. Porquê? “Por razões de espionagem industrial.” OK… Lá dentro ouve-se música rock, mas o som da guitarra eléctrica não parece incomodar o trabalho, tão minucioso quanto rotineiro. O ambiente é de laboratório, tudo imaculado e sem se ver uma única pinga de óleo no chão.
De volta às motor-home, damos, no restaurante da Renault, com o piloto francês Romain Grosjean, a almoçar massa com molho de quatro queijos, um dos quatro pratos à disposição no menu, com igual número de entradas e sobremesas, carta de vinhos e buffet de saladas. O serviço é de fazer inveja a restaurantes de luxo. Encontramos, também, uma sortuda argentina, Amália, de 38 anos, desde há cinco bar-woman, na zona VIP da Renault. “Estava de férias em África e um amigo, que conheci lá, perguntou-me se não estaria interessada no lugar”, conta. Requisitos: experiência em hotelaria, facilidade em línguas e disponibilidade para viajar. “Era um emprego à minha medida. Estava no local certo à hora certa.”
TUDO EM FAMÍLIA
Na varanda do lounge da Ferrari, vêem-se beldades estendidas em sofisticados sofás vermelhos, a bebericar cocktails. Na pista, o cenário é bem diferente. Os dois carros da Renault, acabados de chegar de Valência, estão ainda desmontados – e o desafio é acrescido. “Nesta corrida, vamos utilizar dois novos motores”, anuncia Will Hings. Ah! Está explicado o receio da “espionagem”… Num armário próximo, estão os fatos e os capacetes dos pilotos. “São usados dez capacetes por época e um par de luvas por corrida”, revela.
Noutra ala, uma equipa de engenheiros acompanha e monitoriza, em tempo real, defronte de potentes ecrãs de computador, o desempenho do motor. “Dias antes da corrida fazemos uma simulação do Grande Prémio em computador, de acordo com as características da próxima prova, em que corrigimos os defeitos apurados na anterior”, simplifica o brasileiro Ricardo Penteado, 33 anos, engenheiro responsável pelo carro de Romain Grosjean. “Depois, quando chegamos ao circuito, temos de montar o motor e validar a simulação, nos treinos de sexta-feira. No sábado e no domingo, vê-se o resultado deste trabalho.” Ricardo Penteado fala de “sorte” para explicar a sua chegada, já em 2001, à F1. Contamos-lhe a história da argentina Amália e ele ri-se: “Deve ser a resposta mais comum por aqui…”
Centenas de pessoas aglomeram-se junto das barreiras de segurança, concentrando-se em frente das equipas da sua preferência. As boxes da Ferrari, McLaren e Renault são as mais concorridas. A passagem de um carro da BMW, junto das boxes da Renault, provoca apupos. Habituados à paixão do público, os mecânicos das duas equipas sorriem uns para os outros. Ouvem-se, depois, aplausos, com a chegada de Fernando Alonso, que se aproxima dos fãs, escoltado por um segurança. Indiferente a todo o aparato, a equipa de mecânicos da marca francesa faz um treino cronometrado da troca de pneus. Sob as provocações dos adeptos da Renault, fãs da Ferrari infiltram-se e pedem autógrafos ao ídolo adversário. Domingo, acabariam por ser aqueles os últimos a rir, com a vitória do finlandês Kimi Raikkonen, a primeira da Ferrari esta época. Quanto a Fernando Alonso, desistiria, devido a um problema na troca de pneus…
O campeonato, liderado pelo inglês Jenson Button, da Brawn GP, continua no próximo fim-de-semana, em Monza, Itália, onde, por estes dias, o circo já montou novamente arraiais.