André Ventura e Vitorino Silva não vieram para se enfrentar. Isto mesmo deixaram claro no debate, desta segunda-feira noite, na RTP3, moderado pelo jornalista Carlos Daniel, que ficou marcado pela tentativa de ambos os candidatos presidenciais se declararem como o mais antissistema.
Falou-se de democracia, populismo e ainda do tema a marcar a atualidade: a atuação da ministra da Justiça no caso do currículo com erros do procurador europeu nomeado, José Guerra. Se Vitorino Silva afirmou não ter intenção de “mandar nenhum ministro para o desemprego” caso fosse Presidente da República; André Ventura não hesitou em pedir a cabeça de Francisca Van Dunem.
Estes foram os momentos mais importantes do debate:
Justificação da Candidatura
André Ventura
“Faz todo o sentido que me candidate a Presidente da República. O Chega vai ter um papel decisivo nas próximas eleições”
“À direita, sem o Chega e sem o PSD não haverá maiorias de direita em Portugal. Terão de criar condições para formar um Governo.”
Contexto: À pergunta sobre se, para si, as presidenciais podem ser um trampolim para as legislativas, o candidato André Ventura defendeu que o Chega está a ganhar terreno e quer estar presente em todos os atos eleitorais, sobretudo neste, uma vez que defende um regime presidencialista. O líder do partido de extrema-direita assumiu ainda que o seu grande objetivo ” é chegar a uma segunda volta” com Marcelo Rebelo de Sousa, que, na sua opinião “está completamente desacreditado à direita”.
Vitorino Silva
“O mar traz pessoas de todas as cores, sou candidato para deitar os muros clandestinos.”
Contexto: Por sua vez, Vitorino Silva, usando uma linguagem simples, mas metafórica, colocou em cima da mesa o tema da multiculturalidade e dos migrantes, mostrando um conjunto de seixos de várias cores recolhidos numa praia de Peniche para dizer que somos todos iguais e comprometendo-se a lutar por esse ideal. O moderador ainda perguntou se a imagem vinha a propósito do candidato com quem Vitorino debatia, mas o calceteiro de Rãs aproveitou afinal a oportunidade para referir que até concorda com Ventura em alguns temas, como o da redução do número de deputados na Assembleia da República.
A voz do povo
André Ventura
“Há candidatos que representam as elites, nomeadamente, Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa. Não representam o povo.”
Contexto: Ventura aceita a designação de populista e diz que quer ser a voz daqueles que não a têm tido, acusando o Governo de faltar a muitos portugueses enquanto deixa que outros vivam “à conta do nosso trabalho”, numa alusão à comunidade cigana, como clarificou de seguida. Segundo Ventura, os candidatos Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa perpetuarão essa desigualdade entre a “metade que trabalha e a outra que não trabalha”.
Vitorino Silva
“Os meus adversários são todos povo. Só que eu sou mais povo. Eu não apareço ao povo só em tempo de eleições. Eu ando sempre no meio do povo”
“Há muita gente que queria uma oportunidade e não tem. Há ciganos que pedem emprego e não lhes dão porque são ciganos”
Contexto: Foi a vez de Tino de Rans, nome pelo qual é conhecido Vitorino, dar uma lição de ética a Ventura, lembrando-lhe que “os ciganos não são burros. São pessoas” e que é também para eles que fala. Fala para todos, sempre, preconizou.
Caso da ministra da Justiça
Vitorino Silva
“Cada macaco no seu galho. Eu não sou candidato para mandar nenhum ministro para o desemprego. Quem tem essa responsabilidade é o primeiro-ministro”
André Ventura
“Se eu fosse Presidente da República daria um sinal ao Governo e o sinal era que esta senhora ministra não pode ter mais lugar no Governo”
Contexto: É a polémica que está a marcar a atualidade: o caso do procurador europeu José Guerra, indicado pelo Governo, com base num currículo onde havia, pelo menos, duas declarações falsas. Situação que, no entanto, não fez o primeiro-ministro António Costa recuar e deixar de confiar na ministra da Justiça. O jornalista Carlos Daniel perguntou aos dois candidatos se Francisca Van Dunem deveria ser demitida e se se estes fossem eleitos considerariam exercer influência junto do primeiro-ministro nesse sentido. As declarações são opostas.