Em contagem decrescente para o 43º Congresso, o PSD vive uma turbulência interna pouco usual para um partido que, mesmo sem maioria absoluta, governa há dois anos e, se tudo correr como parece, poderá chegar tranquilamente até ao final da legislatura. Há o fantasma de Passos Coelho a pairar com críticas à alegada falta de reformismo de Luís Montenegro, houve a derrota dos montenegristas na distrital de Braga e a disputa pela concelhia de Espinho – a terra de Montenegro – envolvendo uma derrota para o candidato apoiado pelo primeiro-ministro e um caso de acusações mútuas de fraude eleitoral, com – o, até ver, vencedor – Ricardo Sousa a acusar Luís Montenegro de ter falsificado um resultado eleitoral numa eleição interna local há 20 anos, garantindo que o processo que decorre no Conselho de Jurisdição do PSD é, no fundo, outro truque do atual líder para ganhar na secretaria o que perdeu nas urnas. Como se tudo isto fosse pouco, há agora um grupo de militantes sociais-democratas suspensos e ameaçados de expulsão prontos para ir para a Justiça reclamar do processo de que foram alvo, sem poupar nas críticas ao secretário-geral e braço direito de Montenegro, Hugo Soares.
“A realidade ultrapassou a ficção”, diz à VISÃO o advogado de alguns destes militantes, Carlos Canejo, acusando Hugo Soares de passar por cima dos estatutos do partido em vigor à data dos factos que são imputados a estes militantes, mas também da Lei dos Partidos. Em causa está a forma como, pelo menos, dez militantes da concelhia do Porto e 35 da concelhia de Esposende viram os seus direitos de militância suspensos e enfrentam agora um processo no Conselho de Jurisdição Nacional que pode levar à sua expulsão. Segundo os relatos de alguns deles, ouvidos pela VISÃO, e do advogado que representa outros deles, vários descobriram que estavam suspensos apenas quando tentaram ir votar nos órgãos do partido em fevereiro. A plataforma informática indicava que, apesar de terem as quotas em dias, não podiam votar. Sem perceber o que se estava a passar, terá sido na sequência de um email a indagar o sucedido que uma das militantes suspensas recebeu uma resposta de Hugo Soares na qual o secretário-geral alegadamente aludia a um despacho da Jurisdição. Problema: segundo Carlos Canejo, esse despacho não existe (nunca foi dado conhecimento dele aos visados) nem podia determinar a suspensão sem dar o direito de contraditório aos acusados.
