António Pombeiro tem duas reações completamente opostas face ao pedido da adjunta do ministro da Administração Interna, Valentina Marcelino, para tornar mais fácil de comunicar e expurgar de detalhes sensíveis o relatório do SIRESP. Numa primeira reação, o secretário-geral adjunto do MAI não só reage bem às sugestões feitas pela adjunta, como responde a todas perguntas. Só quatro dias depois Pombeiro revela o seu desconforto com a atuação de Valentina Marcelino e ataca o que diz serem indícios de que as perguntas que lhe tinham sido endereçadas por Marcelino teriam, na verdade, sido feitas pelo general Paulo Veigas Nunes, que aproveita para acusar de vários comportamentos pouco éticos ou irregulares, apresentando a sua demissão nesse momento.
O primeiro email a que a VISÃO teve acesso sai da caixa de correio de Valentina Marcelino a 24 de abril às 15h11. Nessa comunicação, “com conhecimento do Sr. Ministro da Administração Interna e para para efeitos de preparação da comunicação das conclusões do relatório do Grupo de Trabalho para o reforço do sistema de comunicações de emergência”, a adjunta dirige-se a António Pombeiro para sugerir “algumas adaptações para a versão pública do documento”.
Nesse email, Valentina Marcelino aponta a existência de erros ortográficos, o facto de o documento ser extenso e complexo, a formatação ou os acrónimos que não aparecem explicados ou até a forma como se repetem algumas ideias. Num conjunto de sugestões de alteração, defende que “alguns dos anexos poderão ser omitidos, por razões de segurança” na versão pública do documento. E explica porquê: “Esta é uma opção desejável pois, em muitos pontos, o GT não se limitou a apresentar recomendações, identificou mesmo ‘como fazer’ e isso retira flexibilidade à implementação das recomendações”. O email conclui com uma série de pedidos de informação específica relacionada com a implementação da interoperabilidade do SIRESP com o sistema de comunicações militares.
Adjunta assegurou não ter intenção de alterar o relatório
António Pombeiro responde nesse mesmo dia às 19h11, pedindo explicações sobre a natureza das alterações pedidas. “Relativamente ao relatório, agradecia que pudessem ser identificados, de forma mais objetiva, os pontos concretos a rever ou alterar, considerando que a estrutura adotada resultou de consenso entre todos os elementos do Grupo de Trabalho”, escreve, antes de responder, ponto por ponto, a toda a informação solicitada por Valentina Marcelino.
Apenas 25 minutos depois, a adjunta sossegava António Pombeiro: “Agradeço as respostas céleres. A minha ideia não é alterar o relatório. Seria ter uma versão pública para o mesmo. Mas vou fazer o que me pede”.
São quase 21h desse dia quando Pombeiro envia novo email a Valentina Marcelino, mostrando-se totalmente alinhado com as preocupações da adjunta, nomeadamente no que toca à natureza “sensível” de alguma da informação. “Agradeço as observações remetidas, as quais se revelam alinhadas com as preocupações já identificadas no âmbito dos trabalhos desenvolvidos pelo Grupo de Trabalho SIRESP, em particular no que respeita ao equilíbrio entre rigor técnico, salvaguarda de informação sensível e clareza na comunicação pública”, começa por escrever.
Ainda assim, insiste, “gostaria de confirmar se o objetivo pretendido passa pela elaboração de uma versão sintética e orientada para divulgação pública do relatório, sublinhando, desde já, que não se trata de refazer o relatório, mas sim de o tornar mais claro, mais acessível ao cidadão e mais eficaz na comunicação das conclusões alcançadas e das melhorias a implementar”. E elenca as linhas de orientação que considera ser necessário respeitar nessa “adaptação” do relatório sobre o SIRESP. “Fico ao dispor para alinhar os próximos passos e assegurar a rápida produção da versão ajustada do relatório”, conclui.
A resposta é dada já no dia seguinte, 25 de abril, às 19h15: “Exatamente isso. Aguardo então para uma última leitura”, confirma Valentina Marcelino.
A 27 de abril, António Pombeiro entrega o documento com as alterações solicitadas. “Na sequência do acordado, remeto a versão em formato editável, para divulgação pública do Relatório da Equipa de Trabalho Interministerial, constituída ao abrigo do Despacho n.º 5274/2025, de 23 de maio”, escreve às 7h02, enviando a mensagem à adjunta.
Quatro dias depois de enviar o que lhe foi pedido, Pombeiro acusa Marcelino de o tratar como “estagiário de redação”
Só dia 28, às 8h18, o secretário-geral adjunto reage com indignação ao que lhe tinha sido pedido pela adjunta, num mail enviado para a chefe de gabinete do ministro Luís Neves (que tinha estado em CC nas outras comunicações), com conhecimento de Valentina Marcelino. O tom muda radicalmente e Pombeiro mostra-se agora ofendido com as sugestões que antes – depois de ter confirmado que não havia intenção de alterar a substância do relatório – tinha aparentemente acatado sem problemas.
“Após uma reflexão ponderada sobre o teor do email que me foi dirigido e sobre as questões nele suscitadas, entendo dever deixar registados os seguintes esclarecimentos”, começa por escrever, vincando que, afinal, se opunha a que o relatório fosse expurgado de matéria tida como sensível.
“No que respeita às sugestões de alteração ao relatório, e à luz de cerca de 38 anos de experiência como Oficial de Informações, não identifico qualquer risco ou quebra de segurança no conteúdo das propostas nele constantes. Não obstante, e sem prejuízo de não estar disponível para ser tratado como um estagiário de redação, cumpri o solicitado e remeti oportunamente uma proposta de documento alinhada com as características indicadas”, lê-se no email a que a VISÃO teve acesso.
Mais: António Pombeiro demonstra agora o seu desagrado perante o pedido de informações que lhe foi feito e ao qual começou por responder prontamente. “Não sendo as comunicações críticas o domínio de especialização de V. Ex.ª, depreendo que as questões suscitadas, designadamente as relativas à migração dos Comutadores Centrais para instalações do Exército e à interoperabilidade com o Sistema de Comunicações Militares, tenham origem em comentários transmitidos pelo Major-General Viegas Nunes”, afirma.
O resto do email segue com várias acusações à conduta do Major-General Viegas Nunes durante o período, entre 2022 e 2024, durante o qual esteve à frente do SIRESP, incluindo a contratação de um alegado compadre, a validação do pagamento de despesas não comprovadas e um contrato – que acabaria por não se efetivar – com a empresa da mulher de um antigo colaborador do SIRESP.
“Face ao exposto, cabe-me afirmar que cumpri, ao longo deste processo, o meu dever com total frontalidade, rigor técnico e lealdade institucional, e fi-lo também com respeito, mesmo quando esse respeito não foi plenamente correspondido. É precisamente por respeito por mim próprio, pelo percurso que tenho e, sobretudo, por todos aqueles que, nos últimos anos, trabalharam comigo na gestão e evolução de sistemas críticos do Estado, que entendo não dever continuar a exercer funções num contexto onde a substância é, demasiadas vezes, subordinada à perceção”, conclui António Pombeiro, apresentando a sua demissão.
“Nessa medida, informo que irei solicitar a minha exoneração das funções que atualmente desempenho, conforme documento em anexo. Faço-o de forma consciente, determinada e sem qualquer ambiguidade. Saio com a tranquilidade de quem conhece o sistema, de quem esteve presente nos momentos difíceis e de quem não precisou de narrativas para cumprir a sua missão. E saio com respeito, esse sim, por todos os profissionais que, longe de qualquer palco, garantem diariamente que o sistema funciona”, declara Pombeiro.