Condolências às famílias. As primeiras palavras do Presidente eleito foram de pesar. “Não vos esquecerei!” O outro candidato, André Ventura, passou por cima. Nem uma palavra. As eleições já acabaram.
A diferença é fatal e reveladora. António josé Seguro começou a trabalhar, no primeiro minuto em que, pela primeira vez, se dirigiu ao País. A sua prioridade é cuidar dos vivos. André Ventura já está noutra. A sua prioridade é liderar a direita.
António José Seguro bateu, em votos, o recorde de Mário Soares. Em percentagem, bateu, em primeiras eleições, o recorde de Ramalho Eanes, em 1976, com o apoio dos três maiores partidos dessa altura. Provavelmente, André Ventura irá desdobrar-se em entrevistas, durante a próxima semana. Nos estúdios de televisão, ocupou muito mais tempo de análise, com os seus 33%, do que o vencedor absoluto e batedor de vários recordes eleitorais, com 67 por cento. Isso prova que Ventura, de uma certa forma, ganhou.
No entanto, de uma certa forma, perdeu mais do que parece. Para além da derrota eleitoral – honrosa, à sua maneira, por ter batido a votação do PSD, do PS e do Chega, nas últimas legislativas… – teve uma clamorosa derrota política, de ordem estrutural. Foi graças a ele – e não apenas aos méritos, que os houve e muitos, do vencedor – que Seguro bateu os seus recordes. Como é que uma figura considerada, por muitos, cinzenta a e pouco empolgante, o patinho feio de um partido de origem que parecia rejeitá-lo, conseguiu estes números? A explicação está muito em André Ventura e na sua incapcidade de ser aceite por uma direita que, agora, erradamente, diz liderar. A pequena “vitória” de André Ventura é umbiguista e tacanha. A grande direita transferiu-se em peso para Seguro. Ventura lidera o quê? A rejeição impede o crescimento. E não consegue bater adversários que não polarizem. O problema de Ventura é estrutural.
O discurso de vitória de Seguro tem todos os méritos de uma grande peça oratória e é incomparavelmente melhor do que o seu discurso da primeira volta, que tinha sido desinteressante, repetitivo, monocórdico e burocrático. Agora, foi humilde na grandiosidade, empolgante na contenção, pragmático na elegância.
Nos últimos dias da campanha, prometeu que a sua primeira Presidência Aberta será na zona centro do País. Será um momento definidor. E é uma jogada de alto risco, onde se perceberá para que lado pende a Presidência, logo no seu início. Ou a cooperação estratégica com o Governo, ou a Presidência Aberta de Mário Soares na Grande Lisboa, que deu a machadada final no cavaquismo.. Será um momento de exposição das fragilidades do Governo, e da sua incompetência, ou das forças renovadas desse mesmo Governo, e da sua recuperação. António José Seguro dará a Montenegro uma segunda oportunidade de causar uma primeira boa impressão. O primeiro grande teste à coabitação.