Ele já avisou o partido de que, desta vez, o regresso ao Governo é tarefa para corredores de fundo e não para impacientes que esgotam todo o seu potencial na barreira dos cem metros. Normalmente, os partidos de poder detestam este tipo de advertências e tentam queimar etapas, cortando a cabeça a sucessivos líderes.
Esta receita clássica tem sido metodicamente aplicada a António José Seguro, com golpes e contragolpes desferidos a partir do grupo parlamentar, espaço onde se acolitam todas as tendências e grande parte dos enormes egos com aspirações, da «nação» socialista. Agora, se tal receita resultará é o que se vai ver, porque Seguro parece muito determinado em prosseguir o seu caminho, com o ritmo, o estilo e o método que escolheu. Ainda agora, nesta entrevista, dada na véspera do 25 de Abril, vai irritar muita gente por desvalorizar as clivagens no PS, por optar pelo o seu Laboratório de Ideias, em vez do tradicional diálogo à esquerda, ou por não tencionar perder muito tempo a arregimentar os descontentes internos. Prefere falar da sua “nova forma de fazer política” e dos constrangimentos de ser oposição e herdeiro de um memorando que não subscreveu.
Diz que já sentiu chantagem por parte do Governo, que este já tomou medidas que não estavam no memorando, mas recusa ter-se rendido a Passos Coelho, quando aprovou o Tratado Orçamental ainda para mais nos timings convenientes para o primeiro-ministro. Mas o mais interessante do discurso de Seguro é ele ter percebido que, hoje, o essencial se joga no contexto europeu e não dentro das fronteiras nacionais. Daí a conferência que está a preparar sobre a Europa, na qual já estão inscritos mais de 2 mil portugueses daí a sua adenda ao tratado, daí toda a esperança em François Hollande.
Quando entra aqui, na sede do PS, todos os dias, qual é o seu pensamento mais constante?
As pessoas. Isto é, os portugueses que vivem e passam dificuldades cada vez maiores e que olham para a política à procura de soluções para que os seus problemas sejam resolvidos.
E daqui, como olha para o seu partido?
O partido é uma parte das minhas preocupações, mas não é o centro. Portanto, olho-o na perspetiva de o preparar para os desafios do dia a dia, que é sermos uma oposição construtiva, e uma alternativa.
Sem um partido coeso, não é fácil um líder construir uma alternativa…
Essa não é a maior das minhas preocupações porque, se olhar para o passado do PS, isso sempre aconteceu. Quando há uma mudança de liderança há sempre um período de ajustamento. Agora, eu exigi que o PS tivesse uma postura de oposição responsável, construtiva, séria. Não temos nenhum complexo em concordar com o Governo quando apresenta propostas com que estamos de acordo, assim como também não temos qualquer problema em concordar com o PCP ou com o BE.
Nas questões decisivas, o PS tem estado mais próximo do Governo do que das oposições…
O PS assinou um memorando. Não fui eu que o assinei, e há muitas coisas nesse memorando das quais discordo, mas a minha primeira responsabilidade é honrar os compromissos do PS. Muitas vezes, isto não é bem compreendido, em particular por uma parte da nossa base eleitoral de apoio, mas estou disponível para pagar esse preço.
Não teme que isso o isole cada vez mais, no interior do PS?
É a minha maneira de fazer política. Conheço bem o PS, ando de Norte a Sul em contacto com os militantes, e sinto cada vez mais apoio. Posso, às vezes, não ser bem entendido no interior do meu partido, mas desde que a mensagem seja entendida pelos portugueses… é isso que me importa.
Sente a oposição interna?
Não, não sinto oposição interna. Há pluralismo e isso enriquece a vida partidária, embora haja atitudes, aqui ou ali, que não reforçam a imagem e a coesão do PS.

Diria que “essas atitudes” têm a ver com questões ideológicas ou são pessoais?
Não me quero pronunciar muito. Honestamente, para mim, o essencial é que o PS se concentre na sua missão de servir os portugueses, fazendo oposição séria, responsável e construtiva, e preparando a alternativa política para 2015. Quero muito ser primeiro-ministro deste País. Não tenho pressa. Não o quero ser por demérito do Governo que está, mas pelo valor e pelo mérito da proposta política que vamos apresentar aos portugueses.
Como tenciona arrumar estas clivagens dentro do PS?
Com debate! Sempre defendi que o PS devia ser plural no debate e unido na ação.
Então porque não promoveu o debate sobre os resultados eleitorais do PS e a governação anterior?
Esse debate aconteceu antes e durante o congresso.
O passado está arrumado?
O PS tem a grande responsabilidade de se reencontrar com os portugueses. A 5 de junho (de 2011), o PS teve 28 por cento. O PS não pode ser um partido de 28 por cento. Perdeu portugueses. Perdeu confiança.
E porque é que o PS teve 28 por cento?
Porque cometeu erros. Fez muitas coisas positivas, mas cometeu erros.
Dê-me dois exemplos: positivos e negativos.
Na área da Educação, a escola pública a tempo inteiro, as aulas de enriquecimento curricular, a introdução do inglês. A forma como lidou com os professores no sistema de avaliação foi um erro.
António Costa diz que o “presente [do PS] fica ocupado pelo passado”, porque a atual direção não tem “um discurso sobre o futuro”. Quer comentar?
Eu disse, no congresso, que tínhamos uma maratona pela frente. Isto não é uma corrida de 100 metros, é uma maratona de quatro anos. Não posso ter um comportamento no partido como se houvesse eleições todas as semanas.
À VISÃO, Manuel Alegre disse que “há uma hegemonia cultural e ideológica da direita no sentido de fazer crer às pessoas que não há outras soluções”. Concorda?
Sim. E isso acontece há muito, no interior da UE, até devido ao facto de a esmagadora maioria dos Estados da UE serem governados por partidos conservadores e liberais. Isto significa que é preciso fazer um grande debate e uma diferenciação ideológica também no seio da União.
Com o aggiornamento ideológico promovido pela Terceira Via nos partidos socialistas europeus vai ser uma tarefa complicada…
Vai ser difícil. O problema é que a família socialista europeia não tem uma agenda comum. Ou seja, as agendas domésticas prevalecem sobre uma agenda comum no sentido da afirmação de uma alternativa política a nível europeu. É isso que tem faltado na Europa, dando campo livre à direita para formular as suas políticas.
Então porque aprovou o tratado e, ainda por cima, no timing que convinha ao primeiro-ministro?
Parece um paradoxo ou uma incoerência, mas não é. Primeiro, em relação ao tempo: foi o Governo que escolheu o momento do agendamento e não teve sequer a delicadeza de conversar com o principal partido da oposição…
Mas o PS rendeu-se a isso.
O problema não era render-se, há uma maioria absoluta. Segundo, em relação ao conteúdo do tratado: as metas que aí estão para o défice e para a dívida já estavam acolhidas no direito português. Mesmo que não estivessem, se Portugal não ratificasse o tratado, isso significaria a saída de Portugal do euro.
Fala muito de responsabilidade, de honrar os compromissos assumidos. François Hollande é irresponsável por dizer que vai renegociar o tratado, se ganhar as eleições presidenciais em França?
Não. Considero que ele diz o que eu digo e vice-versa. Ele diz é que é necessária uma dimensão económica e social e quer que essas dimensões sejam introduzidas no tratado. Mas a França não está sob assistência financeira e está numa campanha eleitoral. O objetivo é o mesmo.
Para si, o memorando da troika é uma espécie de vaca sagrada?
Não. O memorando é uma necessidade que decorre de um País que precisa de assistência financeira.
Mas há o memorando e ir para além dele.

O Governo já foi?
Tem razão. O Governo já foi além do memorando e sempre que isso significa prejuízo para o País, nós votamos contra. Como aconteceu na lei da extinção das freguesias e na lei dos compromissos.
A legitimidade do Governo fica diminuída sempre que este toma medidas à revelia do memorando da troika e do seu próprio programa, como aconteceu com os cortes dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos?
Sim. Aliás, fui muito severo quando o Governo veio anunciar ou pré-anunciar medidas que nem estavam no programa eleitoral do PSD ou do PS, nem no programa de Governo, nem no memorando da troika, como é o aumento da idade de reforma para 67 anos. Como reparou, o Governo recuou. O mesmo aconteceu com o plafonamento, proposto como consequência da falta de sustentabilidade do sistema público de proteção social. E eu perguntei: “Insustentabilidade? Mas como, se, num anexo do OE, que é da vossa responsabilidade, está garantida a sustentabilidade da Segurança Social até para além de 2050?”
Isso significa que o PS devia ser mais exigente em relação ao Governo?
O PS é muito exigente em relação ao Governo e é normal que, à medida que o tempo passe, seja ainda mais exigente. Mas quando o Governo diz lá fora que em Portugal há 80% de apoio político ao memorando, isso é bom para o País. E se é bom para o País, é bom para o PS. Agora, na questão do tratado europeu nós também dissemos que se o PSD e o CDS não votassem o nosso ato adicional, isso significaria uma fratura da responsabilidade deles quanto ao consenso nacional em relação ao projeto europeu. O Governo fez orelhas moucas e assumiu essa responsabilidade.
Que consequências é que isso pode ter?
Veremos. Não quero antecipar nenhum cenário. Mas se há coisas que a maioria absoluta do PSD e do CDS resolve, há outras para que precisam de dois terços.
Qual é o seu limite em relação ao Governo? Um novo pacote financeiro, uma certa fasquia do desemprego?
Eu sou um democrata, este Governo tem uma maioria que o suporta na AR e o normal é que o ciclo político se complete. Estou a trabalhar para 2015. No que diz respeito aos objetivos, nós estamos lá para ajudar. Mas já nos separámos em outubro [Orçamento], em relação ao caminho a seguir. Eu avisei que o caminho escolhido ia avolumar os problemas. Não consigo vislumbrar mais medidas de austeridade. Defendo, por exemplo, pelo menos, mais um ano para a consolidação das contas públicas.
O próprio FMI já admitiu a hipótese de um novo pacote de ajuda…
Isso significará o falhanço da política do Governo.
E o que fará o PS?
Não me pronuncio sobre cenários. Digo, há meses, que a paixão pela austeridade é errada. Se eu fosse primeiro-ministro também teria de tomar medidas de austeridade, o problema está na dose e no ritmo.
No ritmo, porque devíamos ter, pelo menos, mais um ano. E na dose, porque, ao carregarmos na austeridade, a nossa economia ressente-se.
Tenciona promover o diálogo à esquerda?
As esquerdas não estão apenas nos partidos, há muita gente de grande qualidade para além das fronteiras partidárias. Quero abrir o partido a esses contributos e o Laboratório de Ideias e Propostas para Portugal é o primeiro passo nesse sentido. Quanto ao PCP e ao BE, temos aí divergências importantes e que limitam um diálogo mais frutífero.
Como por exemplo?
Os posicionamentos em relação à Europa ou a matérias de segurança e defesa são muito diferentes e isso impede diálogos mais profícuos. E, nos últimos tempos, temos assistido, sobretudo da parte do PCP, a ataques ao PS que não compreendemos. Aqui não nos enganamos no adversário. O nosso adversário é o Governo a as políticas de direita, das quais nos demarcamos.
Portanto, não vai haver diálogo…
Vai haver diálogo. Estou sempre disponível para dialogar com as outras forças políticas. Não iludo é os eleitores, nem perco o meu tempo em diálogos que possam não ser produtivos.
A falta desse diálogo abre caminho ao aparecimento de alguém, fora das forças tradicionais, que polarize o descontentamento?
E polarizar esse descontentamento resolve o quê? O que as pessoas querem, é propostas para resolver os seus problemas.
Com quem é que se aconselha?
Com tanta gente!
Fala com António Guterres?
Agora já não falo há algum tempo.
Com Mário Soares?
Falo bastante com Mário Soares, sim, mas não queria estar aqui a dizer os nomes, senão tenho de os dizer todos, porque falo com muita gente. Escuto muito. Gosto muito de andar pelo País a falar com as pessoas. Nestes cargos, há sempre a tendência para sermos consumidos pelos gabinetes e pelas reuniões.

Qual é a sua figura de referência?
Tenho várias. Mário Soares é obviamente uma referência. Fora do País tenho outras como Olof Palme, Nelson Mandela, António Guterres…
Ouve muito e, depois, como é que decide? Qual é o seu método?
Levo muito tempo a ouvir, naturalmente, os órgãos do partido, quando a decisão tem de ser coletiva. Quando tem de ser individual, depois de ouvir, retiro-me, durante algum tempo, algumas horas, conforme, e decido.
É difícil estar na oposição?
Muito. Em Portugal, sempre foi muito difícil, sobretudo no início de um ciclo com maioria absoluta. Agora, some a isso o facto de haver uma mudança de líder, de o PS ter saído do Governo e de ter assinado um memorando ao qual está agarrado.
Como é que se informa diariamente?
Costumo ler os jornais quando não posso, falo com a minha assessora; falo com alguns dirigentes do partido, em função das áreas; oiço pessoas fora do partido. Fujo muito a dar a resposta pela resposta.
Qual foi o seu momento mais difícil, aqui?
(Longuíssima pausa)…
A demissão de Pedro Nuno Santos?
Talvez o de não ter convencido o Governo a devolver um salário aos funcionários públicos e reformados.
Os momentos mais difíceis para si não foram aqueles em que foi violentamente atacado pelos seus camaradas?
Ser líder de um partido significa ter consciência de como a política é feita em Portugal. A minha preocupação é concentrar-me naquilo que é importante na vida dos portugueses.
E faz tábua rasa do que é importante na vida do partido?
Não. Não ignoro e quando tenho de tomar atitudes, tomo-as. Mas a minha concentração é na vida dos portugueses, senão isto não tem sentido absolutamente nenhum.
É intrigante como conseguiu estar tantos anos calado, sem criticar a anterior direção do PS, quando discordava de muito do que se passava!
Uma das coisas mais injustas é dizer que estive calado. Eu escrevi no Expresso, durante três anos e publiquei um livro.
Eram mensagens tão cifradas…
Eram as opiniões de um militante e dirigente que nunca abdicou de ter opinião própria, mas de ter sempre o cuidado de essa opinião não fragilizar a ação política do partido, que estava no Governo.
Nunca temeu que esse seu bom comportamento pudesse ser confundido com falta de autoridade?
Nunca pensei que a boa educação fosse uma coisa valorada negativamente, na política.
Só tive consciência disso uns meses depois de estar na liderança do PS. É verdade, nunca ataco pessoalmente nenhum adversário, mas, sim, posições e propostas políticas, porque também quero credibilizar a política. Posso ter consideração por um adversário e divergir dele.
Já se sentiu cercado e só, aqui, no Rato, como se esta sede fosse o quadrado descrito no conto-metáfora de Manuel Alegre?
Não, nunca me senti cercado. Desse ponto de vista sou um líder com bastante apoio, com entusiasmo e com amigos. Mas há momentos na vida política, como na pessoal, em que está a chover e achamos que está um sol radiante ou em que está um sol radiante e achamos que está a chover. Há momentos muito difíceis.
Entrevista publicada na VISÃO nº 1000, de abril de 2012