Há apenas um mês, António José Seguro ainda era o patinho feio das sondagens, com pouquíssimas hipóteses de passagem à segunda volta. Ainda antes disso, um glamoroso evento da CNN, em Alcobaça, incluía os “quatro candidatos principais”, excluindo do lote João Cotrim Figueiredo. Foi a pulso que ambos os candidatos foram subindo, mérito próprio de campanhas sólidas, competentes, bem dirigidas e com protagonistas de discurso coerente e credível, acima da pequena política. Parece que essas qualidades, haja esperança, ainda rendem, eleitoralmente…
É impossível avaliar que tipo de impacto teve, na votação de Cotrim, a semana horribilis correspondente à reta final da campanha. Teria batido André Ventura no photofinish? O mais certo é que os azares finais não tenham tido qualquer efeito. O resultado de Cotrim corresponde, mais ou menos, ao pico das suas sondagens, que em muito já tinham ultrapassado as expetativas iniciais.
Posto isto, o anúncio da inevitável vitória de Seguro na segunda volta é, manifestamente, se não exagerado, prematuro. A vitória do candidato moderado está longe de ser favas contadas. Como escrevi na VISÃO, esta semana, Ventura era o melhor adversário que Seguro poderia ter, na segunda volta, devido à taxa de rejeição do líder da direita radical e populista. Com uma maioria sociológica de direita, poderia perder para qualquer outro dos concorrentes, em relação aos quais não teria a vantagem da maior moderação e superior credibilidade, estando, nestes capítulos, mais ou menos em igualdade de circunstâncias. Mas, de igual forma, Seguro seria o melhor adversário que Ventura podia desejar. Explorando a tal maioria sociológica e eleitoral, o líder do Chega fará da pugna um confronto direita-esquerda ou, melhor ainda, entre a direita e o “socialismo” (deliberadamente ignorando que socialismos há muitos). E a única forma de Seguro desviar esse golpe e não cair nessa armadilha é fazer a pedagogia de convencer os eleitores que não está em causa uma escolha entre direita e esquerda, mas uma escolha entre duas personalidades, colocando a decência, a serenidade, a probidade e a capacidade de cooperação estratégica com qualquer Governo – incluindo o de Montenegro… – como vantagens suas sobre Ventura.
Neste ponto, talvez seja bom fazer uma comparação com a situação de Mário Soares, em 1986. Nessas eleições, Soares teve pouco mais de 25% dos votos, menos do que Seguro hoje. Mas a esquerda, no seu conjunto, tinha mais de metade do eleitorado e, tarde ou cedo, os eleitores cair-lhe-iam nas mãos. Hoje, a esquerda não só não tem mais de 50%, como se fica, mais coisa menos coisa, pelos 35 por cento. Onde será que Seguro pode ir buscar os restantes votos, na segunda volta?
O candidato apioiado pelo PS tem fundadas razões para desconfiar. Ventura pode mesmo arrebanhar a grande maioria dos eleitores de Cotrim, a começar na direção da IL (que, no entanto, envergonhadamente, não se manifestará) e a acabar no eleitorado jovem. Depois, metade dos eleitores da AD, estejam eles com Cotrim, Gouveia e Melo ou Marques Mendes, não terão quaisquer escrúpulos em votar no candidato extremista. Por isso é que, neste gelo fino, ao contrário da segunda volta de Soares, em 1986, Seguro vai ter de dirigir o seu discurso aos eleitores da direita – mas sem desmobilizar, para a abstenção, os da esquerda!
Em resumo, Seguro é favorito, mas tem de trabalhar com inteligência, sem abusar de expressões pouco valorizadas pelo eleitorado dos nossos dias, como “os perigos da extrema -direita” o “racismo” ou a “xenofobia”. Na noite eleitoral, um apoiante destacado de Marques Mendes, Miguel Poiares Maduro, declarou o seu voto em Seguro. O mesmo fez o próprio mandatário de Cotrim, José Miguel Júdice (historicamente insuspeito de quaisquer simpatias socialistas). Seguro tem de aproveitar e aparecer com figuras como estas, juntando-as a Santana Lopes, por exemplo, mas alternando-as com Manuel Alegre e outros representantes do “anti-fascismo”.
Ventura, mesmo perdendo, “arrisca-se” a ter mais de 40% dos votos, o que fará dele um líder formidável e uma ameaça de morte para Luís Montenegro. O ensaio da expressão “novo líder da direita”, por parte de Ventura, não foi por acaso. E isso já ninguém lhe tira, por erros próprios do PSD. Montenegro não leu os sinais, decidindo apoiar (com todo o mérito que o candidato tem, mas as coisas são como são) um “Marcelo de marca branca”, consentindo, assim, que o seu eleitorado se fragmentasse. Mas o PS não pode ficar a rir-se. O PS pós-costista tem aqui um exemplo de como deveria ter feito o ato de contrição necessário para não cair na depressão de 2024, agravada pela de 2025…
Antes de tomarmos por certo que Seguro se transformará num cisne resplandecente, teremos de reconhecer que está tudo em aberto. Ao candidato da democracia, não convém baixar a guarda.