Talvez nunca tenha havido uma campanha como esta. As presidenciais de 2026 tiveram aquilo que os portugueses ainda não tinham visto: 11 candidatos num boletim de voto, cinco candidatos em quase empate técnico, um número enorme de indecisos e de eleitores que até à última admitem mudar de voto e polémicas. Muitas polémicas. Houve de tudo. Dos ataques feitos por João Cotrim Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo ao passado profissional de Luís Marques Mendes – que o almirante acusou de ser um “facilitador de negócios” – às notícias sobre uma investigação aberta aos ajustes diretos feitos por Gouveia e Melo na Marinha, passando por um debate tão sujo entre André Ventura e Catarina Martins, que resvalou para o insulto pessoal.
Se tudo isso parecia pouco, a acusação de assédio sexual feita por uma antiga assessora do grupo parlamentar da IL a João Cotrim Figueiredo veio abrir um novo patamar nas disputas presidenciais em Portugal. Quando Cotrim parecia estar cada vez mais lançado para ir à segunda volta, uma publicação privada no Instagram de Inês Bichão começou a ser partilhada. Nessa story, publicada só para os amigos da jurista, a antiga assessora revelava a forma como tinha sido assediada por Cotrim. O candidato negou “completamente”. O dia já não lhe tinha corrido bem, porque tinha admitido à Renascença que não excluía votar em André Ventura numa segunda volta e veio depois dizer que não sabia o que lhe tinha “passado pela cabeça” para dar tal resposta. Mas estava determinado a dar a volta ao texto. Tanto que fez mesmo um apelo público à AD para que retirasse o apoio a Luís Marques Mendes e o apoiasse a ele.
Montenegro só Mendes contra os “extremismos”
O truque de comunicação não serviu de muito. Luís Montenegro voltou a aparecer ao lado de Marques Mendes e a apelar ao voto contra os “extremismos”, chegando ao ponto de colar esse rótulo a António José Seguro, o único candidato dos cinco mais bem cotados nas sondagens que parece imune a polémicas. “Acho que foi um abuso de generosidade do primeiro-ministro”, reagiu com bonomia o candidato que encontrou a força da sua campanha na forma como consegue ficar imune à lama. “Um democrata discute ideias, não anda a discutir na lama, sobretudo se quer ser o Presidente da República”, tem dito.
A avaliar pelas sondagens, a estratégia pode sair bem ao socialista. Apesar de todos os cenários estarem abertos, há uma probabilidade forte de a segunda volta se jogar entre Seguro e Ventura.
Cotrim no lamaçal
Sem conseguir sair do lamaçal, João Cotrim Figueiredo chegou à véspera do fim da campanha com um comunicado da sua antiga assessora, reiterando as acusações que tinha feito no Instagram e garantindo que defenderá a sua veracidade em tribunal. “Não pretendo alimentar esta polémica, mas não deixarei de exercer os meus direitos em sede própria, na qual a veracidade dos factos será apreciada nos quadros e com as garantias que o Estado de Direito assegura”, afirmou, garantido que a difusão da sua publicação no Instagram foi feita contra a sua vontade e que já tinha feito queixa em 2023, altura dos factos, ao partido.
A IL reagiu ao comunicado de Inês Bichão: “É completamente falso que tenha havido qualquer queixa interna ou reporte, formal ou informal, sobre o candidato Presidencial João Cotrim Figueiredo”. E Cotrim vitimizou-se, assegurando nunca ter tido conhecimento de tal queixa.”Não tinha qualquer conhecimento da matéria. Será tudo apurado em tribunal. A queixa-crime dará entrada hoje e de resto quero concentrar-me na campanha, que é muito mais importante para mim”, disse aos jornalistas.
Fogo cruzado entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, mas Ventura já fala na “luta mais simbólica do nosso tempo” contra Seguro
Com Cotrim debaixo de fogo, Luís Marques Mendes voltou a aparecer com Luís Montenegro ao lado e isso valeu-lhe um ataque de Gouveia e Melo. Mas antes Mendes ainda tinha asseverado ser único que não trará instabilidade ao país. “A minha candidatura, além da moderação e experiência, tem outra preocupação que não existe nos outros – a da estabilidade. Todos os outros, de forma mais direta ou menos, andam com ideias e atitudes que criam ruído e geram instabilidade”, disse o antigo comentador.
“Acho eticamente reprovável que assim seja, mas dou-lhe uma sugestão: que meta também na campanha a ministra da Saúde, que o acompanhe nas deslocações do primeiro-ministro para a campanha de Luís Marques Mendes, porque um dos problemas que todas as pessoas com quem contacto na rua me colocam é o da saúde”, atacou o almirante, que também tinha farpas para lançar a Seguro ao lembrar como o socialista não impediu cortes em pensões no tempo da troika.
André Ventura, esse, já fala como se estivesse garantida uma segunda volta que o opusesse a António José Seguro, que seria “a luta mais simbólica do nosso tempo”.
Esquerda tenta segurar-se, mas derrapa
Com as sondagens a mostrar uma esquerda encolhida para mínimos históricos, Jorge Pinto tem ouvido eleitores do Livre a anunciar que desta vez a escolha será outra e até percebe. “Respeito as suas reflexões. Percebo e oiço os seus anseios. Se estão assustadas é legítimo e não serei eu a julgar o seu sentido de voto”.
António Filipe nem quer pensar em quem o PCP poderá ter de apoiar numa segunda volta. “Não faço ideia quem vai passar à segunda volta. Não funciono na base de ‘ses'”, disse o candidato que tem feito tudo para mostrar o que é uma “esquerda sem mas”, que não inclui Seguro, o socialista que o comunista acha que faz parte do “consenso neoliberal”.
Catarina Martins também não fala em cenários e ataca aqueles que fazem campanhas milionárias. “Temos candidatos com campanhas milionárias. Quem paga? A minha campanha é uma campanha quase sem orçamento, feita com a vontade das pessoas que se juntam. Porquê? Eu não respondo a nenhum grande interesse”.