“É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma.” A famosa citação de O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, é repetida com um encolher de ombros por muitos dos desiludidos do Bloco de Esquerda, perante a saída de Mariana Mortágua e o anúncio da sua substituição por José Manuel Pureza. É certo que há uma convenção marcada para o último fim de semana de novembro, mas daí ninguém espera sobressaltos nem novidades face ao que foi anunciado no domingo depois de uma reunião da Moção A, que decidiu que Pureza seria o candidato a coordenador do partido e que o lugar de deputado único seria ocupado rotativamente por Fabian Figueiredo e Andreia Galvão. Se a oposição interna à Moção A vinha sendo minoritária nas últimas convenções, desta vez a saída de cena da Moção E promete fazer com que esta nova direção avance sem qualquer sobressalto.

Mariana Mortágua saiu da liderança, assumindo ter sido “incapaz de inverter a excessiva centralização da estrutura do Bloco”, que há muito era apontada pelos opositores internos e, até essa carta de demissão de Mortágua, sempre desmentida pela direção. A sucessão faz-se, agora, com José Manuel Pureza que, vindo originalmente da corrente Política XXI, nos últimos anos (e sobretudo depois da morte de Miguel Portas e das saídas de Daniel Oliveira e Ana Drago) se tornou cada vez mais próximo da Rede Anticapitalista, que tem raízes no PSR. Para os críticos internos, José Manuel Pureza é a continuidade do “tratado de Tordesilhas” que, dizem, tem feito o poder no BE ser dividido entre o PSR de Francisco Louçã e a UDP de Luís Fazenda.
