Pedro Nuno Santos tentou o pleno, na sua estreia no congresso do PS, este sábado, em Lisboa: defendeu a herança de António Costa e, simultaneamente, comprometeu-se com a resolução de problemas que acometem o País; fez um mea culpa, sobre os acontecimentos que o atiraram para fora do Governo, mas garantiu que mudou para melhor; e já ensaiou o tom de campanha eleitoral, acusando não só o PSD e o CDS de nada trazerem de novo com a AD, como alertando para os riscos que representam o Chega e a IL.
O primeiro recado, mais do que para dentro do partido, foi direto para Belém: o PS, sob a sua liderança, não voltará a apoiar um candidato à Presidência da República como aconteceu com Marcelo Rebelo de Sousa. “Temos a certeza que, nas presidenciais, o PS apoiará um candidato, como já há muito tempo não faz, honrando os melhores presidentes da Republica que Portugal já teve – Mário Soares e Jorge Sampaio”, disse, de improviso, no arranque da sua intervenção.
Testemunhei, também, que só erra quem faz ou tenta fazer – ao contrário daqueles que nada fazem e nada tentam
Pedro Nuno Santos
Depois, um Pedro Nuno, que se apresentou vestido de forma informal e que até deixou ver a barriga várias vezes quando pôs o punho no ar, dissipou dúvidas (se é que as havia) sobre a defesa dos oitos anos de governação socialista, principalmente dos últimos dois anos de maioria absoluta, e assegurou que é o PS que merece o lema “do partido das contas certas”. “Credibilidade. Competência. Segurança. É isto que vai ficar para a história. É isto que vai ficar na nossa memória”, desse período, disse, aludindo à famosa declaração de Passos Coelho [que, em março de 2016, ironizou com a possibilidade de votar no PS, BE e PCP, se a estratégia da Gerigonça funcionasse]. “O PSD ainda espera pelo diabo, da mesma forma como nós ainda esperamos o apelo de Passos Coelho ao voto no PS”, atirou.
Para Pedro Nuno, “os portugueses sabem bem qual é o partido das contas certas. O partido para quem contas certas não significa cortes na certa”. Ou seja, o PS. Só que, lamentou, “os acontecimentos de novembro último interromperam, infelizmente, um ciclo político de estabilidade e uma governação com provas dadas”.

Assumiu orgulho no testemunho que Costa lhe entrega, principalmente aquilo que corresponde aos tempos da Gerigonça. Uma época que classificou de “virtuosa, tanto do ponto de vista da estabilidade, como dos resultados alcançados”, e para a qual contribuiu; mesmo que tenha cometido erros pelo caminho, principalmente aqueles que ditaram a sua saída do terceiro governo do PS, em dezembro de 2022. “Testemunhei, também, que só erra quem faz ou tenta fazer – ao contrário daqueles que nada fazem e nada tentam. Esses, posso garantir-vos, nunca erram. Mas porque nunca erram, nunca aprendem. Nunca melhoram. Nunca evoluem. Nunca progridem“, salientou.
Por isso, fez questão de defender a nacionalização da TAP, que o puseram debaixo de críticas desde a pandemia: “As empresas públicas não estão condenadas a ser deficitárias. Foi isto que demonstrámos com a TAP e a CP. E é precisamente isto que tanto incomoda a direita: incomoda a direita porque lhes interessa a narrativa de que tudo deve ser privatizado, de que no Estado nada funciona, de que um Estado mínimo funciona melhor”.
“O problema que a direita não nos diz é que o Estado mínimo não funciona para a maioria esmagadora das pessoas, o Estado mínimo só funciona para uma absoluta minoria de pessoas: os privilegiados, os que não precisam dos serviços públicos para nada”, acusou.
Montenegro sinónimo de vazio
Aliás, para Pedro Nuno, “a direita mostra-se tão envergonhada da sua história recente que, numa tentativa de se unir, teve de ir ao baú recuperar um projeto amarelecido pela antiguidade de mais de 40 anos“.
“Eles bem podem tentar-se esconder por trás do mito da AD. Mas os portugueses não esquecem; têm boa memória, não se deixam enganar com estes malabarismos”, considerou, continuando a acusar que em causa não está “uma recauchutada AD, criada à pressão, que pode esconder o estado em que está o seu parceiro principal, o PSD”. “A verdade é que ninguém conhece o seu projeto para o País. Ao fim de mais de ano e meio sob a liderança de Luís Montenegro, temos o vazio: vazio de projeto, vazio de liderança, vazio de visão; é o vazio de credibilidade, vazio de experiência, e, como todos já percebemos, vazio de decisão“, defendeu.

Para o fim, deixou fortes ataques àqueles de apelidou de “ambos filhos da austeridade de Passos Coelho” e que ocuparam o “vazio deixado pelo PSD”: Iniciativa Liberal e Chega. Sendo que foi contra o partido de André Ventura que Pedro Nuno mais se mostrou hostil. “Onde a Iniciativa Liberal faz cartazes bombásticos para disfarçar e dar cor ao seu individualismo radical, o Chega espera que, para lá da vozearia que o caracteriza, ninguém escrutine as suas propostas. A verdade é que o Chega não tem qualquer projeto sério para o país nem solução para os problemas do povo”, acrescentou.
Para amanhã, domingo, terceiro dia de reunião magna dos socialista, Pedro Nuno prometeu trazer, na sua segunda intervenção, as linhas orientadoras do programa eleitoral.