Já sem máscaras e sem limites de lugares na sala do Senado, na Assembleia da República. Ainda não tinha começado a sessão solene das comemorações do 48.º aniversário do 25 de Abril e a cerimónia já se destacava por ser a primeira, nos últimos dois anos, sem restrições. As mulheres foram as protagonistas dos primeiros discursos no Parlamento, feitos pelos deputados únicos (os primeiros a subir ao púlpito, decorado com cravos vermelhos, que recebeu depois os grupos parlamentares do mais pequeno para o maior), mas não faltaram referências aos precários, às desigualdades sociais, recados para a extrema-direita e agradecimentos aos obreiros da liberdade portuguesa.
Livre: “Ficou claro que não havia outro caminho que não a democracia”
O deputado único Rui Tavares trouxe a história dos pais que viveram mais de metade da sua vida em ditadura para dizer que “esta não é a minha história. Esta é a nossa história”, destacando a importância das conquistas de Abril, nomeadamente, do acesso ao ensino público e ao Serviço Nacional de Saúde. “Nada é tão importante quanto aprofundar a nossa democracia” – “é isso que devemos ao 25 de Abril”.
PAN: Pela igualdade de oportunidades para as mulheres
A deputada única Inês Sousa Real dedicou o seu discurso às mulheres, defendendo que “Abril não tem rosto de mulher” – numa piscadela de olho ao título do livro da jornalista e escritora Svetlana Alexievich (“A Guerra não tem rosto de Mulher”) – para relembrar a dificuldade em punir crimes sexuais, a não erradicação da mutilação genital feminina, os salários inferiores aos dos homens. Só solucionando estas e outras circunstâncias, “Abril poderá ter rosto de mulher”.
BE: Falta saúde, habitação e acabar com as desigualdades para cumprir Abril
“Que atenção temos dado enquanto sociedade a estas pessoas?”, perguntou ao hemiciclo o deputado bloquista José Soeiro, depois de lembrar as mulheres que se levantaram de madrugada para limpar a sala onde agora decorre a sessão solene do 25 de Abril e que levam ao final do mês para casa pouco mais de 800 euros, que têm de chegar para pagar uma renda, luz, água, comida… um exemplo para ilustrar as situações de muitos outros portugueses precários. “Estamos em 2022 e não estamos satisfeitos”, disse – “queremos ter mais democracia”. “Falta-nos ainda quase tudo: saúde, habitação para todos, acabar com as desigualdades sociais”, continuou sob os aplausos somente da sua bancada.
PCP: “Há quem procure branquear o que foi o fascismo. Nós não permitiremos”
A líder parlamentar comunista, Paula Santos, que tem dado a cara nos últimos dias pela posição comunista face à Guerra na Ucrânia, utilizou o seu discurso para criticar a “imposição do pensamento único”, alegando o “silenciamento” do seu partido e acusando o PS e os partidos de direita de quererem pôr os trabalhadores a pagar uma guerra que não lhes diz respeito. Paula Santos alertou ainda para os perigos da censura e dos tiques fascistas: “Há quem procure branquear o que foi o fascismo. Nós não o permitiremos”, prometeu.
IL: “É dia de refletir e de mudar o estado a que chegámos”
Subiu à tribuna um dos mais jovens deputados da Assembleia da República, Bernardo Blanco, 26 anos, já nascido em liberdade, para quem “o Estado Novo é o Estado Velho” e que associa a comemoração desta data ao “inconformismo”. E por isso mesmo defende que “esse espírito tem de voltar com prontidão” para fazer face a um “Portugal estagnado” e “politicamente desligado”. “É de refletir e de mudar o estado a que chegámos”.
Chega: “Quem cometeu atos terroristas não pode ser herói. É um bandido”
Em nome da terceira força política, André Ventura defendeu que os cravos vermelhos espalhados pelo Parlamento nada significam tendo em conta o estado do país. Refira-se que a bancada parlamentar do Chega é a única que não tem nenhuma flor a decorar. “Falhámos aos polícias, aos magistrados, às pessoas, aos retornados, aos ex-combatentes, alguns deles a viver na rua”, notou, pedindo a seguir ao Presidente da República, que identificou como seu “adversário nas Presidências”, para não condecorar “quem matou bebés e destruiu a economia nos anos 70”. “Quem cometeu atos terroristas não pode ser herói. É um bandido”.
PSD: a solução para os extremismos não está em “absurdos” cordões sanitários
O líder dos sociais democratas começou por dizer que defender Abril “é ter a coragem e a frontalidade para apontar o que com o tempo se foi degradando e enfraquecendo os principais propósitos” desta Revolução. “Ao longo de 48 anos, esse descrédito e o descontentamento popular que lhe está associado foram-se transformando nos principais suportes de novas forças extremistas”, apontou Rui Rio, enquanto recebia a primeira ovação de pé da sessão, dada pela sua própria bancada. E a solução para este problema “está em nós próprios”, acredita; não em “absurdos” cordões sanitários.
Rui Rio defendeu ainda durante o seu discurso a urgência de alterar o sistema eleitoral e a importância de avançar com uma revisão constitucional, a reforma da justiça, a descentralização e uma nova lei para os partidos políticos.
PS: “divergindo sem atacar, criticando sem fulanizar”
Em nome da bancada socialista, o “vice” Pedro Delgado Alves apelou à conciliação de todos os defensores da democracia, “dando voz a todos os portugueses sem exclusões, divergindo sem atacar, criticando sem fulanizar”. Delgado Alves homenageou, no seu discurso, todos os que mantiveram “acesa a chama de Portugal livre” desde a década de 20 e que ajudaram a concretizar o 25 de Abril, lembrando as grandes conquistas da Revolução dos Cravos como o SNS, a escola pública, a liberdade religiosa e a integração europeia.
Encerrada a sessão solene, com o hino nacional, a casa da democracia abre as portas esta tarde ao público, a partir das 15h, tal como a residência oficial do primeiro-ministro, em São Bento, que receberá visitas entre as 14:30 e as 18:00. Altura em que estará a decorrer também o tradicional desfile pela Avenida da Liberdade.