O Valor do Trabalho
Nunca a sociedade produziu tanta riqueza como hoje. O problema não está na falta de riqueza, mas na apropriação. Se, quando se produz a riqueza, o que deve ir para quem trabalha, não vai, dificilmente é recuperado por sistemas fiscais. Há um volume imenso de riqueza criada pelo trabalho, que não fica nos orçamentos de Estado. Foge-nos. Não chega às pessoas nem às organizações.
O futuro
O trabalho precisa de ser recentrado enquanto direito e dever social. Agora está no plano do dever económico-financeiro. Haverá acentuação das desigualdades – a primeira causa das crises – e do primado das relações mercantis em toda a organização do trabalho enquanto se defender que tudo deve submeter-se à relação de troca e ponto final. É criminoso porque o trabalho é central na economia e na sociedade. O grande desafio neste novo século é preparar as pessoas para serem boas trabalhadoras, evoluindo no sentido da cidadania. Mas o que domina é o neoliberalismo – o trabalho apenas para atingir objetivos económicos e financeiros. Estamos desafiados a uma revolução profunda. Se chegamos lá sem grandes borrascas e instabilidade, não sei!
Precariedade
Impingem-nos a mentira de que é a modernidade. Que é necessária. Mas o tempo da estabilidade correspondeu à fase de maior avanço das sociedades. Um dos argumentos para a precariedade é a volatilidade. Mas não existe como se tenta fazer crer. A maioria das pessoas são obrigadas a rodar nos postos de trabalho sem que tenham desaparecido os seus postos. Os call center, por exemplo, permitem milhões de resultados porque os lucros não são distribuídos. Quem está à frente das empresas é compensado por tirar valor a quem presta o trabalho.
Dignidade Laboral
O direito do trabalho, o sindicalismo e a contratação coletiva são o tripé de afirmação dos direitos dos trabalhadores. O Direito do trabalho pressupõe que o trabalhador e o empregador não estão em pé de igualdade. A diferença é total porque um necessita do trabalho para viver e o outro tem trabalho para dar. Hoje diz-se ao desempregado que o é por não ser criativo nem empreendedor. Isto aniquila a vida.
Empresas de trabalho temporário
São praças de jorna modernas. Chegam e perguntam quem está disponível para trabalhar naquele dia. É preciso colocar a nu estas atividades parasitárias que, em muitos casos, nem sequer ficam mais baratas para a empresa. Apenas descartam responsabilidades, tirando mais valias disso.
O Capitalismo
Para o capitalismo moderno, a empresa é uma comunidade, com perspetivas reformistas, em que patrões e trabalhadores têm o mesmo interesse. Atingir os objetivos da empresa exige compromissos coletivos. Mas este mercantilismo destrói isso. Mata o sentido de comunidade, tolhe a possibilidade de novas organizações sociais e empresariais e cria enormes tensões. O mundo tem de reencontrar o lugar e o valor do trabalho.
Subcontratações
Uma empresa como a PT tinha 30 mil trabalhadores quando foi criada, agora tem 7 mil. A PT não tem menos trabalhadores, tem é menos trabalhadores com vínculo. Porque a subcontratação forma uma cadeia de lucro, que fica a circular apenas para uns quantos.
Sindicalismo
Os sindicatos não têm tido capacidade de resposta e estão a perder. Não se assumiu ainda esta perda. Há períodos em que as organizações dos trabalhadores não têm força suficiente. Isso limita a possibilidade de intervenção dos sindicatos. Se o desequilíbrio é o que vemos e até o Papa tem alertado para ele, há alguma razão para dizer que os trabalhadores são demasiado reivindicativos? Estamos na lógica da potenciação de cada trabalhador. E a comunidade? O coletivo tem compromissos. Não basta que cada um esteja empenhado no que faz.
Sobre o medo e o futuro
O trabalho deve propiciar dignidade e felicidade. Mas hoje o medo é uma variável altamente praticada na gestão dos recursos humanos. É importante reconhecerem-no para se sentirem incomodadas, não para tolhimento e submissão. O número daqueles a quem foi tirada a esperança está a aumentar. A minha geração não tinha menos insegurança do que esta, mas diziam-nos que valia a pena correr riscos para resolver os problemas. Hoje os jovens são chamados a arriscar para fazer funcionar o sistema neoliberal. O discurso tem de endurecer face à política dominante. Já cedemos muito.
Produtividade
Para alguns, maior produtividade é produzir mais coisas e trabalhar mais tempo. Mas produtividade não é o número do que se produz, é o valor do que se produz. A automação não afeta o trabalho. Abre novas possibilidades. As pessoas vão continuar a vestir, comer, calçar, viver em colmeia, comunicar, relacionar-se. Com mais ou menos tecnologia, a base mantém-se. Como fazer a inovação humana? Não pode ser só tecnológica. Tem de haver mais interação e comunhão. Vamos ou não evoluir para o conceito de cidadania?