Faltam seis meses para começar o ciclo eleitoral das legislativas e das presidenciais e a direita parece em suspenso, à espera de um sinal. Não há listas de deputados feitas e não há candidatos a Belém definidos. Não se sabe, sequer, se PSD e CDS avançam para as urnas coligados ou se vão a votos cada um por si. Eram esperados, em março, os resultados de uma sondagem interna, encomendada pelo PSD, que viriam clarificar o assunto e supostamente favorecer uma coligação, mas, na verdade, as expectativas não se confirmaram. Entre os sociais-democratas cresce a convicção de que mais vale só do que (mal) acompanhado.
Quaisquer decisões que vinculem os dois partidos estão atualmente adiadas para antes do verão. Nos bastidores, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas arrancaram com as conversações, durante um almoço, e Marco António Costa e Pedro Mota Soares foram incumbidos de manter o diálogo sobre o assunto. Mas nem por isso o caminho está a ficar mais claro. Recentemente, num encontro com empresários, o vice-presidente e porta-voz do PSD, Marco António Costa, entusiasmou-se ao falar da possibilidade de o PSD ganhar as eleições sozinho. O CDS tremeu.
Tudo em aberto
Apesar de oficial e publicamente os dois partidos serem favoráveis à coligação, de modo a garantirem a manutenção de um clima estável no Governo até às eleições, a verdade é que o PSD começa a achar que os centristas têm mais a ganhar com a aliança do que os sociais-democratas. E para isso terão contribuído os resultados da referida sondagem ‘laranja’.
“O que lhe posso dizer é que hoje, as pessoas estão mais recetivas a votar no PSD do que numa coligação com o CDS”, assume, à VISÃO, fonte da direção do partido de Passos Coelho. “Não é seguro, é uma diferença pequena, mas é uma tendência”.
Este cenário complementa-se com uma queda do PS e dá um novo alento aos sociais-democratas. “Ainda é cedo e há muita gente indecisa. Está tudo em aberto”, diz o mesmo dirigente. E está mesmo. Da coligação, às presidenciais.
Assim como ainda não há decisão conhecida sobre a aliança, também não há sinais sobre quem poderá ser o candidato da coligação – ou do PSD e do CDS – a Belém. Marcelo Rebelo de Sousa bem quis adiar a discussão para outubro (o que só o beneficiaria, já que é sobejamente conhecido e não precisa de andar muito tempo em campanha), mas se alguém ocupar esse espaço (à direita) antes das eleições legislativas, o cenário complica-se. “E se esse alguém for Rui Rio, é quase certo que Marcelo perderá a sua oportunidade”, resume um antigo deputado social-democrata.
Rui Rio: a incógnita
Não há ninguém, no PSD, que não gostasse de ler os pensamentos de Rio para saber se quer ser PR ou primeiro-ministro. Nem mesmo os seus mais fiéis têm resposta pronta para esse enigma. “Ele é o melhor candidato a Belém. O mais forte. O vencedor. Mas se ele sentir que o próximo Governo pode ter uma maioria instável, que dure um ano ou dois, talvez arrisque a esperar pela sua vez para S. Bento”, avança um seu apoiante.
Até lá, o PSD entretém-se a descobrir candidatos alternativos. E crescem as vozes de apoio a Manuela Ferreira Leite, que curiosamente foi lançada por um socialista, em fevereiro deste ano. Pedro Adão e Silva defendeu as posições claras da ex-ministra das Finanças sobre a dívida, as políticas de austeridade e o Estado Social. E ainda disse que ter uma mulher na Presidência da República seria “um indicador de institucionalização democrática”.
O ex-militante social-democrata António Capucho logo a classificou de “candidata ideal” e João Cravinho, antigo ministro do PS, também a considerou uma hipótese “forte e com influência”.
“Estou habituada a ver referências ao meu nome. Às vezes de forma lisonjeira, outras de forma crítica. Já me habituei. Não vou fazer qualquer espécie de comentário”, reagiu a própria, sem excluir a ideia.
Os “ses” das presidenciais
A candidatura de Manuela Ferreira Leite a Belém é tão (im)provável como qualquer outra. Neste momento, as eleições presidenciais à direita ainda são uma sequência de “ses” que se encadeiam para criar cenários alternativos. Só há uma certeza: quem se apresentar primeiro na linha de partida, condicionará tudo o resto.
Se o primeiro for Marcelo, Manuela talvez não avance, mas Santana Lopes não perderá a oportunidade. O candidato oficial do partido terá de ser, nesse caso, o que melhor penetrar no eleitorado do CDS – e aqui o caso complica-se para Marcelo.
Se Pedro Santana Lopes for o primeiro e Manuela for convencida a avançar a seguir, quem fica de fora é Marcelo. Aí, Manuela poderá conseguir os apoios discretos do PSD e do CDS, apesar do seu discurso anti-austeridade e das suas críticas permanentes ao Governo. Isso poderia ser visto, de acordo com fonte do PSD, como um sinal de coesão e união, apesar das divergências dos últimos quatro anos.
Tudo muda se Rui Rio se antecipar. “Mais uma vez, está tudo em aberto. Só lá para depois das legislativas”, diz o dirigente social-democrata.
Coligação em Belém
A indecisão em relação a uma aliança pré-eleitoral do PSD e do CDS também terá implicações na corrida a Belém. Os sociais-democratas reconhecem que sem coligação, o clima para apoiar o mesmo candidato pode ficar deteriorado. E a hipótese de aparecer Paulo Portas para dividir, ainda mais, o espaço à direita, não agrada ao PSD.
“Não excluo de todo que [Portas] possa ser um dos candidatos a Belém e isso contribuirá para que possa haver várias candidaturas à direita e à esquerda na primeira volta, o que é o meu sonho há muitos anos”, assumiu Santana Lopes recentemente, em entrevista ao Diário de Notícias.
A reação de Paulo Portas veio em sotaque do Brasil. “Não estou nem aí.”
Ainda assim, o PSD tremeu. Afinal, valerá mais só?