António Bagão Félix
66 ANOS, EX-MINISTRO DAS FINANÇAS
“Deve ter conhecimento, experiência e sabedoria”
O Presidente da República tem de ser o representante de todos os portugueses e o que deve fazer é a conjugação adequada daqueles que considero serem os três vértices do triângulo da vida: o conhecimento, a experiência e, em terceiro lugar mas mais decisivo, a sabedoria. Admito que este triângulo se adquira, sobretudo, a partir dos 50 anos. Para mim, o género é indiferente. Ser mulher seria a novidade e não seria mau. Acredito que não traga mal nenhum ao mundo ter um PR com formação específica, mas a verdade é que o cargo não é executivo, como os debates e as campanhas fazem crer. Tanto pode ser um médico, como um economista, como alguém que nem sequer tem uma licenciatura. O importante é que tenha qualidades personalísticas e que junte, em vez de dividir. E deve revelar um espírito equidistante e uma grande sensibilidade humana e social. Claro que atualmente também não se concebe um chefe de Estado que não saiba falar inglês, por exemplo. É o mundo global e europeu. Não direi que saiba falar alemão, isso é quase irónico, mas deve dominar algumas línguas.
Octávio Teixeira
70 ANOS, EX-LÍDER PARLAMENTAR DO PCP
“Tem inteligência e seriedade política”
Há características que um PR, de qualquer sexo, deve ter e que decorrem, aliás, da Constituição: ter cidadania portuguesa, ser maior de 35 anos e saber ler e escrever em português. No que respeita às qualidades, elas cingem-se ao âmbito político e não ao âmbito profissional ou académico. Por exemplo: ter inteligência e seriedade políticas; ter a capacidade de defender os interesses nacionais em quaisquer circunstâncias; colocar, no exercício da sua magistratura, os interesses nacionais acima de quaisquer interesses político-partidários ou económicos; ter a capacidade e a vontade políticas de, em qualquer circunstância ou lugar, respeitar e defender a independência e soberania nacionais e a vontade soberana do povo; não permitir que a legitimidade e representação democráticas sejam confiscadas por quaisquer poderes não eleitos; orientar a sua magistratura pela coesão e justiça sociais e pelo desenvolvimento do País; não se mostrar subserviente perante qualquer outro país ou poder. E já agora, ter senso.
António Almeida Santos
89 ANOS, PRESIDENTE HONORÁRIO DO PS
“Cadastro limpo e recheado de provas éticas e humanas”
Convém que seja uma pessoa conhecida. A eleição acaba por ser uma escolha entre mais do que um candidato. Escolher entre desconhecidos não seria uma eleição. Seria uma aventura. E seria anormal que a pessoa escolhida não fosse também prestigiada. O prestígio pessoal conquistado pelo candidato é também uma garantia da escolha acertada. Também não são indiferentes as qualidades que estão na origem do prestígio conquistado. Entre as qualidades que mais podem recomendar a escolha de um candidato figuram: o nível cultural, o tipo de cultura e o currículo profissional. Uma formação jurídica ou económica, e de preferência as duas, são talvez as que dão mais garantias de um desempenho bem-sucedido do exercício do cargo. Como guardião da Constituição da República e dos valores nela consagrados, é essencial que, pela sua formação, a sua cultura e o seu passado, o candidato dê garantias de que está em condições de respeitá-la e defendê-la. São também recomendáveis um cadastro limpo e o mais possível recheado de boas provas éticas e humanas.
Francisco Seixas da Costa
67 ANOS, EMBAIXADOR APOSENTADO
“É uma espécie de provedor do povo”
O futuro presidente, num tempo que se sabe que será muito exigente, deverá ser capaz de utilizar a legitimidade única que lhe advém do sufrágio universal para funcionar como um referente do interesse coletivo, uma espécie de um ‘provedor do povo’, aglutinador, respeitador dos partidos, mas claramente independente deles. Deve ser alguém que, no caminho para Belém, leve a ambição de ser um potenciador das reformas da modernidade, ligadas às funções de soberania: a remodelação profunda do sistema de justiça; a modernização e adequação das forças armadas e de segurança às novas exigências; a requalificação profunda da nossa máquina de representação e negociação externa. Deve ser alguém que consiga congregar vontades para os compromissos, além dos ciclos políticos. No plano externo, sem duplicar as funções do Governo, deve ser alguém de cuja imagem e postura o País se orgulhe, pela sua cultura, pelo seu prestígio, pelo seu rigor e pela experiência que se impõe aos seus pares. Deve estar também isento de quaisquer ‘trapalhadas’ sobre o seu passado, sobre as suas contas, e ter uma imagem de seriedade à prova de bala, não porque o diz, mas porque todos o reconhecem assim. Será esse o meu Presidente. O nome é apenas um detalhe.
Francisco Louçã
58 ANOS, EX-LÍDER DO BLOCO DE ESQUERDA
“São todos os que combatem as meias palavras”
Não se pode esperar que um candidato apareça por obra do supremo alfaiate. Terá de aparecer por uma escolha política, pelas ideias que representa. E não vai depender do perfil, mas da vontade de cada um. Por mim, podem aparecer todos os que combatem as meias palavras. Hoje, à esquerda, os candidatos que pensam que têm hipótese de ganhar são aqueles que pensam que devem ter uma doutrina vazia. Ora, as candidaturas mais interessantes serão, justamente, as que tiverem um debate político forte. Serão aquelas que aparecerem com tempo, com consistência, com argumentos fortes e capacidade de juntar. As candidaturas exclusivamente partidárias serão pouco interessantes e representarão menos do que é preciso para mudar o debate político. Era preciso que o PR fosse alguém que ajudasse a pensar os problemas de Portugal e da Europa, porque mete medo que as coisas continuem como estão que a Europa continue a ser o que é, que a Alemanha continue a impor austeridade, que as instituições continuem a despedir pessoas, que haja 40% de desemprego jovem em Portugal e 60% em Espanha. É preciso que seja um candidato que imponha o debate que as pessoas anseiam.
Fernando Seara
58 ANOS, EX-PRESIDENTE DA CÂMARA DE SINTRA
“Tem de se assumir como um avô com mel”
O Presidente da República tem de ser uma referência. De idoneidade e de probidade. O Presidente da República tem de ser respeitado e dar-se ao respeito e tem de ser reconhecido pessoal e profissionalmente. O Presidente tem de ser o máximo denominador comum e, sabendo das clivagens em Portugal, ser uma ponte permanente para os principais atores políticos, sociais e culturais. O PR, o próximo, tem de ser, acima de tudo, uma luz interna de esperança e só derivadamente um fator de representatividade externa. Seja homem ou mulher, tem de ter experiência de vida e conhecimento das dificuldades das diferentes gerações. O Presidente da República, o próximo, com mais de50 anos, tem de ser um marco de reconhecimento interno e um farol para o nosso comum futuro, num tempo de transformação e de mudanças profundas na Europa e no Mundo. O próximo Presidente tem de saber que não há hoje em dia uma opinião pública, mas sim diferentes e bem plurais opiniões publicadas, incluindo aquelas que a internet multiplicou e privatizou. O Presidente da República, o próximo, tem de se assumir como um verdadeiro ‘avô com mel’: conhecer os dramas dos netos e as angústias dos filhos. E só assim será expressão presidencial neste concreto e singular Portugal. Com a consciência das normas constitucionais, mas com a certeza que só uma Constituição viva é que sobrevive.