Valery é um dos ex-prisioneiros ucranianos que foi levado para a prisão de Kherson, na Ucrânia, pelos russos. Agora, depois de ter sido libertado, decidiu contar os horrores por que passou as atrocidades que viu à Sky News. “Nas 20 celas, havia mais de 180 presos. Todos os dias as pessoas eram torturadas”, contou o combatente, enquanto caminhava pela área que, agora, lhe provoca péssimas memórias. “Se entrar na prisão e vir o que eles escreveram nas paredes, verá o quanto eles nos odiavam”, acrescentou. Nas paredes da cadeia, pode ler-se “Zelensky, estamos a chegar”.
O homem, que era um empresário de sucesso, resistiu antes de ser detido, enquanto os soldados russos roubavam os camiões da sua fábrica. Ainda assim, Valery considera-se um sortudo, pois, segundo ele, os outros presos foram torturados de forma muito pior. “Foram torturados severamente. Foram eletrocutados. Os russos afogavam pessoas. Cortaram pessoas. Faziam coisas que não conseguiria imaginar que qualquer ser humano fosse capaz de fazer. Rezávamos para que a Ucrânia voltasse a Kherson o mais rápido possível”, recordou.
Olena Naumova também esteve presa. No final de agosto, três soldados russos bateram à sua porta a ordenar que entregasse a sua arma. Como não tinha o que exigiam, a professora de jardim de infância, que postou alguns vídeos pró-ucranianos, foi levada, um saco de plástico sobre a sua cabeça, para um carro. Quando se apercebeu estava numa prisão subterrânea onde foi interrogada, espancada e forçada a ouvir gritos emanados de outras celas.

Perto da prisão, viviam cidadãos que conseguiam ouvir os gritos de socorro e os pedidos de ajuda. Andrei era uma dessas pessoas. “Eu ouvi tudo, foi assustador”, recorda. “Violavam meninas aqui. Trouxeram homens para cá e espancavam-nos e matavam-nos”, acrescentou.
Apesar de o território já não estar invadido, a população ainda está a recuperar dos traumas que os russos deixaram dos oito meses de ocupação. Vários moradores descrevem ter sido levados para câmaras de tortura subterrâneas, às vezes apenas por publicarem poemas patrióticos. Outros contam que testemunharam manifestações aleatórias de violência, como soldados russos a espancarem jovens no rosto – sem motivo aparente.
Vyacheslav Lukashuk, um jovem de 27 anos, lemba o momento em que uma dúzia de soldados invadiu a sua casa e o atirou para o chão, gritando “Onde estão as armas?” e “Como é que contactas com o exército ucraniano?”. Deram-lhe pontapés e espancaram-no. “Eu disse adeus à minha vida naquele momento”, recorda. Isto porque pintou com spray “Glória à Ucrânia” numa paragem de autocarro. O jovem foi libertado, depois de uma semana, quando pediu desculpas em vídeo. Os russos publicaram o conteúdo online, juntamente com as confissões de outros moradores, num aparente esforço de envergonhar e intimidar as pessoas.
Segundo as autoridades ucranianas, os russos sequestraram mais de 600 pessoas e muitas ainda estão desaparecidas.
A cada dia que passa, as filas para a obtenção de água ficam mais longas e as pessoas amontoam-se perto de um gerador para carregar os telemóveis as lanternas. Segundo a Sky News, apesar de já não viverem em território ocupado, os residentes de Kherson sentem-se muito cansados e com medo do que pode vir a seguir.

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, cantou esta segunda-feira o hino nacional na cidade, cuja reconquista pelas forças ucranianas saudou como o “início do fim da guerra” iniciada pela Rússia há quase nove meses.
As forças ucranianas entraram na cidade de Kherson na sexta-feira, após a retirada de milhares de soldados russos para a margem oriental do Rio Dniepre, que divide a região do sul da Ucrânia anexada pela Rússia a 30 de setembro. “Nós vemos a reação das pessoas. As pessoas esperavam pelo exército ucraniano”, disse o presidente.
Notícia atualizada às 10:45h