Um perdão presidencial num caso de abuso sexual de menores, envolvendo a ex-mulher e outras figuras do Estado, lançou para a ribalta, em 2024, a carreira política de Péter Magyar. Até então, este discreto advogado fez parte, enquanto militante partidário, funcionário do governo e administrador de empresas públicas, da cúpula do poder de Viktor Orbán, outrora um ídolo de infância com direito a poster colado na parede do quarto, qual estrela de rock ou craque de futebol. Agora, nas eleições legislativas deste domingo, o ex-admirador travou a reeleição do homem que governou Hungria durante 16 anos, mais comprometido com a Rússia do que alinhado com a União Europeia (UE).
Longe vai o fim da década de 1980, em que Orbán ganhou popularidade à escala nacional, incluindo entre os mais novos, na pele de fervoroso ativista pela emancipação húngara da União Soviética. Mas só passaram dois anos desde que Péter Magyar decidiu emancipar-se do Fidesz, o partido nacionalista-conservador que Orbán moldou ao longo dos tempos até cair, aos dias de hoje, nas graças de Vladimir Putin e Donald Trump, posicionando-se como força de bloqueio dentro da UE.
A rutura deu-se na sequência de um indulto concedido pela então Presidente da Hungria, Katalin Novák, a um vice-diretor de um orfanato estatal, que havia sido condenado por tentativa de encobrir crimes de pedofilia cometidos pelo diretor da instituição. O perdão presidencial só seria noticiado em fevereiro de 2024, embora tivesse ocorrido em abril do ano anterior, quando Péter Magyar ainda era casado com Judit Varga. À época, a mãe dos seus três filhos exercia como ministra da Justiça, e o indulto também tinha a assinatura dela.
Ascensão súbita
Quando o caso veio a público, Judit já havia renunciado ao cargo para assumir o lugar de deputada, uma vez que se preparava para ser cabeça de lista do Fidesz nas eleições para o Parlamento Europeu. Tanto ela como a Presidente Katalian, uma antiga “vice” do partido, abandonaram a atividade política após o escândalo. Viktor Orbán regozijou-se pelo facto de o Fidesz tomar medidas quando os seus militantes erram.
“Não quero fazer parte de um sistema no qual as pessoas que realmente mandam se escondem atrás de saias de mulheres”, reagiu Péter Magyar, numa publicação no Facebook, sugerindo que as duas pessoas penalizadas não passavam de bodes expiatórios para abafar a responsabilidade de figuras mais importantes do regime (o Presidente tem pouco poder e é escolhido pelo Parlamento, onde o Fidesz tem beneficiado de maiorias sólidas).
Então já divorciado de Judit, Péter Magyar instigou uma caça aos verdadeiros impulsionadores do polémico indulto e apontou a mira ao ministro Antal Rogán, que servia o gabinete de Viktor Orbán. Além de expor casos de coação na primeira pessoa, o advogado acusou-o de ocultar subornos a membros do governo. Em resposta, a ex-mulher denunciou-o por violência doméstica.
Nada disso parece ter afetado a súbita popularidade de Péter Magyar. Num par de meses, a ideia de criar um movimento cívico deu lugar à adesão a um pequeno partido chamado Tisza (Respeito e Liberdade), a tempo de concorrer ao Parlamento Europeu, em maio de 2024. O resultado, à beira dos 30%, elevou o Tisza a maior partido da oposição.
Não quero fazer parte de um sistema no qual as pessoas que realmente mandam se escondem atrás de saias de mulheres
Péter Magyar
Quase dois anos depois, Magyar venceu as eleições legislativas.
Visto como um partido de centro-direita, o Tisza defende uma aproximação à UE e a redução da dependência energética da Rússia, que disparou nos últimos anos. Sobre a entrada da Ucrânia na UE, admite a realização de um referendo.
No plano interno, Péter Magyar aposta em reformas na Saúde e na Educação, prometendo desbloquear fundos europeus congelados por causa de violações ao Estado de direito. Outras medidas passam pelo aumento do salário mínimo e dos impostos sobre os contribuintes com maiores rendimentos, a diminuição do custo da energia e apoios à agricultura, à indústria transformadora e a pequenas e médias empresas.
Aos 45 anos, este natural de Budapeste é acusado por Orbán e companhia de ser um “fantoche” de Bruxelas e uma criação da UE, mas ele é filho de juízes e sobrinho-neto do ex-Presidente Ferenc Mádl (2000-2005). Ter conhecido por dentro a rede de influências do Fidesz, diz ele, é uma vantagem para cortar o mal pela raiz.