No início, não se esconderam os risos e soltaram-se até algumas gargalhadas. Donald Trump preparava-se para voltar a tomar posse como Presidente dos EUA, nos primeiros dias de janeiro de 2025, e anunciava que, mal chegasse à Casa Branca, iria mudar o nome do golfo do México para golfo da América. E avisava ainda que queria que os EUA voltassem a ser donos do canal do Panamá e, já agora, também da Gronelândia, aconselhando ainda o Canadá a incorporar-se como o 51º estado americano. Essas pretensões, algumas delas repetidas no seu discurso oficial de inauguração de mandato, geraram protestos públicos dos líderes das nações afetadas, mas realmente ninguém o levou muito a sério. Com uma exceção: os humoristas que encontraram naquele “desvario imperialista” um bom manancial para muitas piadas e cartoons. Meio a sério, meio a brincar, como é habitual, o jornal tabloide New York Post (propriedade do império de média de Rupert Murdoch, que já foi seu apoiante, mas que depois passou a crítico… cauteloso) levou as ameaças de Trump até às últimas consequências e, na primeira página, cunhou a expressão que, desde a madrugada de dia 3, com o ataque e o anúncio de ocupação da Venezuela, já todos passaram a leva a sério: “A doutrina Donroe.”
O trocadilho, como o próprio jornal explicava, tinha origem na doutrina anunciada no discurso sobre o estado da União, em 1823, em que o então Presidente James Monroe, em oposição às antigas colónias europeias, lançou a premissa da “América para os americanos”, com os EUA a reclamarem o direito de exercer o seu interesse estratégico em todo o continente, que denominam de hemisfério ocidental. Na primeira página, Trump era visto com um ar sorridente, meio aparvalhado, a exibir um mapa no qual se apropriava do Canadá, do Panamá e da Gronelândia – mas como se fosse uma anedota.
