Quando, em janeiro de 2024, a primeira-ministra Élisabeth Borne apresentou a demissão, ao fim de apenas 20 meses no cargo, poucos franceses suspeitavam de que estariam a assistir àquele que, afinal, seria a mais longa permanência de um chefe de governo no segundo mandato presidencial de Emmanuel Macron. A saída de Borne, ao fim de menos de dois anos, foi uma decisão consciente de Macron, sob o argumento de que pretendia dar um novo impulso à sua Presidência, antes de dois momentos decisivos: as eleições europeias e a realização dos Jogos Olímpicos de Paris. Essa decisão acabou, no entanto, por se transformar no prólogo de uma crise política que parece cada vez mais interminável.
Desde então, França já teve mais três primeiros-ministros e, tudo o indica, está a caminho de um quarto. Isto porque, logo a seguir, o sucessor de Borne, o jovem Gabriel Attal, não conseguiu dar o impulso pretendido por Macron e, pior do que isso, acabou por ser responsabilizado pelo resultado catastrófico nas eleições europeias, de junho de 2024, em que o RN, de Marine Le Pen, recolheu um terço das preferências dos eleitores. Em consequência, quando os últimos votos ainda estavam a ser contados, Macron comunicou ao país a dissolução da Assembleia Nacional e a realização de eleições legislativas, como forma de “clarificar” o momento político.
Essa decisão acabou por se revelar, porventura, o maior erro político de Emmanuel Macron. Chamados às urnas, em julho, os franceses voltaram a penalizar o Presidente. E, ainda por cima, deram os votos necessários para decretar, sem piedade, o fim do centro político – com os partidos que sempre governaram o país desde o final da II Guerra Mundial a tornarem-se amplamente minoritários, num Parlamento dominado, nuns claros dois terços, pela extrema-direita e a extrema-esquerda. Ainda por cima, apesar de a Nova Frente Popular, que reuniu os partidos de esquerda, ter alcançado o maior número de votos, Macron recusou entregar-lhes a chefia do executivo. Preferiu, antes, ir buscar o veterano Michel Barnier, hábil negociador europeu do Brexit, para primeiro-ministro – mas que ficou menos de uma centena de dias no cargo, ao não sobreviver a uma moção de censura apresentada pela França Insubmissa (extrema-esquerda), que contou com os votos da extrema-direita do Rassemblement National.
Quem fixa as contas?
Menos de nove meses depois, a história pode repetir-se. Desta vez, não com uma moção de censura, mas com uma moção de confiança apresentada pelo homem que, desde dezembro de 2024, está à frente do governo francês: François Bayrou. Mas o resultado, ao que tudo indica, deverá ser o mesmo.
Embora pouco comum, todo este clima de instabilidade política poderia ser quase irrelevante – e até normal num país como França, habituado a convulsões políticas, revoltas e revoluções. O problema é que ele acaba por ser o sintoma de algo mais vasto e preocupante – até para o resto da Europa: o estado calamitoso das finanças públicas francesas e uma economia em crise que, caso se constipe a sério, pode afetar muitos países vizinhos.
A hora da verdade está marcada para esta segunda-feira, 8 de setembro, quando a Assembleia Nacional se reunir para decidir se “confia” ou não em Bayrou. Ou, antes: se aceita concretizar a sua proposta de Orçamento, que inclui um corte de 43,8 mil milhões de euros na despesa pública e até a eliminação de dois feriados nacionais. Tudo dentro da sua perspetiva, já várias vezes repetida, de que os franceses devem trabalhar mais e o Estado deve gastar menos.
Governos frágeis
Desde a reeleição de Emmanuel Macron em 2022, os primeiros–ministros duram poucos meses no cargo
Élisabeth Borne
De 16 de maio de 2022 até 8 de janeiro de 2024 – 602 dias. Demitida por Emmanuel Macron.
Gabriel Attal
De 9 de janeiro até 5 de setembro de 2024 – 240 dias. Substituído após a perda das eleições legislativas antecipadas.
Michel Barnier
De 5 de setembro a 13 de dezembro de 2024 – 99 dias. Derrotado por uma moção de censura, no Parlamento.
François Bayrou
De 13 de dezembro de 2024 até 8 de setembro de 2025? (270 dias?). Joga o seu futuro na moção de confiança que apresentou, e que será votada no dia 8 de setembro.
Salvo qualquer surpresa de última hora, no final desse dia, Emmanuel Macron pode ser obrigado a nomear um novo primeiro-ministro para formar uma coligação ou até mesmo convocar novas eleições legislativas. Com uma certeza, porém: dois dias depois, milhares de franceses deverão sair às ruas, numa manifestação há muito convocada para se opor aos planos de Bayrou… ou de qualquer sucessor que partilhe as mesmas ideias.
Quem segura a França?
Com ou sem crise política, há um rumo que parece estar traçado, segundo assinala o fundo de ações Schroders, numa nota assinada pelo seu analista Thomas Gabbey: “Qualquer caminho significará, com toda a probabilidade, mais desvios orçamentais e o aumento da pressão sobre a classificação da dívida francesa.”
Essa é uma análise partilhada pela revista The Economist, que elogiou Bayrou por ter feito soar o alarme sobre o risco financeiro do país: “França não equilibra o seu orçamento desde 1974. O seu défice é o mais alto, em relação ao PIB, da Zona Euro. A sua dívida pública é maior do que a de todos os membros, exceto a Grécia e Itália, e os seus custos de empréstimo são agora mais altos do que as taxas de juro muito melhores da Grécia.”
É verdade, no entanto, que existe uma diferença substancial entre a França de hoje e a Grécia falida na sequência da crise financeira de 2008: ao contrário do que acontecia com Atenas, o Estado francês ainda não tem problemas para encontrar credores. Mas ninguém consegue prever durante quanto tempo mais isso acontecerá. Até porque vivemos tempos diferentes. E está bem presente a memória de como a reação dos mercados fez cair, no Reino Unido, o fugaz governo ultraliberal de Liz Truss. Pode suceder o mesmo em França?
O que querem as ruas?
Apesar das dúvidas, essa não parece ser uma preocupação para a maioria dos franceses que, nos últimos anos, se têm oposto, nas ruas e nas urnas, contra qualquer tentativa de reformulação do Estado social, nomeadamente as mudanças para reduzir a idade de aposentação.
Agora, desde que foi conhecida a decisão de fazer depender a continuidade do governo através de uma moção de confiança – um expediente raro em França, mas que foi combinado entre Macron e Bayrou –, as sondagens têm sido claras em relação à resposta da população: a maioria dos franceses quer a realização de novas eleições – o que acaba por dar maior peso à decisão da oposição de chumbar o governo. Além disso, nalgumas sondagens, dois terços do eleitorado pedem também a renúncia de Emmanuel Macron.
Nesse sentido, alguns políticos têm lembrado, por estes dias, o exemplo de Charles De Gaulle, em 1969, quando viu chumbado, através do voto popular, o referendo que tinha convocado sobre uma proposta de revisão constitucional. De imediato, o velho general e herói da resistência ao nazismo apresentou a sua demissão do cargo.
“Macron precisa de aceitar que o povo francês não o quer mais e deve agir como um estadista”, lembrou, a propósito, o ex-líder do partido conservador Les Républicains – que apoiou os governos de Bayrou e Barnier – sobre o que o atual Presidente devia fazer. A resposta será conhecida em breve.
