O médico Ghassan Abu Sitta é um especialista em cirurgia plástica palestiniano, de 54 anos, que mora em Londres, no Reino Unido, e que se voluntariou para trabalhar na Faixa de Gaza quando os ataques de Israel se intensificaram. Chegou à cidade de Gaza no dia 9 de outubro através dos Médicos Sem Fronteiras e lá ficou durante 43 dias. Cuidou dos feridos nos hospitais de Al-Shifa e Al-Ahli e diz-se assombrado pelo que assistiu naqueles dias. Regressou a casa exausto e com um imenso sentimento de culpa por acreditar que podia ter feito mais pelas pessoas que lá ficaram.
Em entrevista ao The Washington Post, Abu Sitta conta que chegou a trabalhar 24 horas por dia. “Tudo o que fiz na vida levou-me àquele ponto, era ali que eu deveria estar”, conta ele, que muitas vezes acreditou que não iria sobreviver aos ataques. Desses 43 dias em Gaza guarda as piores memórias da sua carreira, mas também momentos em que o amor e a humanidade prevaleceram sob o terror.
“Sabem quando estão no mar e ficam submersos por uma onda e, numa fração de segundo, tentam colocar a cabeça fora de água mas não conseguem? Foi isso que senti. Estamos numa cirurgia, achamos que fizemos um bom trabalho, conseguimos atender 12 pacientes, mas na última meia hora aconteceu um ataque aéreo que trouxe 70 ou 80 feridos e acabas por sentir que fizeste muito pouco”, exemplifica.
Nas memórias, guarda a história de uma menina que cuidou e que era filha de um médico do hospital Al-Shifa que morreu. “Tinha uns 8 ou 9 anos e estava sozinha. Não tinha parte do rosto. Metade do nariz e das pálpebras tinham sido arrancadas. Quando cuidamos de um caso destes, temos que limpar, pois há sujidade, poeira e cascalho nas feridas. E estava a limpar-lhe o rosto e o cabelo, para ter a certeza de que não tinha mais ferimentos na cabeça. Então, de repente, percebi que ela tinha tranças. Depois reparei que tinha uma fita no cabelo com uma flor de plástico. Estes são aqueles detalhes que fazem perder a respiração. Ficamos desarmados. Ficamos completamente arrasados. Era uma menina linda”.
O amor no meio do inferno
Na partilha das memórias, o médico recorda os atos de amor que mais o sensibilizaram no período em que esteve em Gaza. “Quando vivemos num mundo de morte, as pessoas começam a resistir através de atos de amor. Esses atos tornam-se uma forma de resistência.
“Havia um menino de 3 anos e ninguém sabia o nome dele. Amputei-lhe uma perna e um braço. No dia seguinte, quando o fui visitar, a mulher que tinha o filho ferido na cama ao lado da dele estava com ele ao colo, a alimentá-lo. Ela estava a cuidar dele porque ele não tinha família. Nem sequer sabíamos qual o nome dele”, destaca Abu Sitta, que fala ainda num “retorno ao sentido de vida comunitária” em tempos de guerra. “Tudo passa a ser partilhado. A comida é partilhada, a medicação é partilhada. As casas são partilhadas e isso é incrível. Incrível”.
Um “oásis” de normalidade
O cirurgião recorda a ajuda de um barbeiro no hospital Al-Ahli. “Um homem adorável que ajudou como assistente”, destaca. Certo dia, este homem que estava a ajudar os feridos decidiu fazer uma proposta: “Disse que queria fazer a barba de todos, pois estávamos a parecer homens das cavernas. Então todos os homens foram para um dos quartos do último andar, que estava parcialmente destruído. Ficámos lá todos sentados, à espera da nossa vez. Ele cortou-nos a barba e o cabelo. De repente, o humor de todos estava mais leve graças àquele gesto de generosidade. A conversa começou a fluir, falámos de temas banais, a contar piadas e a brincar com quem tinha mais cabelos brancos. Aquele barbeiro criou um breve oásis de normalidade”.
O desespero de encontrar familiares
“Lembro-me de um menino que tinha o rosto cheio de lama. Eu estava a cuidar dele, a tentar estabilizá-lo, e outro médico que estava comigo tentava limpar-lhe a cara para perceber se ele era ou não o seu sobrinho. O menino tinha entre 4 a 5 anos e tinha lesões nos membros e fraturas expostas nas duas pernas. Eu estava de joelhos a fazer de tudo para o salvar. Quando o outro médico chegou, perguntou o que estava a acontecer e caiu de joelhos ao olhar para o rosto dele. Começou logo a lavá-lo e a dizer que a casa dele tinha sido atacada”, conta o cirurgião, a relatar um exemplo de desespero de um dos colegas em encontrar familiares que poderiam ter sido feridos nos ataques.
Nascer no meio da morte
Abu Sitta assistiu ainda uma grávida de 19 anos que tinha um estilhaço na zona do abdomén. Procuraram pela região por um obstetra que a pudesse salvar sem que o útero fosse comprometido, assim como retirar o bebé em segurança. “Do nada, depois de toda a morte a que assistimos, ouvimos uma criança. Sentimos o som da vida pela primeira vez em 40 dias de morte. Aquele era o som da vida”.
Aceitar que o fim pode estar próximo
O cirurgião admite que chegou a acreditar que não ia sobreviver a esta missão em Gaza. “Numa noite em que os ataques estão muito próximos e o prédio tremia com violência, senti-me mais sozinho do que nunca e fiz as pazes com a ideia de que ia morrer. Foi muito, muito terapêutico. Deixei de me sentir ansioso. Estava em paz comigo mesmo e com as escolhas que tinha feito na vida. Senti tristeza, especialmente pelo meu filho mais novo. Preparei mensagens de áudio para os meus meninos. Só para ter a certeza de que iam ouvir a minha voz depois de eu morrer, por mais mórbido que isso possa parecer. Mas as mensagens não eram pesadas, eram sim divertidas, diziam que tinha saudades e que os amava”.
Deixar Gaza e regressar a casa
Ao fim de 43 dias em Gaza, Abu Sitta decidiu regressar a casa no momento em que lhe foi comunicado que não havia mais anestesias para dar aos feridos. “Sendo assim, não havia mais nada que pudesse fazer”.
De volta ao Reino Unido, onde mora, admite que tem dificuldade em deixar de pensar no que viveu. “Há dias em que acho que ainda devia estar lá. Fico muitas vezes a perguntar-me se deveria ter ido embora”, admite. Contudo, as notícias que vão surgindo fazem Abu Sitta acreditar que pouco poderia fazer para ajudar os feridos que continuam a surgir devido aos ataques contínuos. Afinal, continuam a faltar medicamentos, anestesias e outros meios de que necessitaria para os ajudar.