O assassinato do ex-presidente do Haiti, Jovenel Moise, estará relacionado com a lista de traficantes de drogas e de armas que o próprio se preparava para entregar ao governo dos EUA, dizem oficiais do Haiti com conhecimento aprofundado da investigação.
Moise foi assassinado na sua casa de madrugada e a sua mulher gravemente ferida por um grupo de homens armados em busca de documentos comprometedores, como se veio a saber mais tarde. As autoridades haitianas prenderam dezenas de pessoas, sendo a maioria dos invasores de nacionalidade colombiana, mas ninguém ainda foi acusado pelo crime.
A investigação do New York Times dá conta de que o presidente estaria prestes a divulgar nomes. Aos quatro oficiais incumbidos de compilar os nomes e redigir o documento, foi pedido que nenhum nome escapasse, nem mesmo dos que o ajudaram a chegar à posição de chefe de estado. “O documento era parte integrante de uma série de confrontos que Sr. Moise tinha com políticos poderosos e empresários, suspeitos de tráfico de drogas e armas”, escreve o New York Times.
O presidente conhecia-os há vários anos, pelo que a sua posição foi vista como um ato de traição, contaram os oficiais. De amigos passaram para inimigos, depois de Moise levar a cabo uma série de medidas que não foram do agrado destes, entre elas a remodelação do sistema alfandegário, a nacionalização de um porto marítimo com atividades suspeitas de contrabando, a ordem de destruição de uma pista de aterragem clandestina para aeronaves provenientes da Venezuela e da Colômbia e a investigação do estranhamente lucrativo comércio de enguias, identificado como um mecanismo de lavagem de dinheiro.
Um dos visados na lista era Charles Saint-Rémy, um empresário haitiano há muito identificado pela Gabinete de Combate às Drogas dos EUA por envolvimento em atividades de tráfico de droga e cunhado do ex-presidente Michel Martelly, que impulsionou o trajeto político de Mose até ser o seu sucessor. Martelly, que está a considerar concorrer às próximas eleições, e Saint-Rémy tinham uma enorme influência na governação do presidente Moise, com uma palavra a dizer em assuntos que iam desde contratos públicos até à escolha de ministros. Moise começou a sentir uma ação sufocante desses e de outros oligarcas juntos da sua presidência, revelaram os seus assessores.
A sua mulher, Martine Moise, que foi alvejada e permaneceu no chão fingindo-se de morta, contou como os homens vasculharam apressadamente a casa em busca dos arquivos, até encontrarem o que procuravam. Na sua primeira entrevista desde o assassinato, revelou ao New York Times desconhecer na altura o que teriam levado.
Quando os investigadores chegaram à cena do crime, depararam-se com uma residência saqueada com papéis espalhados por todo o lado. Os homens detidos reconheceram, em interrogatório, que recuperar a lista era a mais alta das prioridades, revelaram três oficiais.
“Seria um tolo se pensasse que o narcotráfico e o tráfico de armas não tiveram o seu papel neste assassinato”, disse Daniel Foote, que serviu como enviado especial dos EUA ao Haiti antes de deixar o cargo no mês passado. “Qualquer pessoa que saiba como funcionam a política e a economia do Haiti percebe isso.”
A investigação do assassinato não tem avançado, dizem oficiais norte-americanos, e, se o caso não for resolvido, muitos haitianos receiam que a onda de impunidade no país se perpetue, um aspeto preocupante pelo encorajamento transmitido às redes criminais que tomaram o estado nos últimos anos — há muito que suspeitos de narcotráfico têm assento no parlamento do Haiti. O governo já prometeu fazer justiça no caso, mas os oficiais de justiça garantem que foram intimidados e receberam ameaças de morte.
A morte de Jovenel Moise deixou um vácuo político no Haiti, sem presidente eleito e tem fomentado o avanço de gangs que agora controlam parte do território da nação das Caraíbas.