Ao longo de 17 meses, respeitando a tradição dos ex-Presidentes, Barack Obama tem-se mantido calado sobre as políticas do seu sucessor, Donald Trump. Para um homem que tem a retórica como uma das suas armas mais poderosas, este silêncio torna-se incompreensível para muitos norte-americanos, que não param de fazer a pergunta: Onde está Obama?
Segundo fontes próximas do antigo Presidente, citadas pela revista New York, até nas conversas privadas é muito raro Obama fazer qualquer menção a Trump. Quem o visita garante que o ex-Presidente se mostra mais preocupado com os grandes problemas do mundo do que com a política interna dos EUA.
Trump, por sua vez, fala abertamente sobre Obama e até o acusou de ter feito escutas ilegais na altura da campanha, apesar de não existir qualquer evidência ou provas disso. Após a reunião aberta que os dois tiveram no final de 2016, Trump veio, mais tarde, insinuar que Obama estava a tentar minar
a sua Administração.
Como Presidente, Trump tem alterado todas as grandes opções políticas de fundo criadas pelo seu antecessor. Desde acabar com o programa de saúde Affordable Care Act, conhecido como Obamacare, até retirar os EUA do Acordo de Paris sobre alterações climáticas, passando pelo estrangulamento do acordo comercial Transpacífico.
Perante tal atitude, esperava-se uma resposta firme de Obama. Mas não. Acabou por criticar estas decisões políticas, mas de forma moderada e sem se referir ao nome de Trump. “As nações que se mantiveram no Acordo de Paris serão as que irão colher os benefícios com a criação de novas indústrias e novos empregos. Acredito que os EUA deveriam estar na linha da frente”, disse, numa declaração lacónica.
Apesar de não avançar com uma estratégia de conflito direto com Trump, Obama possui junto da população norte-americana um poder que continua a ter um peso único. Em agosto do ano passado, uma manifestação de supremacia branca em Charlottesville, no Estado da Virgínia, que juntou grupos de direita entre os quais elementos do Ku Klux Klan, acabou em confrontos, dos quais resultaram três mortos e dezenas de feridos. Após os acontecimentos, Obama escreveu um tweet citando Nelson Mandela: “Ninguém nasce com ódio a outra pessoa por causa da cor da sua pele, o seu passado ou a sua religião. As pessoas devem aprender a odiar e, se conseguem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar. Pois o amor vem de forma mais natural do coração dos humanos do que o seu oposto.”
Em apenas dois dias, tinha 2,5 milhões de likes, o segundo mais popular da história segundo o site Favstar, que faz este tipo de contagem. Além disso, o tweet já tinha nesse período mais de um milhão de partilhas. No mesmo período, o tweet de Trump não ultrapassou os 150 mil likes. A supremacia da retórica e da empatia esteve mais uma vez ao lado de Obama. No entanto nem isso o levou a mudar a sua estratégia.
No início de junho, após saírem notícias sobre os filhos dos imigrantes que estavam a ser separados dos pais na fronteira com o México, e depois de Laura Bush publicar um artigo em que condenava as políticas do seu partido, Obama decidiu, mais uma vez, não entrar no conflito de ideias. Foi a sua mulher, Michelle, a tomar a liderança. A ex-primeira-dama aproveitou para partilhar o artigo de Laura Bush, citando a frase “Por vezes, a verdade transcende o partido”.
Obama tem assistido a toda esta destruição do seu legado, mas passa a maior parte do tempo concentrado em dois projetos: construir a sua fundação e escrever as suas memórias.
À procura de líderes
A Fundação Obama está desenhada para ser uma instituição que irá agregar uma futura geração de líderes. Estará fisicamente em Chicago, mas com presença em todo o mundo através de acordos internacionais com universidades de vários países e disponível no mundo digital. Este ano lançou um programa académico com a Universidade de Chicago que teve uma escolha seletiva de alunos.
A fundação irá ainda criar um centro presidencial, com um museu incorporado, situado no Parque Jackson, em Chicago, que irá abrir em 2021 e que terá como finalidade dar aos visitantes recursos para que estes possam mudar as políticas que os rodeiam.
Este é o projeto em que Obama está mais empenhado no momento. Envolve-se em quase tudo, desde as grandes decisões de fundo aos mais pequenos pormenores. Tanto está a reunir-se com os arquitetos que desenham o espaço como a convencer um qualquer filantropo a aderir a esta causa.
O seu objetivo é atingir uma verba entre 500 milhões e mil milhões de dólares. O site da fundação apresenta os nomes de todos os dadores que ofereceram mais de um milhão de dólares. Entre eles estão a Fundação Bill e Melinda Gates, o realizador J. J. Abrams, Bob Iger, um dos pesos-pesados do Partido Democrata, e até Ken Griffin, gestor do fundo Citadel, um dos homens mais ricos do mundo, e um dos maiores apoiantes do Partido Republicano. O montante doado por cada um não é revelado, mas nos EUA garantem que a forma entusiasta como Obama apresenta o projeto já levou alguns dadores a financiarem a fundação com mais de dez milhões de dólares.
Outra forma de arranjar verbas é através das conferências. Desde que saiu da presidência, Obama já deu cerca de uma dúzia de palestras, nas quais cobra, pelo menos, 300 mil dólares. O valor varia conforme o local e a organização que o convida. Em Portugal, por exemplo, Obama terá cobrado perto dos 500 mil para participar como orador na conferência sobre alterações climáticas que se realizou no dia 6 de julho, no Porto.
Estas conferências já o levaram a todos os continentes, com exceção da Antártida. Entre cada paragem, Obama aproveita para se reunir com os líderes políticos de cada país, quase sempre em privado e de modo mais informal do que acontecia quando era Presidente dos EUA. Tem mantido alguma discrição nestas reuniões para que não se especule que as faça para ganhar protagonismo na diplomacia internacional. Surgiu em público na reunião com Angela Merkel, em julho do ano passado, em Berlim. Mais tarde, durante umas férias na Indonésia com a família, Barack encontrou-se com Joko Widodo, Presidente daquele país. Durante um curto período de férias na Toscana, encontrou-se com o antigo primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, tendo sido o tema da conversa o movimento populista Cinco Estrelas. Em Buenos Aires, jogou golfe com o Presidente Mauricio Macri e, no Canadá, jantou com o primeiro-ministro, Justin Trudeau, num restaurante local.
Em outubro, Obama fez a primeira cimeira da sua fundação, tendo juntado no mesmo espaço vários empreendedores locais, o príncipe Harry, Lin-Manuel Miranda, escritor, ator e compositor, que produziu o musical Hamilton, um dos maiores sucessos da Broadway nos últimos anos e o cantor Chance the Rapper. Ao longo deste mês, Obama irá juntar, em Joanesburgo, na África do Sul, 200 líderes de toda a África.
Contratos milionários
Enquanto avança a passos largos com a fundação, o seu tão esperado livro de memórias continua em lume brando. O casal Obama assinou, em novembro, um contrato de 65 milhões de dólares com a editora Penguin Random House, para que cada um escrevesse um livro de memórias. O de Michelle será publicado já em novembro. O de Obama ainda não tem data marcada nem título conhecido. Mas não está parado. Ao longo dos últimos meses, o ex-Presidente tem-se reunido com antigos membros do seu gabinete e falado sobre temas que marcaram a sua Administração. As reuniões acontecem no escritório que o casal Obama partilha com os seus cerca de 20 colaboradores. As paredes estão decoradas com lembranças do tempo em que esteve na Casa Branca. Entre estas, está a bandeira norte-americana oferecida a Obama pelo fuzileiro que matou Osama bin Laden.
Além do contrato com a Penguin, outra das fontes de rendimento do casal Obama será proveniente do acordo selado com a Netflix há cerca de dois meses. Barack já admitiu que esta será uma forma de ganhar dinheiro mais apelativa do que o circuito de conferências que faz pelo mundo fora.
Este contrato, que teve uma longa negociação, nasceu da boa relação que Obama tem com Reed Hastings, CEO da Netflix, e com Ted Sarandos, o administrador responsável pelos conteúdos desta plataforma.
Ted Sarandos conheceu a sua atual mulher, Nicole Avant, em 2008, no decorrer de um evento de angariação de fundos para a campanha de Obama. Nicole acabou por ser embaixadora nas Bahamas durante a Administração Obama. Além disso, o chefe de pessoal de Sarandos é Ferial Govashiri, que foi assistente pessoal de Obama na Casa Branca.
A produção de conteúdos foi, desde o início, uma opção em aberto para o casal Obama, conscientes da reação positiva que tinha do público quando fazia recomendações de livros ou de outros conteúdos de média.
O acordo assinado com a Netflix prevê a criação de um largo espetro de programas contando histórias de indivíduos que os Obama acreditam que servirão de guias para que os espetadores se tornem melhores pessoas e cidadãos mais responsáveis.
Quando a Netflix anunciou o acordo, o casal disse que iria criar a Higher Ground Productions, empresa que irá produzir os conteúdos para os programas. Os primeiros deverão ir para o ar no final de 2019 ou em 2020.
Os Obama assentaram arraiais em Washington e os rumores sobre a sua mudança para Nova Iorque, mais propriamente para o Upper East Side, foram-se desvanecendo. Obama está confortável com a sua nova vida. No seu tempo livre, joga Words With Friends no seu iPad ou faz umas voltas de golfe. Além das viagens das conferências, o casal tem ainda aproveitado para fazer férias, algumas das quais com celebridades amigas da família.
Foi noticiado que estiveram numa viagem num iate de luxo com Oprah Winfrey, Tom Hanks e Bruce Springsteen. Antes disso, estiveram na ilha privada de Richard Branson, nas Ilhas Virgens Britânicas, onde Obama testou as suas capacidades físicas no parasailing.
Pelo meio, surgiram rumores da possibilidade de Michelle se candidatar à Presidência dos EUA nas próximas eleições. Uma solução que parecia ideal para uma ala dos democratas que não vê nos 50 possíveis candidatos uma opção clara para ganhar a Trump em 2020.
No entanto, após uma conferência sobre arquitetura que se realizou na cidade de Orlando, Florida, Michelle disse claramente que não tinha qualquer intenção de concorrer à Presidência dos EUA: “Não pediria às minhas filhas que passassem por tudo isto outra vez porque, quando concorremos para cargos destes, não estamos a envolver-nos apenas a nós, mas envolvemos toda a família.”
Enquanto Trump continua a atacar frequentemente Obama e o seu legado, o ex-Presidente mantém a serenidade que demonstrou na Casa Branca. Diz quem com ele priva que vê Trump como um episódio de pouco significado no grande arco da História. Prefere, assim, ocupar o seu tempo a tratar das grandes questões da Humanidade e do futuro. Não o seu, mas o dos próximos líderes mundiais.