O tempo é mesmo um lugar estranho. Já passaram dez anos sobre os atentados de 11 de março? A pergunta salta, em tom incrédulo, da boca de cada um dos madrilenos abordados para recordar os acontecimentos daquela manhã. Alguns ainda conseguem sentir o cheiro dos explosivos. Outros permanecem presos ao inferno para que foram transportados, regressando àqueles comboios, em pesadelos sucessivos. A todos acaba por falhar a voz, quando revivem o que ali se passou.
“O 11 de Março foi ontem para qualquer uma das vítimas. Não conseguimos virar a página, não é possível”, afirma Pilar Manjón, 54 anos, presidente da Associação 11M Afetados pelo Terrorismo, enquanto aperta, na mão, um medalhão com a fotografia do seu filho Daniel, num colar que nunca afasta do peito. O rapaz, então com 20 anos, foi um dos 191 passageiros que perderam a vida naquela manhã (ver infografia Quando o terror parou em Atocha).
Pilar regressa ao dia negro, sentada num banco de jardim do bairro de Santa Eugénia, em frente da sede da associação a que preside há nove anos. Já partilhou a sua história tantas vezes e, contudo, ainda não consegue fazê-lo sem lágrimas. Recorda cada pormenor: o lanche que lhe colocou na mochila, a festa que ele fez ao cão, a forma despachada como lhe deu um beijo, antes de sair de casa, atirando um “Até logo, mamã.” Passavam poucos minutos das sete da manhã. Às oito, haveria de gelar ao ouvir o noticiário, na rádio.
“O coração disse-me logo que o meu filho não estava bem. Senti que caía num vazio, sem ter onde me agarrar.” Foi acordar o filho mais velho e os dois haveriam de iniciar uma busca incessante de Daniel, em todos os locais possíveis. “As horas que passei no hospital, ouvindo uma lista enorme de todos os internados, esperando que alguém dissesse o seu nome… e nunca o diziam. Durante oito dias e oito longuíssimas noites, não tivemos sinal dele. Mas, depois, a realidade caiu-nos em cima como um machado.” Na morgue, onde se alinhavam milhares de objetos das vítimas, separados em montes como nos campos de concentração nazis (sapatos num lado, malas no outro, óculos, telefones, joias), descobriram o seu passe e, mais tarde, o seu relógio. Foi tudo o que recuperaram. O corpo de Daniel, tal como o de outras 45 vítimas, fora desintegrado pela força das bombas.
Bombeiros em lágrimas
A brutalidade do atentado, o maior realizado em Espanha e na Europa, chocou até aqueles que são treinados para lidar com estas situações.
Naquela manhã, junto da estação de Atocha, não era estranho ver bombeiros a chorar, com os uniformes sujos de sangue.
Mas ninguém parava, ao som do lamento das sirenas. Carlos Hernando, 43 anos, estava de folga nesse dia. Ouviu a notícia na rádio, no carro. “Liguei logo para o comando e pediram-me que fosse depressa para El Pozo.
Quando cheguei, estranhei o silêncio. Naquela altura, por volta das dez da manhã, já não havia feridos só mortos. Muitos mortos.
” Apesar dos simulacros realizados, Carlos reconhece que nada poderia preparar os bombeiros para tal tragédia. “É verdade que o uniforme nos protege muito, instala-nos numa posição mental em que sentimos não ter outro remédio senão lidar com a situação.
Mas foi muito difícil. Ainda hoje, nem à minha mulher falo do que vivi ali.” A coordenar todos os bombeiros, mas também a polícia, os serviços de emergência médica e, até os serviços funerários, estava um único homem: Alfonso del Álamo Giménez.
Durante 42 horas, sem dormir e quase sem comer, manteve-se a dar instruções. Sob o seu comando estavam 3 800 polícias, 358 bombeiros, 220 operacionais da proteção civil, 460 técnicos de saúde (médicos e enfermeiros), 948 psicólogos e 95 médicos legistas. Médico de formação, com 59 anos, atribui o sucesso da resposta dos serviços de emergência de Madrid que o levou a correr mundo, como convidado para falar dessa operação, ao facto de ter havido um comando único. “Por mais que se tente coordenar as autoridades, é diferente haver uma só pessoa a dar ordens”, considera. Espanha já possuía protocolos desenhados (com as equipas treinadas para fazer a triagem em 30 segundos) mas, como nota Alfonso del Álamo, a sua capacidade de resposta estava oleada para cenários até 30 ou 40 vítimas. Neste caso, houve que acorrer a mais de 2 mil. O diretor de Emergências e Proteção Civil percorreu todos os locais do atentado, sempre ao telefone, e instalou-se, depois, no pavilhão de congressos de Madrid (Ifema): “Entrei ali ao meio-dia do dia 11 e só saí, já sem saber sequer dos meus sapatos, na madrugada do dia 13.” O tempo passou de forma rápida, intensa, tal como estes dez anos. “Talvez quando passarem vinte, eu continue a sentir o mesmo…”
Um médico especial
Naquela manhã, Madrid ficou transfigurada.
Com o trânsito cortado nas zonas dos quatro atentados, as suas avenidas estavam vazias de carros e cheias de gente, deambulando de olhar perdido, assistindo ao frenesim de ambulâncias. Perante a dimensão da tragédia, a maioria dos madrilenos quis ajudar. Os primeiros voluntários foram as pessoas que viviam perto das estações, que socorreram os passageiros, nos minutos seguintes às explosões.
Muitos feridos seriam levados para os hospitais em carros da polícia, em táxis e até em autocarros.
A cerca de 500 metros de Atocha, o médico Carlos Blanco, 43 anos, manteve-se sozinho a prestar assistência, no meio do caos, durante mais de uma hora. “Já havia polícia municipal mas os serviços de emergência médica demoraram mais”, recorda, na sala do seu apartamento, enquanto os três filhos, de 5, 8 e 10 anos, brincam com carrinhos de bombeiros, no corredor. Carlos Blanco chegava de carro à Rua Tellez, para as suas rotineiras consultas de medicina familiar, quando reparou em várias pessoas agitadas, andando na linha férrea. Foi averiguar o que se passava.
Já não chegou a entrar no consultório.
“A tragédia era enorme. Vi um comboio esventrado mas estavam já a retirar feridos para um polidesportivo que havia ali ao lado e fui para lá. A ajuda da população foi excecional.
Os vizinhos deram-nos mantas e transportavam os feridos em cima de portas. Recordo um polícia a quem deixei a fazer pressão num ferimento, para estancar o sangue, e quando voltei, meia hora depois, ele não se tinha mexido um milímetro.” O trabalho parecia não ter fim. Foram buscar material à clínica onde trabalhava mas ele pouco podia fazer, além de improvisar garrotes e talas, até os feridos serem transferidos para o hospital. Em duas horas, ajudou mais de 80 pessoas: em média, passou um minuto e meio com cada uma. Mas nunca esquecerá os seus rostos. Sobretudo o de uma emigrante de leste, que chamava desesperada pelo seu filho uma das três crianças que morreram nos atentados.
Às 11 da manhã, já com a situação controlada pelos serviços “oficiais” de emergência médica, foi para casa. Não ligou a televisão nem o rádio. Sentou-se apenas, em silêncio, a velar o sono do seu filho no berço.
Lidar com o choque
Nos pavilhões do Ifema, que se transformaram numa gigantesca morgue, permaneciam centenas de pessoas em busca dos seus familiares.
Cansadas e desesperadas com tão longa espera, enquanto se procedia à identificação dos cadáveres, representavam um desafio para os psicólogos que ali prestavam apoio.
Begoña Ahijado, 53 anos, é uma das seis psicólogas permanentes nas ambulâncias do SAMUR (equivalente ao nosso INEM), e, apesar de habituada a cenários difíceis, naquele dia chegou a duvidar de que houvesse algo que pudesse fazer para confortar aquelas pessoas. Foi aos psicólogos que coube o acompanhamento das famílias quando estas eram chamadas a procurar “pistas” dos desaparecidos entre os materiais recolhidos nos locais dos atentados. “Muita gente estava em negação, alimentando alguma esperança de que os seus não tivessem, na verdade, viajado naqueles comboios. E quando encontravam uma carteira, um relógio, um anel de família, colapsavam de vez. Foi muito duro. Sobretudo porque, para alguns, aqueles objetos foram a única confirmação que tiveram da morte dos que amavam. Não havia mais. Só restaram objetos.” Begoña nunca mais recebeu um código 71 no seu walkie-talkie, alertando para um atentado terrorista. Mas sente que estará mais bem preparada agora. “Haverá sempre um antes e um depois daquele dia. Psicologicamente, nem os psicólogos estavam preparados…
Penso que se não acreditássemos que o nosso trabalho ajudaria as pessoas, não resistiríamos.”
ETA ou Al Qaeda?
“Não estamos todos, faltam 200”, era uma das palavras de ordem que mais arrepiava, na manifestação efetuada a 13 de março, que juntou 2 milhões e 300 mil pessoas em Madrid (11 milhões em todo o país), num grito contra o terrorismo. Corriam rumores de que peritos internacionais responsabilizavam a Al Qaeda pelos atentados; em Espanha, insistia-se na ETA. Quando o ainda primeiro-ministro, José Maria Aznar, se juntou ao protesto, ouviu de tudo: “Assassino”, “Mentiroso “. Pouco depois, impôs-se um lamento ensurdecedor: “Quem foi? Quem foi?” Chovia sem parar, naquela Madrid vestida de luto e de protestos. A campanha eleitoral para as eleições de 14 de março estava suspensa, mas ninguém ignorava que a assinatura dos atentados seria determinante, na hora de votar. As sondagens indicavam que 90% dos espanhóis se opunham à guerra no Iraque.
Se os atentados fossem uma retaliação pelo envolvimento de Espanha no conflito, as previsões de vitória dos conservadores deixariam de ter validade.
No domingo, dia de eleições, os jornais publicavam já manchetes inequívocas: “Foi a Al Qaeda.” A provedora dos leitores do El País, Malén Aznánez, descrevia o processo de contrainformação do Governo, e as suas tentativas de incriminar a ETA, a todo o custo.
Terminava com uma frase demolidora: “Este jornal acreditou no presidente [Aznar] por duas vezes. Mas a confiança tem um limite: a realidade.” Na sede dos Repórteres Sem Fronteiras, a que agora preside, recorda esses dias como “os mais intensos” da sua longa carreira. “Na manhã de dia 11, formou-se uma equipa de cem jornalistas para cobrir os atentados. Decidimos fazer uma edição especial, que fechou à 1 da tarde, com a manchete ‘Matança terrorista em Madrid’. Mas quando o jornal já estava a entrar na rotativa, o presidente do Governo ligou ao diretor, assegurandolhe que a ETA era responsável. Não disse que tinha ‘indícios’: afiançou que era uma certeza absoluta e comprovada. Mudámos então o título para ‘Matança da ETA em Madrid’. Dois dias depois, quando a Al Qaeda reivindicou os atentados, entendemos que o jornal deveria pedir desculpa aos seus leitores e contar–lhes que Aznar nos tinha mentido.” Terá essa revelação influenciado as eleições? O certo é que foram as mais participadas da história da democracia espanhola, ditando a chegada de Rodriguez Zapatero ao poder.
Um rapaz com sorte?
Luis Alberto Ahijado não foi votar. “Estava à margem de tudo. Fechei-me em casa e as pessoas que me visitavam diziam: ‘Pareces pequeno.’ Com o choque de tudo aquilo estava sempre encolhido”, recorda, agora, aos 33 anos, num jardim de Madrid. Já superou o trauma psicológico mas esteve dois anos de baixa e as sequelas físicas não permitem que esqueça o que se passou. Desistiu de se recriminar por ter deixado escapar, por segundos, o comboio anterior. “E se aquelas portas não se tivessem fechado na minha cara?” Não vale de nada, o tempo não anda para trás.
Luís não podia perder o seguinte. Teve de furar a multidão para caber na carruagem.
Dos 68 passageiros que ali viajavam só ele escapou com vida. É difícil dizer que estava no local certo, sendo difícil imaginar sítio mais errado para estar. Mas a verdade é que aqueles que viajavam uns centímetros mais ao lado, mais atrás ou mais à frente, funcionaram como escudo humano para Luís Alberto, que saltou por cima dos seus corpos para a plataforma. Desorientado, só queria fugir.
Começou a ouvir gente que lhe dizia “Rapaz, senta-te no chão.” Ele não percebia porquê: “Vi que sangrava, toquei na minha cara e fiquei com pele agarrada à mão…” Uma rapariga ofereceu-lhe o telefone. “Liguei para casa.
Só consegui dizer: ‘Mamã, a bomba, mamã, a bomba.'” Uns metros mais à frente, na estação de Atocha, também Araceli Cambronero, 41 anos, estava desesperada ao telefone, pedindo ao marido: “Despede-te por mim dos nossos filhos!” A então designer gráfica (hoje desempregada), tinha acabado de sair do comboio, em Atocha, e recorda que foi quando soou o aviso sonoro para o fecho das portas que se deu a primeira explosão. “Caímos ao chão, havia muito fumo e o ruído foi muito grande, deixando-nos meio surdos… Quando comecei a tentar sair da plataforma, explodiu a segunda bomba. Voltei a cair ao chão, pisaram-me, fiquei com a cara toda negra. Levantei-me como pude e comecei a correr outra vez. Quando subia nas escadas rolantes, explodiu a terceira. Nesses momentos de pânico, só queres correr e sair. Havia tanta gente que não era eu que andava, era a multidão que carregava comigo.” Andou horas perdida. “O meu marido encontrou-me e levou-me a um centro médico. Disseram que tinha um ataque de pânico e os tímpanos rebentados.
Não perdi a audição mas ouço um zumbido nos ouvidos até hoje.” Também Luís Alberto é atormentado por esse zumbido. “É como quando vamos a uma discoteca com muito barulho e, depois, no silêncio de casa, ouvimos um piiiii… Tenho sempre esse som na minha cabeça. Não posso deixar entrar água nos ouvidos, só tomo banho com tampões. De resto, recuperei a vista, apesar de ter as córneas queimadas e precisar de usar gotas todos os dias. Também perdi sensibilidade em metade da cara, por causa dos estilhaços. Por tudo isto, o 11 de Março é algo que está aí… Estará sempre aí.
Mas não sinto que exista um Luís de antes e um Luís de depois. Tive a sorte de escapar e não me vou lamentar por não poder mergulhar.
Prefiro agarrar nos meus amigos e ir fazer esqui.”
Música para as vítimas
Araceli tem-se esforçado por viver mais desta forma. Mas não foi fácil recuperar o equilíbrio.
“Não queria dormir nem comer, ficava assustada com tudo… perdi 20 quilos. Isso prejudicou-me a nível familiar e profissional.
Divorciei-me, depois despediram-me e a seguir diagnosticaram-me um cancro da mama. A minha vida tem sido difícil, mas o bom que posso tirar disto tudo é que estou aqui a contá-lo.” Com o apoio psicológico da associação de vítimas percebeu que tinha duas opções: Ou ficava naquele buraco negro ou saía. “Decidi sair e, para consegui-lo, era necessário parar de reviver o que se passou. Não se esquece, mas aprende-se a viver com isso. O que mantenho é um sentimento de tristeza por aqueles que partiram. Continuo a sentir culpa por estar viva e eles não. Mas sei que os que morreram não gostariam que nós não aproveitássemos a vida.” No próximo 11 de março, Araceli participará no concerto que a Associação 11M organiza em memória de todas as vítimas. Ali estará igualmente Pilar Manjón, para quem os aniversários “são sempre dias maus”. As forças para seguir em frente, recebe-as da nova família que ganhou no dia em que perdeu o filho todas as outras vítimas, que se uniram na dor.
“Há dias em que estou mais em baixo e chega alguém que me dá um abraço… Aprendi que devemos mostrar, a cada segundo, o quanto gostamos uns dos outros”, diz, enquanto acaricia o relógio que pertencia ao filho, e que há dez anos traz no pulso. “O amanhã é incerto, só o que vivemos hoje importa.”