
O australiano Craig Wright diz ser o criador da moeda digital
Primeiro era um pseudónimo: Satoshi Nakamoto. Depois, a Newsweek descobriu mesmo um sexagenário japonês, de nome Dorian Satoshi Nakamoto, que identificou como sendo o autor da moeda digital. Agora, o empresário australiano e especialista em segurança cibernética, 45 anos, saiu da sombra e afirmou-se, publicamente como sendo o principal elemento do grupo que criou a moeda digital, e que permite avultadas transações eletrónicas.
“Satoshi está morto. Mas isto é só o princípio”, prometeu Craig Wright, no seu próprio blog, adiantando que esse foi o pseudónimo que escolheu, em homenagem ao japonês Tominaga Nakamoto: filósofo, comerciante e advogado do comércio livre do século XVII. E é no seu blog que vai desfiando algumas das chaves criptográficas que permitiram a criação de uma rede e de um sistema de pagamentos usando apenas a internet, sem qualquer necessidade de intermediação financeira por bancos comerciais ou outro tipo de entidades de regulação, escapando assim a qualquer controle das autoridades. Não por acaso, este sistema tem sido utilizado por redes de branqueamento de capitais ou de negócios ilícitos.
Provas insatisfatórias
Se Satoshi Nakamoto é, na verdade, o pseudónimo de Craig Wright, estará desfeito um mistério que data da primeira vez em que a moeda foi registada (2008) e a rede criada (2009). Craig diz ainda que, apesar de ter sido o elemento principal, não o fez sozinho, mas sempre com a colaboração de um grupo de pessoas.
A polémica instalou-se de novo quando os críticos mais céticos se mostraram insatisfeitos com as provas apresentadas e exigem dados mais técnicos e elementos mais precisos sobre a criação da bitcoin. Os investigadores, – alguns dos quais chegaram à identidade de quem registou a patente para os ouvir dizer que nada tiveram a ver com a sua criação -, querem mesmo que lhes seja dado a conhecer a criptografia da primeira bitcoin, a original. Não acreditam que, sendo o cientista de computação o seu autor, não a tenha guardado para si.
Craig terá dado, contudo, provas de que teve acesso á chave criptográfica que esteve na base da primeira transação da moeda, em 2009, feita por Hal Finney, entretanto falecido.
A reinvindicação de paternidade de Craig é suportada também por um dos diretores ligados à origem da Fundação Bitcoin, que assegura terem sido apresentadas, em Londres, os principais dados relevantes que estiveram na origem da sua criação, tanto criptográficos, como técnicos ou sociais. “É minha firme convicção de que Craig Wright satisfaz todas as três categorias”, disse Jon Matonis, um dos diretores da Fundação Bitcoin, citado por vários órgãos de comunicação social. Também o chefe do departamento científico da mesma Fundação foi taxativo: “Acredito que Craig foi quem inventou a bitcoin”.
Ver e testar para crer
Mas muitas dúvidas persistem, com alguns especialistas a afirmar que, talvez, nunca seja possível ter a certeza absoluta de quem criou a moeda digital que se tornou popular entre grupos criminosos. Também a comunidade tecnológica tem avançado nos seus sites algumas reservas acerca da veracidade das afirmações de Craig, queixando-se de que as suas versões não batem certo.
Um professor associado que leciona ciência da computação numa universidade australiana, e que já trabalhou com Craig no passado, se mostrou igualmente cético. “Espero até ver realmente uma prova absoluta de que tal é verdade”, declarou o professor David Glance ao jornal britânico Guardian.
Está visto que enquanto o australiano não cumprir as promessas que tem feito, de apresentar em breve informação suficiente para que outros entendidos em sistemas encriptados possam verificar e comprovar a veracidade desta história, a desconfiança persistirá. E continuam a admitir que Satashi Nakamoto é uma figura de carne e osso, encarando a hipótese de Craig ter tido acesso aos seus dados.
Craig vigiado pelo fisco
Uma das razões que parece ter estado na base do empresário Craig Wright ter vindo agora assumir a paternidade da bitcoin foi o facto de ter a polícia australiana a investigá-lo.
Recentemente, Wright era o diretor de mais de uma dezena de empresas, algumas delas envolvidas em transações com a moeda digital. Mas, de acordo com algumas publicações internacionais, o empresário ter-se-á desfeito de quase todas há cerca de um ano. No final do ano passado, a revista Wired chegou mesmo a adiantar o nome de Craig, depois de ter recebido documentação que o ligava á criação da bitcoin.
Não muito depois, as autoridades australianas faziam buscas em casa do empresário, alegando investigações relacionadas com questões fiscais. Craig é apontado como tendo reunido alguns milhares de bitcoins que, se convertidas em dinheiro, se traduzirão em muitos milhões de euros.
“Não tomei esta decisão de ânimo leve”, terá afirmado Craig Wright, que justificou a divulgação da sua identidade com a paixão pelo seu trabalho e com a necessidade de “dissipar mitos negativos” e medos que se criaram acerca da moeda digital. “Não posso permitir que a desinformação que se espalhou tenha impacto negativo no futuro da bitcoin.” E, já agora, no seu próprio futuro.