Depois de quatro horas de Musk, em que Alex Gibney mostrou como um homem pode acumular tecnologia, dinheiro, infraestruturas, influência política e uma apreciável vocação messiânica sem que ninguém saiba exatamente onde acaba o empresário e começa o poder público, pensei que seria difícil voltar a sair de uma sala de Veneza com aquele desconforto físico de quem gostaria de desaprender o que acabou de saber. Enganei-me. NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor, dura apenas 80 minutos. Chegam perfeitamente. O problema é que depois ficam dentro de nós bastante mais tempo. O horror começa logo no título. NAZA soa quase inofensivo, podia ser o nome de uma aplicação para reservar restaurantes, de uma start-up tecnológica ou de qualquer engenhoca destinada a facilitar-nos a vida mediante uma pequena subscrição mensal. Não é. Trata-se de um acrónimo militar usado pelos serviços de informações israelitas para designar aquilo a que chamamos, com outra dessas magníficas expressões inventadas para que a realidade não nos suje demasiado as mãos, os “danos colaterais”: o número de civis que se prevê poderem morrer num ataque. Repare-se no requinte. Já nem estamos a falar de descobrir depois quantos inocentes morreram. Estamos a falar de calcular antes. A morte entrou definitivamente na era do algoritmo.
Quando matar se transforma numa decisão do algoritmo
Abraham e Szor, dois dos quatro realizadores de No Other Land, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2025, não fizeram um documentário de guerra convencional. Não atravessam ruínas com a câmara ao ombro à procura da imagem mais insuportável ou chocante, não empilham cadáveres cinematograficamente, não põem uma banda sonora arrepiante sobre imagens de crianças feridas ou mortas para explicar ao espectador a hora exata a que deve emocionar-se. Fazem uma coisa bastante diferente e não menos perturbadora: abrem a máquina de guerra e mostram-nos como funciona. Através do testemunho de 24 militares, oficiais e elementos dos serviços de informações israelitas — com rostos e vozes digitalmente modificados para proteger as identidades —, o filme reconstrói os sistemas de vigilância, seleção de alvos e autorização de ataques utilizados em Gaza. Surgem sistemas de Inteligência Artificial para produzir ou identificar potenciais alvos, telemóveis vigiados, conversas escutadas, movimentos acompanhados à distância, famílias localizadas, seres humanos transformados em sinais que aparecem num ecrã. A tecnologia que nos prometia carros sem condutor, casas inteligentes e frigoríficos capazes de perceber quando falta leite também aprendeu, pelos vistos, a ajudar a decidir quem pode morrer. E talvez seja isso que mais perturba em NAZA: a guerra deixou de precisar de lama nas botas. O soldado pode estar a dezenas de quilómetros. O agente dos serviços secretos também. Pode estar sentado diante de vários monitores, numa sala climatizada, a observar um ponto que se desloca num mapa, intercetar um telefone, escutar uma conversa, seguir uma pessoa até casa e ouvir aquilo que se passa lá dentro. Durante a conferência de imprensa foi referido um dos detalhes mais aterradores do filme: quem faz esta vigilância pode ouvir uma televisão ligada, vozes, movimentos, uma criança. E continuar o procedimento. Durante séculos, matar em guerra implicava pelo menos uma proximidade física com o outro. Era preciso vê-lo, aproximar-se, apontar-lhe uma arma. Depois chegaram os aviões, os mísseis, os drones. Agora acrescentámos algoritmos, bases de dados, escutas eletrónicas, Inteligência Artificial e uma extraordinária capacidade humana para transformar responsabilidade moral numa cadeia de tarefas técnicas distribuídas por vários departamentos. Um identifica. Outro valida. Outro autoriza. Outro programa. Outro carrega. No fim morreu uma família, mas aparentemente ninguém a matou sozinho. A burocracia sempre teve este extraordinário talento.
A grande decisão cinematográfica de NAZA é quase uma provocação: durante boa parte do filme não vemos Gaza. Vemos o brilho noturno dos arranha-céus de Telavive. Telhados durante a noite, janelas iluminadas, prédios, apartamentos, ruas, uma cidade que continua a jantar, ver televisão, dormir, acordar e trabalhar enquanto, a poucas dezenas de quilómetros — cerca de 60 ao longo da costa —, outra realidade é transformada em alvo. Gaza existe sobretudo através das palavras de quem participou no sistema que a observa e bombardeia. A escolha lembra inevitavelmente A Zona de Interesse, de Jonathan Glazer — não por acaso produtor executivo deste documentário —, onde Auschwitz permanecia para lá de um muro enquanto uma família cultivava flores, recebia amigos e organizava a vida doméstica. Aqui o muro não é de tijolo. É tecnológico. Entre Telavive e Gaza existe um ecrã. E um ecrã é uma invenção moral extraordinária porque permite ver tudo mantendo tudo à distância. A realizadora Rachel Szor explicou em Veneza que grande parte do que o filme revela já tinha sido publicada nas investigações do +972 Magazine, Local Call e do jornal britânico The Guardian, mas ler uma investigação e ouvir as pessoas que conceberam ou operaram aqueles sistemas são coisas completamente diferentes. Yuval Abraham foi ainda mais preciso: escutar quem participou torna aquilo mais difícil de negar. Essa é a força devastadora de NAZA. Não ouvimos apenas quem acusa Israel. Ouvimos israelitas que estiveram dentro da própria engrenagem. Alguns parecem perturbados pelo que fizeram, outros falam com uma frieza profissional assustadora e noutros deteta-se até um certo orgulho na eficácia técnica daquilo em que participaram. Abraham e Szor recusam, contudo, a tentação de transformar cada depoimento numa pequena história de culpa, arrependimento e redenção. Não lhes interessa fabricar 24 consciências atormentadas para o espectador poder sair da sala reconfortado. Interessa-lhes o sistema: as ordens, os procedimentos, a linguagem, as hierarquias, os critérios, as autorizações, a tecnologia. Ou seja, precisamente aquilo que permite que uma atrocidade deixe de parecer uma atrocidade e passe simplesmente a parecer trabalho.
A banalidade do mal recebeu uma actualização de software
Israel sustenta que não ataca deliberadamente civis, afirma que procura reduzir vítimas não-combatentes e acusa o Hamas de operar no interior de zonas densamente povoadas, utilizando a população como escudo. É uma posição que qualquer relato jornalístico sério deste conflito deve mencionar. NAZA entra diretamente nesse território e confronta-o a partir de dentro, através dos testemunhos de pessoas que trabalharam nos mecanismos militares e de informações e que descrevem níveis de vítimas civis previamente calculados, ataques autorizados sabendo que famílias poderiam morrer e sistemas capazes de acompanhar indivíduos até às próprias casas. O filme não diz que a tecnologia mata sozinha. Os algoritmos não têm consciência, ideologia, ódio, medo nem desejo de vingança. Fazem aquilo para que foram construídos, alimentados e utilizados. Alguém define os parâmetros. Alguém aceita a margem de erro. Alguém decide quanto vale uma vida civil. É precisamente aqui que a Inteligência Artificial aplicada à guerra se transforma num dos grandes problemas morais do nosso tempo. Quando se consegue seguir milhares de pessoas simultaneamente — todos estão potencialmente sob vigilância, inclusive os agressores —, cruzar dados, analisar comunicações, produzir listas de potenciais alvos e acelerar decisões que anteriormente exigiam tempo e intervenção humana, a tecnologia não se limita a tornar a guerra mais eficaz. Torna possível aumentar brutalmente a sua escala. E velocidade, observação em tempo real e escala formam uma combinação particularmente desagradável quando aquilo que circula pela máquina são seres humanos.
Abraham disse, na conferência de imprensa, que a investigação demorou quase três anos e acusou grande parte dos media israelitas de ter ignorado aquilo que acontecia aos civis palestinianos ou de ter reproduzido as justificações oficiais. Explicou também por que razão considera importante que sejam israelitas a fazer este filme: precisamente porque possuem um acesso que os jornalistas palestinianos não têm e, por isso, uma responsabilidade acrescida em utilizá-lo. É uma ideia elementar que ultimamente até parece novidade: ter acesso a um sistema talvez implique a obrigação de contar o que esse sistema faz. Especialmente quando mata. O filme termina quebrando a regra que impôs durante quase toda a duração e mostra finalmente imagens de Gaza filmadas em novembro de 2023. Até então, Gaza tinha sido um ruído, uma voz, um nome num ecrã, uma estatística, um alvo, uma ausência. De repente aparecem pessoas, corpos, destruição, realidade. Como se o filme dissesse simplesmente: isto é aquilo que estava do outro lado do algoritmo.
Depois de Musk, NAZA é talvez o momento mais perturbador desta Competição de Veneza 83. Os dois filmes são completamente diferentes, mas tocam no mesmo nervo exposto do século XXI: entregámos uma parte gigantesca da nossa existência a sistemas tecnológicos que pouquíssimas pessoas compreendem verdadeiramente e ainda menos conseguem controlar democraticamente. Num caso falamos de satélites, redes sociais, inteligência artificial, carros e foguetões concentrados nas mãos de um multimilionário. No outro falamos de vigilância, inteligência artificial, bases de dados e sistemas de armamento capazes de ajudar a escolher quem vive e quem morre. Durante muito tempo imaginámos o futuro tecnológico como um lugar onde as máquinas fariam o trabalho desagradável por nós. Parece que tínhamos razão. Só nunca perguntámos suficientemente qual seria o trabalho. Talvez a figura mais assustadora da guerra contemporânea já não seja um soldado coberto de lama, sangue e medo no meio de um campo de batalha. Talvez seja um homem perfeitamente limpo e de t-shirt vestida, sentado numa cadeira confortável diante de um computador no seu apartamento, a ouvir através de uns auscultadores uma criança brincar dentro de uma casa situada a dezenas de quilómetros. Depois olha para o ecrã, confirma as coordenadas, carrega no botão e continua a trabalhar enquanto trinca uma barra de cereais.