Logo no segundo dia oficial da 83.ª Mostra de Veneza apareceu uma excelente razão para acordar cedo e entrar na Sala Darsena ainda com o café a discutir com o organismo. Chama-se Wild Horse Nine, é o novo filme de Martin McDonagh, dura 118 minutos, passa-se em 1973, leva dois agentes da CIA até à Ilha de Páscoa e consegue a proeza de nos fazer rir de homens cujo currículo ajudou a tornar o mundo bastante menos engraçado e incomparavelmente mais perigoso. E não, isto não é teoria da conspiração.
Chris (John Malkovich) e Lee (Sam Rockwell) são dois agentes veteranos enviados de Santiago do Chile para Rapa Nui pouco antes do golpe que derrubaria Salvador Allende. MJ (Steve Buscemi) entrega-lhes uma missão aparentemente simples. O problema chama-se Chris e decidiu praticar a atividade menos recomendável numa agência secreta: falar. Fala com desconhecidos, fala com duas jovens simpatizantes de Allende, fala da CIA, de antigas operações, de coisas que deveriam permanecer enterradas na memória ou fechadas num arquivo sem janelas. Lee passa a missão a apagar incêndios verbais enquanto percebe que o colega perdeu o filtro, a prudência e, sobretudo, a vontade de continuar a colaborar com o silêncio institucional. De repente, a grande ameaça à segurança nacional é um agente secreto desbocado que resolveu contar os segredos que passou uma vida inteira a guardar.
McDonagh domina como poucos o duelo verbal entre homens que se conhecem suficientemente bem para saber onde magoar. Afinou-o em Em Bruges e em Os Espíritos de Inisherin; agora põe Malkovich e Rockwell num dos lugares mais remotos do planeta e deixa-os discutir décadas de amizade, cumplicidade, mentiras profissionais e lealdades que já deviam ter passado ao arquivo morto. Chris e Lee discutem como um velho casal que esgotou os argumentos há anos e continua a reutilizá-los porque já sabe exatamente quais são os que doem mais. Rockwell faz de Lee um homem ainda agarrado à disciplina da instituição, embora comece a suspeitar de que a instituição talvez não mereça tanta disciplina. Malkovich transforma Chris num tipo que já não distingue confidência de confissão. Fala baixo, saboreia as pausas e larga informação capaz de provocar uma crise diplomática com a serenidade de quem pergunta onde fica a casa de banho. McDonagh dá-lhe frases excelentes; Malkovich devolve-as com veneno de libertação lenta.
A CIA como comédia de costumes
Transformar Wild Horse Nine numa aula de História com moai ao fundo teria sido a solução mais fácil e seguramente a mais maçadora. McDonagh prefere uma comédia negra, destrambelhada e perigosamente divertida. Estamos em setembro de 1973. Allende ainda governa, as Forças Armadas conspiram e Washington tem as mãos profundamente enterradas na política chilena. A documentação norte-americana entretanto desclassificada mostrou o financiamento da oposição e as operações de desestabilização. McDonagh não precisa, portanto, de inventar um grande dossier conspirativo. O material já vinha fornecido pela História. O que lhe interessa é outra coisa: perceber o que acontece a um homem que passou décadas a obedecer, a participar em operações sujas e a transformar atrocidades em trabalho administrativo e que, perto do fim da linha, resolve abrir a boca. Chris consulta retrospetivamente o currículo da própria vida e descobre um relatório que preferia não ter de entregar a São Pedro. A política entra no filme pela amizade, pelo medo, pelo cinismo, pela obediência e pela formidável competência burocrática de transformar decisões brutais em procedimentos perfeitamente aceitáveis praticados, claro, em nome da liberdade. O poder raramente bate à porta dizendo que veio estragar uma democracia. Aparece de pasta na mão, credencial ao peito e uma explicação tecnicamente irrepreensível.
Numa das melhores conversas entre os protagonistas, Chris fala de Hank Williams e daquela melancolia country de esperar pela morte como quem aguarda o último autocarro. Durante anos, participou num sistema que ajudava a decidir quando chegava o autocarro dos outros; agora começa a ouvir o motor do seu.
Os moai assistem há séculos a guerras, religiões, colonizações, administrações e turistas. Desta vez têm à frente dois agentes americanos que durante décadas acreditaram que o mundo podia caber numa operação clandestina. Ben Davis, diretor de fotografia de Eternos, filma Rapa Nui sem transformar a ilha num postal turístico para pendurar no frigorífico. Carter Burwell, compositor de Fargo, acompanha a história como se estivéssemos perante um western político e Chris e Lee fossem dois pistoleiros reformados que perceberam tarde demais que o território que ajudaram a conquistar nunca lhes pertenceu.
Um filme que definitivamente não está Out of Time
O calendário também se encarrega de estragar qualquer conforto histórico. McDonagh contou em Veneza que escreveu o argumento sem pensar especificamente na política internacional de 2026, embora reconheça agora algumas coincidências pouco tranquilizadoras. Operações secretas, ingerência externa, segurança nacional e interesses estratégicos continuam demasiado úteis para ficarem confinados a arquivos desclassificados. Mudam presidentes, inimigos, mapas e siglas. A convicção de que uma potência sabe escolher melhor o futuro dos outros do que os próprios interessados revela uma extraordinária capacidade de sobrevivência.
Steve Buscemi, inesquecível em Cães Danados, dá a MJ a cordialidade burocrática de um chefe que provavelmente sorriria enquanto manda destruir o ficheiro e o funcionário. As jovens Mariana Di Girolamo, (Ema), e Ailín Salas dão espessura às duas estudantes revolucionárias sem servirem apenas de decoração ideológica. Tom Waits aparece num pequeno papel, com Monument Valley ao fundo, e durante alguns minutos, parece que o fantasma inteiro do western americano decidiu passar pelo filme.
O argumento avança com prazer e crueldade. Uma frase aparentemente casual regressa mais tarde armada. Uma piada muda de sentido. Uma conversa lateral ganha consequências. McDonagh conhece bem esse mecanismo: deixar o espectador rir primeiro e entregar-lhe a fatura alguns minutos depois.
Os Rolling Stones fecham a conta. O genérico final arranca ao som de Out of Time. Chris está, de facto, fora de tempo. Lee percebe que talvez acabe por acompanhá-lo. E uma determinada conceção do poder americano — a que tratava governos estrangeiros como peças disponíveis num tabuleiro — consegue o prodígio de parecer simultaneamente datada e irritantemente contemporânea.
Wild Horse Nine oferece diálogos como quem embrulha dinamite em papel de bombom. Primeiro vem o açúcar. Depois rebenta tudo. McDonagh também recusa a solenidade que transforma tanto cinema político num castigo académico. Aqui ri-se muito. Esse é precisamente o problema. Alguns segundos depois percebemos exatamente do que estivemos a rir. O filme começa com dois agentes da CIA numa missão na Ilha de Páscoa e acaba numa autópsia moral realizada enquanto o cadáver ainda fala, bebe e conta anedotas. Rockwell segura a disciplina. Malkovich incendeia o arquivo. McDonagh desmonta entre os dois amizade, lealdade, culpa e razão de Estado sem sacrificar inteligência nem diversão. No fim, os moai continuam exatamente no mesmo sítio. A CIA é que sai bastante pior na fotografia.
John Malkovich, o homem que entra numa sala e a sala fica logo em perigo
É um ator que possui uma rara qualidade: parece suspeito antes mesmo de dizer a primeira palavra ou abrir a boca. Aos 72 anos, conserva aquela voz arrastada, o olhar de lado e uma maneira de ocupar o plano que transforma silêncio em ameaça. Nunca precisou de se excitar para meter medo a ninguém. Normalmente basta-lhe parecer ou dar o ar de ligeiramente aborrecido. Desde Ligações Perigosas, onde o seu Valmont fazia da sedução uma espécie de operação clandestina, Malkovich foi construindo uma personagem cinematográfica muito própria: o homem educado que pode estar a pensar em matar alguém sem alterar a etiqueta à mesa. Em Na Linha de Fogo deu requinte e inteligência a um assassino; Queres Ser John Malkovich? teve a insolência de transformar-se no próprio ator em personagem, labirinto mental e piada metafísica; experiência da qual qualquer intérprete menos singular poderia ter saído reduzido a caricatura. Malkovich saiu ainda mais Malkovich.
Passou por Spielberg, Clint Eastwood, Bernardo Bertolucci, Woody Allen, os irmãos Coen, Raoul Ruiz e até Manoel de Oliveira, em O Convento, colecionando aristocratas, psicopatas, intelectuais, vilões e excêntricos sem ficar verdadeiramente preso a nenhum deles. Mesmo quando interpreta um homem aparentemente normal, o espectador demora pouco a desconfiar do adjetivo.
Martin McDonagh percebe em Wild Horse Nine que uma presença destas não deve ser domesticada. Dá-lhe Chris, um velho agente da CIA cuja consciência chegou atrasada e aparentemente sem marcação no céu, entrega-lhe alguns dos melhores diálogos do filme e sai-lhe da frente. Malkovich responde com uma interpretação deliciosamente económica. Conta segredos de Estado como quem comenta a meteorologia, observa os próprios pecados sem pedir absolvição e consegue transformar uma pausa numa confissão. Um revirar de olhos substitui uma página de diálogo; um sorriso tanto pode anunciar uma piada como um desastre diplomático. O prazer está em nunca sabermos exatamente qual dos dois. Quatro décadas depois, John Malkovich continua a entrar num filme com a mesma vantagem sobre o espectador: parece saber alguma coisa que nós ignoramos. Em Wild Horse Nine, sabe provavelmente várias. O problema é que decidiu finalmente contá-las.