.
No CCB, Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo não começou quando Wagner Moura entrou em cena: começou no instante em que percebemos que, desta vez, Ibsen não vinha pedir homenagem, vinha fazer um ajuste de contas. A criação de Christiane Jatahy, Lucas Paraizo e Wagner Moura, a partir de Ibsen, não é apenas teatro. Não é apenas cinema em palco. Não é apenas julgamento, assembleia, performance, reality show democrático, reportagem contaminada ou tribunal popular. É tudo isso ao mesmo tempo. É uma máquina cénica de precisão rara, dessas que começam por nos seduzir com inteligência formal e acabam por nos encostar à parede com uma pergunta muito simples: quando a verdade nos prejudica, continuamos a defendê-la?
Christiane Jatahy assina uma encenação de uma lucidez fulgurante. E digo encenação porque não se trata apenas de pôr atores no sítio certo, fazer entrar imagens, câmaras, ecrãs e microfones, e deixar a coisa parecer moderna. Isso, hoje, faz-se em qualquer festival com cabos suficientes e orçamento razoável. O que Jatahy faz é outra coisa: organiza o caos contemporâneo — a televisão, o cinema, a videoconferência, a reportagem, as filmagens clandestinas, o testemunho, a acusação, o contraditório, a exposição pública, a manipulação emocional, a dúvida plantada ao milímetro — e transforma tudo numa dramaturgia de alta voltagem. O palco do CCB deixa de ser palco e passa a ser tribunal, estúdio, sala de montagem, confessionário, redação, plateia de programa televisivo e campo de batalha moral. E, milagre dos milagres, nunca se perde a peça. Pelo contrário: quanto mais meios entram, mais o teatro se afirma, e maiores se tornam a emoção e o suspense.
A encenação como máquina de verdade
O dispositivo é brilhante porque parece simples. Thomas Stockmann, médico de uma comunidade dependente de uma estância balnear, descobriu que as águas estão contaminadas. Denunciou. Foi esmagado. Perdeu emprego, reputação, tranquilidade familiar, lugar social. Agora regressa para ser julgado. É ou não é inimigo do povo? A pergunta vem de Ibsen, mas a maquinaria é do nosso tempo. A verdade já não entra sozinha pela porta principal, com ar solene e certidão científica na mão. Entra escoltada por vídeos, contra-vídeos, suspeitas, testemunhas, interesses, ressentimentos, manipulações, ecrãs, ruído e aquela forma contemporânea de veneno democrático que consiste em perguntar: “Sim, talvez seja verdade, mas quem é esta pessoa para nos dizer a verdade?”
É aqui que o texto — ou o argumento, porque a coisa tem mesmo uma pulsação cinematográfica — é magnífico. A peça não se limita a defender Stockmann como símbolo da ciência contra uma cidade de energúmenos, idiotas e ignorantes. Isso seria fácil, confortável e, convenhamos, um bocadinho preguiçoso. Jatahy, Paraizo e Moura percebem que o teatro só ganha grandeza quando complica aquilo que julgávamos resolvido. Stockmann tem razão, mas não é um boneco imaculado. É obstinado, vaidoso, excessivo, por vezes incapaz de perceber que a verdade, mesmo quando salva, também pode destruir. Do outro lado, Peter Stockmann, o irmão, autarca, político, acusador e rosto institucional da sobrevivência económica, não é apenas o vilão de serviço com bigode imaginário e carteira cheia de interesses. É a voz, perigosamente reconhecível, da prudência, do orçamento, do “não podemos fechar tudo”, do “há pessoas que vivem disto”, do “convém não alarmar a população”. Quantas vezes já ouvimos isto? Quantas vezes não dissemos isto?
O suspense da peça nasce precisamente dessa inteligência. Não é o suspense de saber quem matou quem, mas de perceber quem consegue matar melhor a verdade. E a verdade, aqui, não morre assassinada de uma só vez. Vai sendo asfixiada por perguntas razoáveis, insinuações, desvios, sentimentalismos familiares, dados contraditórios, suspeitas sobre a personalidade do denunciante e supostas preocupações com a comunidade. É assim que a pós-verdade trabalha: não precisa de provar o contrário; basta cansar-nos até deixarmos de saber onde começou a prova. É a tal questão das narrativas: constrói-se uma, insiste-se nela e espera-se que o ruído faça o resto.
O júri somos nós, azar o nosso
A grande audácia de Um Julgamento está em chamar o público para dentro da engrenagem. À entrada, alguns espectadores disponibilizam-se para receber pulseiras; depois, alguns são sorteados para integrar o júri, na sessão a que assisti, onze. No palco, Cléo Diára funciona em Lisboa como uma espécie de juíza sem sentença, coordenadora dos jurados, presença firme e serena, ponte entre a plateia e aquele tribunal sem toga, sem martelo, sem a solenidade bafienta dos tribunais reais, mas com uma responsabilidade simbólica muito mais incómoda e incisiva. Ela não decide. Mas organiza a decisão. E isso, naquele dispositivo, é essencial. Cléo Diára dá corpo português ao mecanismo internacional da peça, como se Lisboa entrasse em cena através dela. E entra muito bem, pese embora as referências propositadas à brilhante performance da seleção de Cabo Verde e de Vozinha, porque Lisboa é também uma cidade negra e cheia de “sodade”.
Mas regressemos ao espectáculo: os jurados fazem perguntas, escutam respostas, observam o combate entre defesa e acusação, e no fim votam. Na sessão de sábado a que assisti, o resultado foi claramente favorável a Thomas Stockmann: nove votos contra a sua condenação como inimigo do povo e dois a favor. Ou seja, pelo menos naquela noite, naquele CCB cheio, o público português (e muitos brasileiros também) mostrou-se mais consciente do que às vezes gostamos de admitir. A sala pareceu perceber que o verdadeiro perigo não está em quem denuncia a contaminação, mas em quem transforma a contaminação num incómodo administrativo, num problema de comunicação, numa ameaça à economia local ou numa inconveniência a varrer para debaixo do tapete. A verdade ganhou. Não por unanimidade — felizmente, porque a unanimidade, no teatro como na política e na sociedade, cheira sempre a detergente moral —, mas por maioria expressiva. E essa maioria, ao contrário de tantas maiorias cansadas do nosso tempo, pareceu desta vez estar do lado certo da água.
O mais fascinante é que a peça faz com que todos votemos, mesmo sem votar. Quem fica sentado na plateia também decide. Decide em silêncio. Decide com desconforto. Decide contra si próprio, às vezes. Porque a pergunta é cruel: defenderíamos Stockmann se a nossa casa dependesse das termas? Se o nosso restaurante vivesse dos turistas? Se o salário dos nossos filhos viesse daquela estância? Se a câmara dissesse que fechar tudo seria um desastre? Se os jornais começassem a sugerir que o médico é instável, ressentido, mau pai, mau irmão, mau cidadão? A ética é lindíssima quando não nos toca na conta bancária nem na mesa onde pomos comida para os filhos. Quando chega a factura, começa a dramaturgia.
Wagner Moura, animal de palco
E depois há Wagner Moura. Já se sabia que era uma das grandes figuras do cinema brasileiro e não tardará muito, se a justiça artística ainda funcionar, uma figura cada vez mais mundial. Mas vê-lo em palco é perceber outra coisa: Moura não regressou ao teatro, depois de quase 17 anos, como estrela de cinema que vem dar brilho a uma produção de linguagem híbrida. Regressou como actor de teatro. Com fome de palco. Com corpo inteiro. Com respiração, escuta, fragilidade e uma energia que por vezes chega a comover.
O seu Thomas Stockmann não é apenas um homem indignado. É um homem atravessado por uma ferida, carregado de raiva pela injustiça. Há nele uma convicção quase física, uma incapacidade de negociar com a mentira, mas também uma solidão tremenda. Moura consegue fazer-nos ver, no mesmo gesto, o heroísmo e a cegueira, a coragem e o narcisismo, a lucidez e o desespero. Quando responde aos jurados, quando improvisa dentro da arquitetura da peça, quando se deixa encurralar pela acusação, quando explode, quando vacila, quando volta à frase essencial — “a verdade acabou” —, percebemos que não estamos diante de uma celebridade a representar Ibsen. Estamos diante de um actor puro, que se confunde com a sua própria urgência, em estado de combate.
Há momentos em que Wagner Moura parece segurar a sala pelo colarinho. Noutros, baixa a guarda e deixa entrar uma espécie de cansaço moral que é quase mais impressionante do que a sua fúria. Porque Stockmann não está apenas a lutar para ser absolvido. Está a lutar para não enlouquecer num mundo onde os factos já não bastam. E essa luta, em Moura, tem uma verdade rara. Ele faz da palavra uma arma, mas também um peso. Não dispara frases: carrega-as. E quando o ator carrega bem uma frase, o público sente-lhe o chumbo.
Ao seu lado, Danilo Grangheia e Julia Bernat são fundamentais. Grangheia dá a Peter Stockmann uma inteligência fria, uma moderação venenosa, aquela compostura dos homens que nunca parecem sujar as mãos porque mandam outros mexer na lama. É excelente precisamente porque não faz do acusador um monstro. Faz pior: torna-o plausível. E os monstros plausíveis são sempre os mais perigosos. Julia Bernat, como Petra, traz outra energia, mais afetiva, mais ferida, mais ligada ao futuro. A defesa de Thomas passa por ela sua filha mais velha, mas também pela ideia de uma geração ainda jovem, que herdou a catástrofe e continua a ter de pedir autorização para se indignar. Entre os atores em palco, os atores filmados, os técnicos visíveis, as câmaras, os corpos que circulam e constroem a própria peça diante de nós, o espetáculo ganha uma dimensão coral que impede o duelo de se fechar num simples confronto familiar.
Cinema, televisão e o reality show da democracia
A utilização dos meios audiovisuais é um dos grandes triunfos da encenação. Christiane Jatahy trabalha a fricção entre teatro e cinema sem cair na tentação de transformar o palco num ecrã grande. As imagens não substituem a presença: contaminam-na. Há filmagens ao vivo, cenas gravadas, testemunhos, aparições à distância, videoconferências, sinais de reportagem, momentos que parecem roubados a uma investigação jornalística e outros que lembram a encenação histérica dos reality shows, onde tudo é verdade porque está a ser filmado e tudo é mentira porque está a ser montado.
É nesse jogo que a peça encontra uma das suas maiores forças. Vivemos convencidos de que a imagem prova alguma coisa. Depois descobrimos que a imagem também mente, ou melhor, também pode ser organizada para mentir com ar de evidência. Uma câmara escondida, uma gravação editada, parecem revelar o real, mas revelam quase sempre apenas um recorte. Uma videoconferência aproxima, mas também afasta. Um testemunho emociona, mas pode desviar. Uma reportagem esclarece, mas também constrói narrativa. Um Julgamento percebe isto tudo e usa-o de forma exemplar. Não há tecnologia decorativa. Cada ecrã serve a dúvida. Cada câmara aumenta a pressão. Cada imagem pergunta se ainda sabemos distinguir prova de espetáculo.
E é por isso que a peça é tão contemporânea sem precisar de gritar “atualidade” de cinco em cinco minutos. A nossa democracia vive cada vez mais em modo tribunal televisivo. Toda a gente acusa, defende, comenta, absolve, cancela, arquiva e reabre processos nas redes sociais antes mesmo de saber a diferença entre facto e versão. Somos todos jurados de bancada, especialistas em tudo, indignados em permanência, céticos em relação às instituições e tremendamente crédulos perante qualquer vídeo que confirme a nossa zanga. Jatahy percebe que o teatro pode ser talvez o último lugar onde ainda somos obrigados a escutar antes de condenar. No teatro não há scroll. Não há botão para saltar a fala do adversário. Não há algoritmo a proteger-nos da complexidade. Que maçada, portanto. Que bênção.
Das termas de Ibsen às águas das Lajes
E depois há Portugal. Porque uma peça grande nunca fica fechada só no palco. Sai connosco, mete-se no carro, no táxi, no autocarro, senta-se à mesa, abre o jornal no dia seguinte e começa a fazer ligações perigosas. Em Um Julgamento, tudo nasce da contaminação das águas de uma estância balnear. Uma comunidade depende economicamente daquele lugar. Fechar o balneário significa proteger a saúde pública, mas também ferir a sobrevivência das populações. Não fechar significa proteger a economia imediata, mas talvez envenenar lentamente a vida. Ibsen escreveu isto há quase século e meio. Portugal acabou de lhe oferecer uma atualização açoriana.
A Base das Lajes, na ilha Terceira, parece entrar neste debate como se tivesse sido convocada por Stockmann. Terrenos e aquíferos contaminados, relatórios, hidrocarbonetos, metais pesados, suspeitas de impacto na saúde, prudência científica, interesses militares, diplomacia, silêncio, obras de remediação, responsabilidades empurradas, autoridades que discordam, estudos que avançam e recuam, populações que vivem ao lado do problema. Nos materiais agora vindos a público, há referências à suspensão de trabalhos de remediação entre 2020 e 2022 por parte dos EUA, à posição norte-americana de que a contaminação não representaria impacto substancial para a saúde humana e ao desacordo de entidades portuguesas como o LNEC e a ERSARA, que apontam riscos e falta de transparência. Há ainda a tese de Félix Rodrigues, na Universidade de Coimbra, que detetou chumbo e cádmio em esqueletos de habitantes da Praia da Vitória, mantendo a prudência científica necessária: não há causalidade fechada, mas há sinais que exigem investigação, prevenção e responsabilidade.
Ora aqui está Ibsen a bater à porta dos Açores com as botas sujas de combustível. Quem é, então, o inimigo do povo na Base das Lajes? O investigador que levanta a hipótese? O jornalista que insiste no assunto? A população que exige saber se viveu décadas sobre uma contaminação? Os técnicos que pedem precaução? Ou o inimigo é antes essa extraordinária máquina de adiamento que transforma tudo em relatório reservado, reunião bilateral, fórmula técnica, ausência de resposta, diplomacia vagarosa e frase tranquilizadora? A grande perversidade destes casos está precisamente aí: nunca aparece um vilão a rir-se no alto de uma torre. Aparece um sistema. E os sistemas são muito bons a parecer razoáveis enquanto deixam o tempo fazer o trabalho sujo.
Na peça, Peter Stockmann pergunta quanto custa fechar a estância. Nas Lajes, a pergunta parece ser outra variação da mesma música: quanto custa reconhecer responsabilidades? Quanto custa limpar? Quanto custa indemnizar? Quanto custa admitir que uma relação estratégica, militar e diplomática pode ter deixado marcas no solo, na água e talvez nos corpos? E quanto custa, sobretudo, dizer a uma população que a sua inquietação não é histeria, não é regionalismo, não é aproveitamento político, não é alarmismo, mas uma pergunta legítima? A verdade pode ser cara. Mas a mentira a prestações costuma sair muito mais dispendiosa.
A absolvição que nos acusa
Por isso, o resultado da sessão de sábado no CCB ganha uma ironia quase luminosa. Thomas Stockmann não foi considerado inimigo do povo. O público português, naquela noite, absolveu o denunciante. Fez bem. Mas a beleza do espetáculo está em não nos deixar sair com medalha ao peito. Absolver Stockmann no teatro é relativamente fácil. Difícil é absolver os Stockmanns reais quando nos aparecem com estudos que mexem com a verdade oficial, contas impossíveis, consequências económicas, pressão política, incómodo diplomático e uma verdade que não chega vestida para a fotografia.
Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo é um espetáculo extraordinário porque percebe que o teatro não serve apenas para representar conflitos. Serve para nos treinar para eles. Christiane Jatahy dirige com mão de mestre uma peça simultaneamente rigorosa e vibrante, cerebral e emocional, política e profundamente teatral. Wagner Moura confirma-se como um actor imenso, desses que não precisam de escolher entre cinema e palco porque carregam ambos no corpo. Cléo Diára dá ao dispositivo lisboeta a autoridade discreta de quem segura a engrenagem sem querer roubar a cena. Danilo Grangheia, Julia Bernat e todo o trabalho técnico-performativo completam uma arquitectura cénica onde nada parece gratuito e tudo trabalha para o mesmo fim: fazer-nos pensar sem nos deixar confortáveis.
É raro ver um espetáculo tão inteligente e, ao mesmo tempo, tão vivo. Tão cheio de ideias e tão pouco académico. Tão político e tão pouco panfletário. Tão contemporâneo e tão fiel ao velho nervo de Henrik Ibsen. Porque, no fundo, a peça não pergunta apenas se Thomas Stockmann é inimigo do povo. Pergunta se o povo ainda sabe reconhecer os seus verdadeiros inimigos. Às vezes não são os que gritam. Às vezes são os que moderam. Às vezes não são os que denunciam. São os que relativizam. Às vezes não são os que fecham balneários. São os que mantêm a água aberta, a torneira a correr, a economia a sorrir, enquanto a contaminação desce devagar para o sítio onde a política nunca gosta de olhar: o corpo das pessoas.
No CCB, naquela noite, a verdade ainda teve defesa. E ganhou. Mas saiu do palco com uma missão ingrata: atravessar o país, chegar à Terceira, bater à porta da Base das Lajes e perguntar, sem medo da resposta, quem anda afinal a envenenar o povo em nome do povo.