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Sob o tema “Pentimenti”, a edição de 2026, com curadoria do arquiteto e fotógrafo Francisco Ascensão e da arquiteta e artista plástica Maria Souto de Moura, propõe um olhar sobre as várias vidas dos edifícios, revelando as transformações, mudanças de uso e camadas de história que permanecem visíveis na arquitetura.
Antes da abertura oficial, fomos visitar quatro dos espaços mais emblemáticos deste roteiro, uma pequena amostra capaz de abrir o apetite de todos os apaixonados por arquitetura.
A primeira paragem foi no Centro Comercial STOP, um dos locais mais singulares da cidade. Projetado por Eugénio Alves de Sousa, o edifício nasceu como estação de serviço automóvel, transformou-se em centro comercial e acabou por reinventar-se como um dos maiores polos de criação musical e artística.
Hoje, os corredores respiram liberdade criativa. Em cada loja encontram-se salas de ensaio ocupadas por bandas dos mais variados géneros musicais, num ambiente onde a música se mistura com as marcas deixadas pelo tempo. Entre os muitos protagonistas deste universo está também Avelino da Oficina de Reparação de Letras, um espaço que traduz o espírito artístico e comunitário do STOP.
A arquitetura moderna de planta livre permitiu que o edifício fosse sendo continuamente apropriado por diferentes gerações, tornando-se um exemplo vivo da capacidade de adaptação dos espaços e um verdadeiro símbolo da cultura portuense.
Em Paranhos, conhecemos o projeto Paranhos II, assinado pelo Atelier Local e por Francisco Craveiro. Uma antiga oficina de estofes deu lugar a uma habitação contemporânea, demonstrando como a arquitetura pode reinventar espaços improváveis.
Em vez de impor os modelos tradicionais da habitação, o projeto parte das características do edifício existente para criar novas formas de habitar. A antiga garagem mantém a sua generosidade espacial, transformando uma estrutura industrial num lugar acolhedor, flexível e adaptado às necessidades atuais. É um exemplo claro de reutilização inteligente do património construído, respondendo aos desafios da sustentabilidade e da cidade contemporânea.
Cooperativa de Lordelo do Ouro: o regresso de um símbolo comunitário
Projetada por Álvaro Siza e inaugurada em 1963, a Cooperativa de Lordelo do Ouro é um dos edifícios mais marcantes da arquitetura moderna portuguesa.
Concebida para reunir consumo, serviços, cultura e recreação, a sede da cooperativa viveu décadas de intensa atividade comunitária. Contudo, desde os anos 90, parte significativa do edifício permaneceu encerrada.
Hoje, entre espaços vazios e memórias preservadas, renasce um novo projeto coletivo. Desde janeiro de 2026, um grupo de cooperantes procura devolver vida ao edifício, recuperando a sua vocação social, cultural e comunitária, mantendo intacta a intenção arquitetónica de Álvaro Siza.
É precisamente essa convivência entre memória, abandono e renovação que faz deste edifício um dos melhores exemplos do conceito “Pentimenti” proposto pelo Open House.
A última visita levou-nos ao ATELIERDACOSTA, instalado no antigo Prédio Entre Paredes, onde funcionou durante décadas a fábrica de bolachas Imperial.
A intervenção recusou a demolição total e optou por preservar as diferentes camadas construtivas acumuladas ao longo de mais de um século: madeira de castanho, pedra, azulejos antigos, estruturas metálicas, betão e elementos industriais convivem agora numa nova habitação coletiva com cinco fogos e um espaço de trabalho para o próprio atelier.
Mais do que esconder o passado, o projeto valoriza-o, assumindo que cada intervenção acrescenta uma nova camada à história do edifício. Também o próprio processo de construção envolveu pequenas oficinas e artesãos, reforçando uma ideia de arquitetura construída de forma colaborativa.
A edição de 2026 do Open House Porto convida o público a olhar para a cidade de forma diferente. O conceito de “Pentimenti”, termo originalmente utilizado na pintura para descrever as marcas deixadas pelas sucessivas alterações de um artista, aplica-se aqui à arquitetura como metáfora das transformações que os edifícios atravessam ao longo da sua existência.
Mais do que visitar espaços habitualmente encerrados ao público, esta iniciativa propõe refletir sobre a importância da preservação, reutilização e adaptação do património construído, mostrando que uma arquitetura sustentável é aquela que consegue atravessar o tempo, acolhendo novos usos sem perder a sua identidade.
Durante os dias 4 e 5 de julho, dezenas de visitas guiadas, atividades educativas, performances e iniciativas paralelas prometem aproximar a arquitetura das pessoas e revelar um Porto feito de memórias, transformações e novas possibilidades.