Portugal, ao longo da sua História, sempre teve uma relação muito criativa com a liberdade. Quando não sabe o que fazer com ela, arquiva-a. Quando não a consegue arquivar, julga-a. Quando não a consegue julgar, manda chamar a Inquisição ou a polícia política. E quando ambas já não existem, inventa-se outro tribunal qualquer: o da moral, o do bom gosto, o da família tradicional, o da “normalidade”, essa palavra tão higiénica que cheira sempre um bocadinho a mofo. É nesse país de arquivos poeirentos, corpos vigiados e identidades empurradas para a nota de rodapé que nasce Duas Vezes João Liberada, a primeira longa-metragem da cineasta Paula Tomás Marques, que chega finalmente às salas portuguesas.
A História não é um museu de cera
João, atriz lisboeta interpretada por June João, prepara-se para protagonizar uma cinebiografia histórica sobre Liberada, jovem dissidente de género perseguida pela Inquisição portuguesa. Estamos, portanto, perante um filme dentro do filme, um biopic que desconfia dos biopics, uma ficção que nasceu de casos e processos reais dos séculos XVII e XVIII e que, em vez de fingir que a História é uma vitrina limpa, prefere mostrar as dedadas, as rachadelas e os fantasmas que ficaram presos no vidro.
A grande inteligência do filme está justamente aí: não transformar Liberada numa santinha queer para consumo cultural progressista, nem numa vítima embalsamada para comover espectadores bem-pensantes. Paula Tomás Marques percebe que representar vidas apagadas é sempre um gesto delicado, às vezes necessário, às vezes perigoso. Quem fala por quem? Quem filma o sofrimento de quem? Quem tem direito à imagem dos mortos? E, já agora, quantos realizadores ainda acham que filmar a dor dos outros é uma forma muito profunda de serem importantes?
No filme, o realizador da cinebiografia — figura masculina, autoral, convencida, como mandam as regras não escritas do cinema — entra em choque com João sobre a forma de representar Liberada. Ele parece mais interessado no martírio; ela procura outra coisa: respiração, desejo, presença, resistência, talvez até alegria. Porque os corpos perseguidos também viveram antes de serem perseguidos. Também desejaram, riram, conspiraram, tiveram frio, fome, tesão, medo, vaidade, mau feitio. Não foram apenas casos judiciais com figurino de época.
Um fantasma contra o biopic de prestígio
Quando o realizador fica misteriosamente paralisado e João começa a ser assombrada pelo espírito de Liberada, Duas Vezes João Liberada deixa de ser apenas um exercício metacinematográfico e passa a ser uma pequena vingança espectral. O fantasma invade o cinema. Vem corrigir o enquadramento. Vem dizer: “não me transformem outra vez numa personagem útil para a carreira de alguém.”
Filmado com uma economia formal que não confunde pobreza de meios com pobreza de ideias, o filme tem 70 minutos e uma ambição rara: pensar o cinema a partir das suas próprias culpas. Há nele qualquer coisa de laboratório, de ensaio, de séance política, de making of possuído. Nem sempre procura a emoção fácil, nem sempre quer ser simpático. Há filmes que nos dão a mão. Este Duas Vezes João Liberada prefere tirar-nos o tapete.
Paula Tomás Marques, que já vinha das curtas — Em Caso de Fogo (2019), Cabra Cega (2021) e Dildotectónica (2023)— e de um trabalho atento às questões de género, sexualidade e historiografia, estreia-se na longa-metragem com uma obra desafiante e marcante na filmografia nacional recente. E talvez seja isso que mais irrita nos filmes vivos: não entram pela porta do consenso, não se sentam direitinhos à espera que o espectador os aprove, não dizem “desculpe incomodar, era só para falar um bocadinho de dissidência de género na Inquisição portuguesa”.
Duas Vezes João Liberada é cinema português pequeno no orçamento e grande na insolência. Um filme sobre o passado que não está morto, sobre fantasmas que não querem descanso e sobre a História como campo de emoções. No fundo, a Inquisição acabou. Mas não convém relaxar: há sempre alguém disponível para reacender a fogueira, nem que seja em nome da tradição, da arte ou da bilheteira.