Vamos encontrá-lo no bar de um hotel vizinho do local onde decorre a Feira do Livro de Lisboa. Aguarda-nos bem-disposto, tranquilo, bem-humorado. Uma hora e dez minutos depois, estaremos a caminho das alamedas, onde uma multidão aproveita o feriado do 10 de Junho para visitar a Feira. A canícula destes dias reclama às sombras das árvores vetustas do Parque que nos ajudem a continuar a conversa, desta vez, sem gravador. Nascido em Angola, Vila Henrique de Carvalho, atual Saurimo, há 54 anos, Valter Hugo Lemos, conhecido, no mundo literário e pelo grande público, como Valter Hugo Mãe, que chegou do Porto (reside no norte do País) ainda na véspera, debate-se com uma “moinha” num ombro: “Deve ter sido por andar a carregar uma sacola cheia de livros.” Entre eles, talvez, um exemplar do seu mais recente romance, O século dos imbecis, nas livrarias agora mesmo, ainda a cheirar a tinta. Como relata a sinopse, “no centro da história está Agilulfo, um marquês em tempo de República que ganha brilho quando sobe a montanha e perde discernimento sempre que regressa à vila. Em redor desta figura improvável gravita uma comunidade inteira”. Pretexto seguro para falarmos do nosso tempo.

Já entrevistei políticos, artistas, desportistas, intelectuais… Nunca um escritor. Qual será o tema da primeira pergunta? Qual seria a sua, se estivesse no meu lugar?
Eu perguntaria se um livro, se este livro, afinal, basta, ou se ainda não é suficiente. Algum livro se torna suficiente? Definitivo?
