O termómetro marcava 28 graus, no entanto, não parecia suficiente para aquecer o palco Primavera no terceiro dia do festival. Com todos os motivos para brilhar sob a luz do palco, Duquesa trouxe consigo o calor do Brasil numa atuação que transpira rap, trap e R&B, assumindo uma presença direta e confirmando que quem vemos é exatamente quem escutamos. Pouco depois, Mike D acelerou o ritmo através de um formato inédito: sete músicos em palco, três guitarras, baixo, loops rítmicos no lugar da bateria, sintetizadores e texturas carregadas de saturação e energia quase caótica, dando forma a um concerto que recusa hierarquias e fronteiras entre banda e produção eletrónica.
À mesma hora, no palco Vodafone, o final da tarde caminhava para um dos momentos mais marcantes do dia. Criolo, Amaro & Dino apresentavam-se numa esfera mais acústica, com um piano de cauda ao centro do palco, conduzindo-nos por uma viagem de ritmos entre África e Brasil. Um exemplo de equilíbrio entre intimidade, intervenção, celebração e afirmação cultural. Não faltou espaço para o público cantar em coro — de expressões como “blood in your hands”, com braços levantados, aos temas sobre amor que convidavam simultaneamente à dança e à contemplação. Sempre próximos e inclusivos na forma como se relacionaram com o público, Criolo, Amaro e Dino transformaram o concerto num exercício constante de comunhão. O espetáculo terminou ao som de “Anoitecer”, precisamente quando o dia se aproximava do fim. E quando a palavra “saudade” ecoou pelo recinto, pareceu resumir não apenas o tema, mas também aquilo que permanecia depois de um dos momentos mais emotivos do festival.
Mais tarde, Sudan Archives e Amaarae mostraram duas abordagens distintas para uma mesma ideia: a reinvenção da linguagem pop. Sudan Archives transformou o seu violino amplificado em matéria viva dentro de texturas eletrónicas, ocupando o palco com uma performance destemida, que rapidamente conquistou um mar de gente atenta a todos os detalhes. Sozinha, mas em total controlo do espaço, mostrou como virtuosismo e experimentação podem coexistir sem esforço aparente.
Amaarae chegou ao mesmo destino por outro caminho. A artista apresentou uma pop híbrida onde afrobeat, cadências de techno e R&B alternativo coexistem sem necessidade de definição rígida, sustentando a solo um palco inteiro. Entre refrões cantados em coro e uma interação constante com o público, confirmou porque continua a ocupar um dos lugares mais singulares da pop contemporânea.
O encerramento pertenceu naturalmente aos Massive Attack. Quase duas décadas depois da última passagem pelo Porto, regressaram com a mesma capacidade de reorganizar o presente através da imagem e do som. A banda confirmou a sua intemporalidade através de projeções que cruzavam guerra, algoritmos, identidade, tecnologia e vulnerabilidade humana, sem esquecer referências mais próximas como a “renda da casa” ou até o improvável “caldo verde”. Entre menções a Elon Musk, Trump e conflitos atuais, o concerto assumiu um posicionamento político claro, recordando que a dimensão interventiva dos Massive Attack nunca existiu como comentário externo à música — sempre fez parte da sua arquitetura.
Talvez tenha sido essa a sensação dominante deste terceiro dia: um festival que, mesmo reunindo públicos e géneros muito diferentes, consegue desenhar cada jornada com identidade própria. Entre aceleração, comunhão e intervenção, o Primavera Sound Porto mostrou que diversidade e coerência podem ocupar o mesmo palco.