Antes da crónica, a ressalva jornalística, porque isto já não é futebol, é cinema de pura conspiração com montagem paralela e final em aberto: a saída de Marco Silva do Fulham é oficial; o próprio clube inglês confirmou o fim de ciclo após cinco anos e deverá ser apresentado com treinador do Benfica na próxima semana. Já o regresso de José Mourinho ao Real Madrid, que ainda tem contrato com o Benfica até ao final da próxima época, surge ligado à candidatura de Florentino Pérez e às eleições de 7 de junho, ou seja, daqui a dois dias, com notícias a apontarem para uma cláusula de 15 milhões de euros (há quem fale ao todo em 22 milhões) a pagar ao Benfica. Há, porém, nevoeiro suficiente nesta novela para a Reuters, por exemplo, ter retirado uma peça jornalística por não conseguir verificar a autenticidade de um vídeo associado ao anúncio de Mourinho no Real Madrid, provavelmente feito com recurso a Inteligência Artificial. Mas de Mourinho, nem um pio e da presidência do Benfica não houve qualquer comentário. Ou seja: no futebol moderno, até a realidade e o mercado começam a precisar de VAR. Ou de um bom montador de cinema. Ou, no mínimo, pelo menos de um assistente de realização experiente que nos diga: “Corta, esta cena não está credível.”
Ser benfiquista é, pelo menos há duas épocas, uma modalidade de resistência psicológica. Não basta pagar quotas e Red Pass, ter lugar logo atrás do banco dos jogadores, comprar camisolas, discutir laterais-direitos no café e ao telefone com os amigos, desconfiar de todos os árbitros, amar o Seixal como se fosse a Maternidade Alfredo da Costa dos génios do futebol e acreditar, contra todas as evidências, que “este ano é que é”. Agora também é preciso acordar de manhã, abrir o telemóvel e perceber que José Mourinho, que ainda ontem dormia no Seixal como quem quase regressava à casa da infância, ali tão perto de Setúbal, e dizia estar muito feliz, pode afinal estar de malas feitas para Madrid; enquanto Marco Silva se despede do Fulham e aparentemente se prepara para aparecer à porta da Luz com aquele ar de rapaz bem-educado, a perguntar: “É aqui que se entra para o manicómio?” Isto já não é Ted Lasso. Isto é Ted Lasso realizado pelo David Fincher, escrito pelo Armando Iannucci e produzido por Jorge Mendes.
O Benfica tornou-se isto: um clube gigante, com 93 mil sócios a votar, recordes mundiais à porta do Guinness, uma massa adepta que enche urnas como quem enche estádios e os jogos da equipa, mas que depois parece sempre à espera que alguém lhe explique quem manda realmente no Benfica e no futebol português. Não podemos esquecer a época passada e as arbitragens muito polémicas, mas também não foi só por isso que o Benfica ficou em terceiro lugar no campeonato e está agora em maus-lençóis. Rui Costa foi reeleito com uma votação robusta, legitimado pelos sócios, reconduzido ao lugar mais difícil e comentado do futebol nacional: o de presidente do Benfica sem parecer apenas o homem que atende o telefone quando Jorge Mendes lhe liga. E isto torna-se numa função bastante ingrata. Uns presidentes têm de lidar com a UEFA. Outros com credores. O do Benfica tem, ao que parece, de lidar com a metafísica do mercado: quando pensamos que temos treinador com contrato assinado até ao final da próxima época, ele já é trunfo eleitoral do presidente madrileno Florentino Pérez. É como estar a ver Succession, mas em vez dos Roy temos os encarnados, em vez da Waystar temos a Luz, e em vez de helicópteros temos comunicados adiados, vídeos duvidosos e fontes próximas do processo.
A situação é tão insólita que parece escrita pelas argumentistas de Matrix ou por um ou por um hincha todo tatuado da cabeça aos pés, admirador do Otamendi, que pegou uma “curda” histórica a festejar a vitória na Primera División argentina. Mourinho chegou ao Benfica em setembro de 2025, reacendeu o imaginário do Special One, dormia no Seixal, falava como quem ainda tinha deixado algo por fazer desde a primeira vez em 2000, uma dívida sentimental ao clube, e muitos de nós — benfiquistas de fé vacilante mas coração mole, agradecidos e de boa memória, mesmo aqueles que admiravam Bruno Lage, que com João Félix ganhou um campeonato num dos melhores momentos recentes de futebol do Benfica, depois de uma recuperação fantástica — começámos a acreditar. Talvez fosse isto. Talvez o homem que ganhou tudo lá fora, que financeiramente é quase um magnata, viesse finalmente fazer aquilo que nunca fez, agora já com uma carreira consolidada e com aquela sabedoria de um homem de 63 anos: construir para o futuro. Não decidir a curto prazo, não apagar incêndios, não gerir balneários cheios de egos petrolíferos, não entrar em guerras santas com presidentes, imprensa e laterais-esquerdos, mas começar pelo Seixal, olhar para os miúdos, escolher três ou quatro homens feitos, arrumar a casa e dizer: “Agora vamos lá ser Benfica outra vez.” Seria o seu The Wrestler, a sua redenção final, o velho campeão cansado a tentar fazer uma última coisa bonita antes dos créditos finais.
E depois Madrid aparece. Madrid aparece sempre. Madrid parece aquela ex-namorada tóxica que telefona às três da manhã, diz que mudou, que desta vez vai ser diferente, que já não parte pratos, nem despede treinadores, nem lhes põe as malas à porta com a mesma facilidade com que troca de gravata. Mourinho, experiente nestas coisas, podia ter escolhido a redenção. Escolheu, aparentemente, o vulcão. É legítimo? É. É compreensível? Talvez. Mas é bonito aquilo que tem feito e a forma como tem reagido a toda esta confusão? Não. Para um benfiquista, é como ver alguém jurar amor eterno na missa das dez e ser apanhado ao meio-dia no Tinder com a camisola do Real Madrid. Ou, em linguagem de cinema clássico, é como se Rick dissesse a Ilsa em Casablanca: “Teremos sempre o Benfica”, e cinco minutos depois aparecesse num reboot em Madrid, com Florentino Pérez a fazer de produtor e Jorge Mendes a tratar do financiamento internacional.
E, no entanto, o caso Mourinho dói precisamente porque havia ali uma hipótese rara. Não era só ganhar o próximo campeonato, a próxima época 2026/27 — que este ano fugiu, merecidamente, para o FC Porto — nem era apenas reparar uma época passada absolutamente desastrosa, com terceiro lugar, Champions perdida e Liga Europa a pedir pré-eliminatória como quem pede senha no centro de saúde, onde é cada vez mais difícil ter médico de família e marcar uma consulta. Era a hipótese de Mourinho voltar a ser treinador de projeto. Não o gestor de traumas da Roma, não o guerreiro de trincheira do Fenerbahçe, não o especialista em conferências de imprensa transformadas em teatro de revista à portuguesa, mas o Mourinho benfiquista, português, setubalense, um grande senhor, talvez finalmente reconciliado com uma ideia de futebol menos imperial e mais artesanal. No Benfica, uma das maiores escolas de talentos desta Europa e uma das que mais rendeu ao clube. Portanto, confesso: não entendo. Isto podia ser Moneyball com sotaque de Setúbal e miúdos do Seixal. Está a transformar-se em Missão: Impossível — Ajuste de Contas Encarnado.
Mas o Special One, quando ouve “Real Madrid”, parece ainda ouvir trombetas, cavalos, Champions, câmaras de televisão e Florentino a prometer galácticos como quem promete sardinhas em noite de Santo António. O problema é que este Real Madrid, mesmo cheio de nomes imensos, é também um ninho de víboras com ar condicionado. Jogadores milionários, adeptos impacientes, imprensa carnívora e um presidente que faz eleições como quem lança trailers de super-heróis. Mourinho já lá esteve, ganhou uma Liga dos Recordes — uma equipa que chegou aos 100 pontos e fixou o recorde de 121 golos marcados —, somou outros títulos, deixou marca, cicatrizes, inimigos, frases e sound bites no ar, e saiu em Maio de 2013 por “mútuo acordo”, depois de extremo desgaste na relação com o plantel, a imprensa e a direção. Embora Florentino Pérez quisesse que ele ficasse, o próprio treinador sentiu que era o momento de sair e regressar ao Chelsea. Voltar pode ser glorioso. Também pode ser como regressar ao restaurante onde apanhámos uma intoxicação alimentar porque nos disseram que agora mudaram o chef. Há também o velho ditado português: não voltes ao lugar onde foste feliz. Aconteceu-lhe com o Chelsea, aconteceu-lhe com o Benfica. Embora, da primeira vez, Mourinho nem tenha aquecido verdadeiramente o lugar de treinador na Luz, apesar dos excelentes resultados. Depois veio o murro na mesa, a ida para o União de Leiria e o enorme sucesso no FC Porto. O resto da história já sabemos. Só faltava mesmo a Netflix comprar os direitos e chamar-lhe The Special One: Segunda Época, Mesmo Erro.
No meio disto, Marco Silva surge como sucessor provável. E aqui convém ser sério, apesar da vontade natural de fazer trocadilhos com Cottagers, águias e mudanças de ninho. Marco Silva é um bom treinador. Fez um trabalho respeitável na Liga portuguesa, primeiro no Estoril, depois no Sporting, e deu o salto para Inglaterra, começando pela Championship e chegando à Premier League, até se fixar no Fulham durante as últimas quatro temporadas completas. Consolidou o clube, deu-lhe estabilidade, pontos, dignidade e uma ideia de jogo. Não é pouco. Num futebol inglês onde metade dos clubes vive convencida de que está a duas contratações de ser o Manchester City e a três derrotas de despedir o treinador, sobreviver cinco anos no Fulham é quase um milagre. Marco Silva, visto de longe, é menos uma personagem de O Padrinho e mais um protagonista de uma das muitas série britânica da BBC, quase sempre com o mesmo registo: competente, contido, discreto, a tentar manter a casa de pé enquanto chove lá fora e alguém descobre um cadáver na biblioteca.
Mas também aqui há qualquer coisa de estranho e uma opção algo incompreensível. Marco Silva deixa a Premier League, onde joga todas as semanas contra monstros com orçamentos estratosféricos — normais para Inglaterra, obscenos para a dimensão portuguesa, mesmo quando falamos do Fulham comparado com a maioria das equipas da nossa Liga — para vir treinar o Benfica num momento em que o clube parece uma sala depois de uma agitada festa de casamento onde o noivo foi apanhado a beijar às escondidas uma das madrinhas da noiva: cadeiras tombadas, copos partidos, promessas no chão e alguém a perguntar quem ficou com a chave do quarto do hotel ou do carro dos noivos. Vem para uma equipa que precisa de vender, comprar melhor, reconstruir confiança, preparar uma época com pouco tempo, por causa do Mundial, com jogadores cansados e quase sem férias para descompressão, e ainda disputar uma pré-eliminatória europeia — veja-se, da Liga Europa — que pode transformar agosto numa autópsia pública. Isto não é uma pré-época. É The Bear, mas sem sanduíches, com mais laterais adaptados e todos a gritar “sim, chef!” para o empresário errado.
Marco Silva sabe ao que vem? Quero acreditar que sim. Mas também quero acreditar que Rui Costa sabe o que está a fazer — ou não —, e isso já me preocupa e exige uma fé quase mariana. O Benfica não precisa apenas de um treinador. Precisa de uma ideia, de um projeto a médio prazo, de construir uma equipa competitiva a nível nacional e, se possível, capaz de competir numa prova europeia com dignidade. Precisa de perceber se quer ser um clube formador com ambição europeia ou uma agência de valorização de ativos que veste a camisola e coloca o cachecol apenas durante uma época e partem para outro clube. Precisa de defender o Seixal, mas sem transformar cada miúdo promissor numa factura antecipada. Precisa de comprar menos cromos e mais futebolistas. Precisa de parar de viver entre as nostalgias de 1962, os traumas de 2004 e os PowerPoints de consultores externos, olheiros, treinadores de bancada e “dirigentes televisivos” que abusam e mandam demasiados palpites, nos painéis de comentadores nos vários canais. Quem conseguiu na segunda volta das últimas eleições do Benfica 65,89% dos votos, num total de 1.266.105 votos contabilizados, tem legitimidade e obrigação de estar bem rodeado, tomar decisões certas e deixar de se esconder atrás do silêncio. Um presidente não pode ser apenas personagem secundária num filme onde o produtor executivo manda mais do que o realizador.
E depois há Jorge Mendes, claro. No futebol português, Jorge Mendes, o grande empresário do futebol internacional, é uma espécie de estação meteorológica e não o “tretas” do Fabrizio Romano, que vai debitando especulação com selo de urgência. Quanto a Mendes, nunca se sabe se manda, se prevê, se facilita, se decide ou se apenas aparece quando a pressão atmosférica muda e sempre com um objetivo ganhar muito dinheiro com os seus agenciados, sejam eles jogadores ou treinadores e neste caso até é agente dos dois. Mas ele está sempre lá, invisível e omnipresente, não tanto como o deus do futebol, mas mais como o Espírito Santo do mercado, não o Nuno, treinador e amigo dele. Mourinho em Madrid, Marco Silva no Benfica, jogadores da seleção nacional, selecionadores, Roberto Martínez, grandes clubes, pequenos clubes, jogadores, treinadores, cláusulas, comissões, jantares, telefonemas. Diga-se de passagem que, quanto a isto, Cristiano Ronaldo está aparentemente fora da equação, o que, no actual estado das coisas, já é quase uma inovação narrativa. Às vezes parece que o futebol português não tem bastidores: tem uma central de atendimento gerida por Jorge Mendes. Quanto mais não seja para alimentar manchetes nos jornais desportivos e programas de futebol durante o defeso. Para a semana acaba tudo, porque começam os jogos da Seleção Nacional e já haverá muito para falar.
Porém, como benfiquista e adepto de futebol, confesso uma certa tristeza e angústia. Gostava que Mourinho tivesse ficado. Gostava que tivesse tido coragem de fazer no Benfica aquilo que talvez Madrid já não lhe permita: construir sem precisar de destruir primeiro. Gostava que Rui Costa tivesse dado um murro na mesa antes de a mesa ser vendida por objetivos. Gostava que o Benfica deixasse de parecer surpreendido pelas coisas que lhe vão acontecendo. Um clube desta dimensão não pode viver pendurado no calendário eleitoral do Real Madrid ou na agenda de negócios de Jorge Mendes, à espera de saber se o seu treinador é projeto desportivo ou apenas cartaz de campanha que já serviu determinados objetivos. O Benfica não pode ser figurante no seu próprio filme. E, neste momento, parece aquele actor que entra em cena, tem uma fala importante, mas entretanto alguém mexeu no teleponto.
E quanto a Marco Silva? Que venha, se vier. Que venha com autoridade, ideias, coragem e sobretudo contrato moral com os adeptos. Não precisamos de promessas de Champions em Maio, nem de frases de plástico sobre “ADN vencedor”. Precisamos de uma equipa que corra, jogue, pense, pressione, defenda melhor e não pareça entrar em campo com a mesma expressão de quem vai para o banco de suplentes antes de o jogo começar. Precisamos de voltar a gostar de ver o Benfica jogar. Parece pouco, mas hoje seria quase uma revolução estética. Como no cinema: antes dos efeitos especiais, antes dos trailers, antes dos cartazes, convém haver argumento, personagens e uma mise-en-scène que não pareça improvisada por um estagiário em pânico.
No fim, esta novela diz muito sobre o Benfica actual. Um clube enorme, apaixonado, popular, democrático, mas demasiado vulnerável à lógica dos intermediários, aos golpes de mercado, aos treinadores tratados como ações da bolsa, ao vampirismo dos media desportivos e aos agentes de jogadores e treinadores. Mourinho pode ir para Madrid e talvez até ganhe. Talvez tenha sucesso. Mas tem tudo para correr mal, mais uma vez. Marco Silva pode vir para a Luz e talvez resulte. Vamos ver. Rui Costa pode ainda acertar o passo, deixar de fumar e voltar a tomar decisões mais acertadas, recuperando, agora na presidência, alguma coisa do velho “Maestro” que ainda vai ter mais quatro anos de mandato. Mas uma coisa é certa: o benfiquista, esse pobre animal mitológico, continuará aqui, de peito erguido e com um orgulho muito seu. A sofrer em Junho por jogos que só começam em Agosto. A discutir treinadores antes de conhecer o plantel. A amaldiçoar Jorge Mendes enquanto consulta o mercado. E a acreditar, sempre, estupidamente, religiosamente, perigosamente, que o próximo treinador é que vai finalmente devolver o Benfica ao Benfica.
Porque ser benfiquista é isto: uma forma de amor, uma doença crónica e, nos dias que correm, parece quase uma assinatura vitalícia da Netflix do absurdo. Só falta escolher o género. Para uns, isto é tragédia grega. Para outros, comédia negra. Para mim, neste momento, é um filme português de produção barata, argumento confuso, atores conhecidos, final em aberto e um adepto na última fila a murmurar: “Isto está muito bem filmado, mas alguém me explica quem é que manda nesta história e quem é afinal o realizador?”