.
Morreu Marjane Satrapi (1969-2026) e, de repente, o mundo ficou mais pobre, mais cinzento e bastante mais ausente de uma voz livre. A autora de Persépolis, artista franco-iraniana, realizadora, pintora, mulher livre por vocação e insubmissa por higiene mental, desapareceu aos 56 anos, idade obscenamente jovem para quem ainda tinha tanto para dizer, desenhar, filmar, fumar, rir e insultar com inteligência. A família disse que morreu de tristeza, pouco mais de um ano depois da morte de Mattias Ripa, o marido e amor da sua vida. É uma terrível justificação, quase insuportável, porque parece saída de um romance antigo, daqueles em que ainda se acreditava que o coração era um órgão literário. Mas, no caso dela, talvez não seja metáfora. Talvez existam pessoas que vivem tão intensamente que até a morte lhes chega como consequência de uma fidelidade e de um grande amor, sobretudo para aqueles que ainda acreditam nele.
Marjane Satrapi ficou conhecida em todo o mundo por Persépolis, essa obra a preto e branco que parece simples apenas para quem nunca percebeu que a simplicidade é uma das formas superiores da inteligência. Ali estava uma infância iraniana (a sua, talvez?) atravessada pela revolução, pela guerra, pelo exílio, pelos mullahs, pela repressão, pelas contradições familiares, pela descoberta do corpo, pela descoberta da política e por aquela coisa raríssima que é uma menina olhar para a História e responder-lhe com ironia. Persépolis fez ao Irão aquilo que muitos telejornais e muitas notícias quase sempre negativas nunca conseguiram: devolveu-lhe rostos, humor, medo, ternura, mulheres, avós, pais, crianças, festas clandestinas, discos proibidos, raiva e humanidade. Tirou o país da caricatura geopolítica e devolveu-o à vida. O Ocidente, habituado a olhar para o Irão como quem olha para um mapa com petróleo, turbantes e más notícias, recebeu de repente uma miúda de traço negro a dizer: calma, meus caros, nós existimos antes dos vossos clichés e rótulos.
Depois veio o cinema. A adaptação animada de Persépolis, co-realizada com o francês Vincent Paronnaud, venceu o Prémio do Júri em Cannes, em 2007, e foi nomeada para o Oscar de Melhor Filme de Animação. Não era apenas um filme “importante”, essa palavra que às vezes funciona como anestesia estética. Era um filme vivo, irónico, musical, com uma energia punk e uma melancolia de exílio. Tinha a graça de quem sabe que a tragédia sem humor é propaganda da tristeza. E Satrapi nunca fez propaganda da tristeza. Fez, isso sim, da tristeza uma matéria inflamável.
A sua obra em BD nunca se deixou aprisionar no estatuto confortável de “voz do exílio”, como se os artistas vindos de países feridos tivessem obrigação de andar eternamente com a mala da dor à cabeça. Fez as bandas desenhadas Bordados (Broderies) e Frango com Ameixas, ambas publicadas em Portugal pela Levoir, sendo que esta última também deu filme, em 2011. Filmou em imagem real The Voices (2014), uma comédia negra de terror, realizou Radioativo (2019), sobre Marie Curie, pintou, escreveu, falou, apareceu, desapareceu, regressou. Era uma artista que se recusava a ser museu de si própria. O seu Irão estava sempre presente, claro, mas não como folclore de sofrimento. Estava lá como ferida, como memória, como raiva, como humor familiar, como combate contra a estupidez organizada. E a estupidez organizada, como sabemos, é a forma mais persistente de governo em muitas geografias.
Nos últimos anos, Satrapi manteve-se ligada à luta das mulheres iranianas e ao movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, surgido depois da morte de Mahsa Amini, a jovem que em 2022 se recusou a utilizar o hijab (véu islâmico) de forma “adequada”. Em 2025, Satrapi recusou a Legião de Honra francesa, acusando a França de hipocrisia na sua relação com o Irão e lembrando os jovens, artistas, dissidentes e mulheres iranianas que continuam a pagar caro por desejarem liberdade. Isto diz muito sobre ela. Há quem aceite medalhas para emoldurar a biografia. Satrapi recusou uma para não trair a consciência. Era também, e sobretudo, segundo dizem as pessoas que com ela conviveram, muito divertida. Uma mulher capaz de falar de ditaduras, patriarcado, tortura, exílio e morte sem perder a capacidade de uma piada devastadora. Essa era talvez a sua grande arma: não permitir que os fanáticos lhe confiscassem o riso. O fundamentalismo odeia mulheres livres, mas odeia ainda mais mulheres livres que se riem. Porque uma mulher livre que se ri é uma ameaça completa: pensa, deseja, desobedece e ainda por cima não baixa a cabeça. Satrapi tinha essa insolência maravilhosa. A de quem sabia que a liberdade não é apenas um conceito para um seminário europeu ou uma conferência académica, mas uma prática quotidiana, física, carnal, às vezes perigosa, muitas vezes solitária.
Por isso a sua morte dói tanto. Não apenas porque desaparece uma grande artista, mas porque desaparece uma espécie de bússola moral da liberdade. Marjane Satrapi não nos ensinou apenas a ver o Irão de outra maneira. Ensinou-nos a desconfiar das narrativas oficiais, dos governos, dos moralistas, dos homens que explicam às mulheres como devem existir e dos ocidentais que acham que compreendem o mundo depois de lerem três editoriais e verem as notícias sobre o Irão.
Fica sobretudo Persépolis, claro. Ficam as páginas negras e brancas, a menina de cabelo escuro, a avó, os cigarros, o medo, a música proibida, a Europa fria, o regresso impossível, a lucidez feroz. Fica o filme, essa animação onde a memória dança com a política sem qualquer solenidade. Fica a mulher que recusou ser vítima profissional, símbolo domesticado ou postal de resistência. Fica a artista que abriu portas para outras autoras, outras exiladas, outras mulheres que perceberam, através dela, que a própria vida também podia ser matéria de arte, desde que se tivesse coragem para contá-la sem medos.
Marjane Satrapi morreu cedo demais. Isso é o mínimo que se pode dizer e talvez o máximo que se consiga suportar. Ficará sempre do lado dos que continuam a bater à porta, a rir no escuro, a desenhar no muro, a perguntar-nos se temos mesmo a certeza de que somos livres.