O cinema português e a NOS Audiovisuais descobriram que, afinal, o público existe. Agora falta decidirem se querem mesmo falar com ele. Ou então continuar a jogar nos extremos, entre o popularucho e um cinema português com ambições artísticas, capaz de combinar arte e indústria, de ambicionar mais prémios e uma presença internacional não apenas nos festivais, mas também nos Oscars ou nos Prémios do Cinema Europeu.
Os 11.º Encontros do Cinema Português regressaram ontem aos Cinemas NOS Vasco da Gama com a habitual liturgia do setor: produtores, realizadores, distribuidores, exibidores, ministros, painéis, estudos, PowerPoints e aquela esperança eterna de que, desta vez, sim, vamos finalmente descobrir a fórmula secreta para levar os portugueses a ver filmes portugueses. É uma ambição justa, necessária e até comovente. Também é, convenhamos, um bocadinho parecida com a procura do Santo Graal, mas com estacionamento no Centro Vasco da Gama, coffee break e almoço patrocinados pela NOS.
A grande novidade foi a apresentação do estudo “O Cinema Português aos Olhos do Público”, feito pela NOS Market & Customer Intelligence, que tentou perceber uma coisa aparentemente simples e, em Portugal, perigosíssima: o que pensa o público do cinema português? A pergunta é tão evidente que, obviamente, não é nova. Durante anos, o cinema português habituou-se a falar mal dos júris do ICA e a estar nas mãos de programadores, comissões, festivais, direções-gerais, plataformas de candidatura e de uma certa crítica já eterna, que funciona como uma espécie de associação protetora do cinema português. Mas mesmo esses que sempre defenderam o cinema português começam a duvidar da sua eficácia e importância face ao número de espectadores que o veem. De facto, o público, esse animal exótico, aparecia de vez em quando nos discursos, mas quase sempre como uma entidade ingrata: não vai ver, não percebe, não valoriza, não apoia. Este estudo tem pelo menos o mérito de fazer uma coisa que raramente foi feita com esta clareza: perguntar-lhe, embora nem sempre a pergunta tenha sido a exata para ir direito ao problema. Às vezes faz lembrar as sondagens eleitorais que respondem mais ao que se quer ouvir do que àquilo que era verdadeiramente importante saber.
E o público respondeu. Não com subtileza, mas respondeu. Primeiro, a boa notícia: 91% dos portugueses dizem ver filmes portugueses. Uau. Ponham uma bandeira na varanda, antes que a Seleção Nacional chegue aos EUA para jogar o Mundial. Hino nacional. O setor inteiro a abraçar-se em câmara lenta. Só que, logo a seguir, vem a nota de rodapé que estraga completamente a festa: 41% não viu um filme nacional no último ano e 4% nem se recorda se viu ou não. Portanto, há aqui uma diferença monumental entre “ver cinema português” e “ter uma relação viva, ativa, desejante, frequente com o cinema português”. Muita gente terá visto um filme nacional na televisão, por acaso, numa noite de zapping, entre uma repetição de “Casados à Primeira Vista” ou o “Task Master” e a vontade de adormecer no sofá. Chamar a isso adesão popular é tecnicamente possível, mas culturalmente é batota.
A palavra proibida: “chato”
Depois vem o momento em que o PowerPoint deixa de sorrir. Quando se pergunta que palavras os portugueses associam ao cinema português, 45% das referências são negativas. E as palavras são daquelas que fazem tremer qualquer jurado dos concursos do ICA: “chato”, “aborrecido”, “lento”, “baixa qualidade”, “pouca ação”, “histórias pouco atrativas”. É cruel? É. É injusto para muitos filmes bons? Também. Mas é impossível fingir que não existe. O público não está a escrever uma tese sobre a crise da representação na paisagem pós-rural. Está apenas a dizer: “Desculpem lá, mas isto dá-me cá uma soneira.”
E talvez a maior virtude do estudo seja precisamente esta: obriga-nos a olhar para a palavra “chato” sem chamar imediatamente a polícia cultural. Porque “chato”, em cinema, não é uma categoria estética menor. É uma sentença de morte num tempo em que tudo disputa a atenção: Netflix, TikTok, futebol, séries, YouTube, podcasts, filhos, contas, cansaço, calor, trânsito e a absurda tentação de ficar em casa em vez de optar por um “programa” cinema com o companheiro, a companheira ou os amigos. Um filme pode ser lento, contemplativo, austero, radical, silencioso, difícil, e ser extraordinário. O problema é quando a lentidão deixa de ser linguagem e passa a ser castigo; quando o silêncio deixa de ser cinema e passa a ser falta de ideias; quando a austeridade se confunde com uma alergia ao espectador.
A contradição mais deliciosa do estudo é que, logo depois deste retrato pouco simpático, se afirma que o cinema português é, globalmente, bem avaliado. O público reconhece atores que gosta de ver, capacidade de entreter, histórias que interessam, qualidade e até uma evolução positiva nos últimos cinco anos. Ou seja, o público não odeia o cinema português. Isso seria mais fácil. O que o público sente é uma espécie de relação de parentesco complicado: respeita, deseja-lhe sucesso, acha importante que exista, tem orgulho quando ganha prémios lá fora, mas não sente necessariamente vontade de passar duas horas fechado numa sala com ele. É o primo talentoso mas maçador que todos elogiamos no Natal e tentamos evitar antes de nos sentarmos à mesa e começar a comer a sopa.
O cinema português vive fora do cinema
Outro dado devastador: apenas 21% viu o último filme português no cinema. A televisão continua a ser o principal lugar de encontro com o cinema nacional, seguida pelas plataformas de streaming, o que não é necessariamente uma má notícia. Há que ter isto em conta, por exemplo, quando se insiste na quase obrigatoriedade, para justificar o financiamento, de estrearem todas as semanas documentários portugueses bons, que teriam certamente mais audiência nas televisões ou nas plataformas do que nas salas de cinema, onde muitas vezes estreiam apenas com uma cópia e ficam uma semana em exibição. Isto diz quase tudo — ou pelo menos uma boa parte — sobre a nossa tragédia de distribuição. O cinema português chama-se cinema, mas muitas vezes não vive nas salas. Passa por lá. Faz escala. Estreia discretamente, fica numa sala perdida, num horário de reformado com insónias, e desaparece antes de o público sequer saber que existia. Depois, meses ou anos mais tarde, reaparece na televisão, como um familiar de quem já não tínhamos notícias.
E isto é central. Porque durante demasiado tempo se culpou o espectador. O português prefere Hollywood. O português não percebe cinema de autor. O português não valoriza a cultura. O português só quer comédias fáceis. Mas o estudo mostra outra coisa: 36% dizem que não se apercebem dos filmes novos ou que a informação não lhes chega; 29% dizem que não existem filmes suficientes para ver mais vezes; 11% dizem que não os encontram nos cinemas. Isto já não é ignorância do público. É falha do sistema. Não basta produzir filmes. É preciso lançá-los. É preciso criar acontecimento. É preciso fazer barulho. É preciso comunicar. É preciso que o filme chegue vivo ao espectador e não como uma notícia necrológica: “Estreou, ninguém viu, já saiu de cartaz.” É preciso, por exemplo, que um filme que passou por um festival internacional, teve grande destaque ou ganhou um prémio, estreie logo nas salas, em vez de chegar meses depois, quando a conversa já morreu e o filme já parece uma recordação longínqua de si próprio.
É por isso que o mote dos Encontros — transformar o cinema português num verdadeiro instrumento de audiências para as salas nacionais — é tão importante quanto, enfim, apenas bem-intencionado. Importante, porque finalmente se olha para a audiência como parte do problema e da solução. Bem-intencionado, porque há sempre a tentação de confundir audiência com receita de supermercado. Mais público não significa necessariamente menos ambição. Mais público não obriga a transformar todos os filmes em anedotas com drone sobre Lisboa. Significa apenas aceitar que o cinema também é relação, desejo, promessa, conversa pública. Um filme não existe plenamente porque foi financiado, rodado, montado e exibido num festival. Existe quando alguém o quer ver.
Entra Nuno Markl, montado no seu homem que mordeu o cão
E é aqui que o anúncio-surpresa do novo projeto cinematográfico de Nuno Markl, nos Encontros, ganha um valor simbólico curioso. No meio de um encontro dedicado à aproximação entre o cinema português e o público, surgiu a notícia de que Markl começará a rodar em setembro uma versão cinematográfica do universo de “O Homem Que Mordeu o Cão”, ou, pelo que se percebeu das suas palavras, algo que parte dessas crónicas radiofónicas para se transformar num objeto mais pessoal, mais autobiográfico, talvez mais próximo de Nanni Moretti do que de um simples best of de histórias bizarras.
À partida, isto parece estar exatamente alinhado (ou não?) com o estudo. O público pede mais comédia, mais histórias atuais, mais atores conhecidos, mais filmes capazes de entreter. Markl tem notoriedade, tem uma marca reconhecível, tem uma relação antiga com o público, tem humor, tem rádio, tem memória afetiva, tem aquele lado de cronista do absurdo nacional que faz parte da nossa educação sentimental recente. “O Homem Que Mordeu o Cão” não era — e não é — apenas uma rubrica radiofónica. É uma espécie de arquivo da estupidez humana, da ternura involuntária, do ridículo quotidiano, da notícia inacreditável que afinal aconteceu mesmo. Ou seja: material cinematográfico não falta.
Mas convém não embandeirar já em arco, nem declarar que o cinema português pode ser salvo por um cão radiofónico. O próprio projeto, pelo que foi anunciado, parece ter-se deslocado de uma simples antologia de histórias famosas para algo mais íntimo: a recuperação física e emocional de Markl depois dos AVC, a fisioterapia, a vontade de voltar à rádio, as histórias que regressam como reconstrução da memória, do corpo e do humor. Isto pode ser muito interessante. Pode dar um filme popular, mas também pessoal, melancólico, estranho, talvez até corajoso. Pode ser uma boa resposta ao estudo precisamente porque não parece limitar-se a cumprir uma checklist de mercado. Não é: “O público quer comédia, façamos piadas.” É antes: “O público conhece esta voz; vamos levá-la a outro lugar.”
Essa é a parte mais promissora. A parte mais arriscada é outra: Portugal tem uma longa tradição de achar que uma cara conhecida resolve o problema estrutural do cinema português. Não resolve. Ajuda, claro. Um nome popular abre portas, chama atenção, facilita comunicação, cria curiosidade. Mas o público não é parvo. Pode entrar pelo nome, mas fica — ou não volta — pelo filme. Se “O Homem Que Mordeu o Cão” for apenas uma sucessão de sketches filmados, pode ter público inicial e morrer depressa. Se encontrar uma forma cinematográfica para esse universo, se transformar a rádio em imagem, a crónica em narrativa, o humor em emoção, o absurdo em retrato do País, então poderá fazer exatamente aquilo que o estudo sugere que falta: criar ponte.
O cão não salva a indústria, mas pode morder o problema
A questão essencial é esta: um filme de Nuno Markl pode valorizar o cinema português aos olhos do público? Pode. Mas não sozinho. Pode ajudar a desmontar a ideia de que cinema português é necessariamente lento, soturno, fechado sobre si mesmo, feito para meia dúzia de convertidos. Pode trazer espectadores que normalmente fogem do selo “filme português” como quem foge do diabo da cruz. Pode mostrar que é possível fazer uma obra nacional com humor, reconhecimento popular, emoção e ambição formal. Pode até — Deus nos livre, que horror — divertir.
Mas também pode ser usado como álibi. Parte do setor adora álibis. “Temos um filme popular, portanto estamos atentos ao público.” Não chega. Um filme de Markl, por mais bem-sucedido que seja, não resolve a distribuição, não corrige a falta de promoção, não cria hábitos de consumo, não aproxima magicamente as salas dos espectadores, nem muda o facto de muitos filmes estrearem sem campanha, sem tempo, sem visibilidade, sem cartaz mental. O cão pode morder o problema, mas não o pode comer inteiro. É quase como estar ali um bom tempo a roer um osso.
O que o estudo revela é mais profundo: o público português não rejeita o cinema português por princípio. Gosta da língua, reconhece evolução, acha importante que o País tenha uma indústria forte e ativa. Mas não sente que essa indústria fale suficientemente com ele. Há uma falha de desejo. E essa falha não se resolve apenas com mais comédias, mais thrillers ou mais atores conhecidos, embora tudo isso possa ajudar. Resolve-se com uma mudança de mentalidade: deixar de tratar o público como um mal necessário, um número para justificar financiamento ou uma massa inculta que precisa de ser educada à força. O público não precisa de ser tratado como idiota. Precisa de ser convocado.
No fundo, os Encontros do Cinema Português parecem ter posto mais uma vez a indústria diante de um espelho. O espelho não é cruel, mas também não é lisonjeiro. Diz-nos que há talento, há produção, há projetos, há vontade, há instituições, há apoios, há debates, há diagnósticos. Falta transformar tudo isso numa relação menos burocrática e mais apaixonada com quem paga bilhete. Falta perceber que a palavra “audiência” não é uma obscenidade capitalista. É a razão pela qual o cinema nasceu numa sala escura, com pessoas sentadas juntas, a rir, a chorar, a assustar-se, a apaixonar-se ou simplesmente a esquecer por duas horas que têm de pagar a prestação da casa.
E talvez seja essa a ironia maior: enquanto o estudo tenta dizer com gráficos aquilo que toda a gente já suspeitava, Nuno Markl aparece com um projeto que, pelo menos em teoria, responde à pergunta de forma mais simples. Como aproximar o cinema português do público? Talvez começando por contar histórias que o público já reconhece, mas dando-lhes uma forma nova. Talvez aceitando que o humor também é cultura. Talvez percebendo que a popularidade não é uma doença transmissível. Talvez lembrando que um filme pode simplesmente querer chegar às pessoas.
O cinema português não precisa de ser menos português para ter mais público. Precisa, isso sim, de deixar de confundir solenidade com profundidade, invisibilidade com pureza e aborrecimento com exigência. “O Homem Que Mordeu o Cão” não vai salvar o cinema nacional. Mas pode fazer uma coisa mais útil: lembrar-lhe que, às vezes, para chamar o público, basta uma boa história, uma voz reconhecível, uma ferida verdadeira, algum humor e a coragem de não ter vergonha de entreter.
Num país onde demasiados filmes entram em sala já com ar de fantasma, um cão que morde talvez não seja a pior notícia. Pior era continuar a fingir que o público não existe ou que existe apenas para aplaudir, em silêncio, no fim de uma sessão às três da tarde.