O Campeonato do Mundo de Futebol, começa em Junho e The Match (“El Partido”), de Juan Cabral e Santiago Franco, baseado no livro de 2016 com o mesmo título, escrito pelo jornalista argentino Andrés Burgo e estreado na secção Cannes Première, não é um filme qualquer sobre futebol, mas já nos prepara para essa mistura inevitável de esperança, nervosismo, patriotismo, palpites inúteis, comentadores excitados e possíveis desilusões. Entra em campo como grande documentário histórico-desportivo, com bola, relva, camisolas suadas, glórias antigas e ex-jogadores ingleses e argentinos a olharem para imagens do passado com aquele ar de quem está a rever a juventude e grandes momentos da sua vida com óbvia nostalgia. Mas depressa percebemos que aquilo não é apenas sobre o Argentina-Inglaterra do Mundial de 1986. É uma sessão espírita. Uma autópsia. Uma missa futebolística-histórica. Um julgamento. Um tratado de geopolítica mundial com chuteiras calçadas. E, acima de tudo, uma prova bastante comovente mesmo de que, às vezes, o futebol se parece demasiado com a vida: é belo, injusto, arbitrário, genial, cruel, poético, aldrabão e, naquela altura, ainda por cima, não havia VAR, embora, vendo bem, talvez tenha sido melhor assim para a lenda e pior para a justiça.
O filme reconstrói o famoso jogo dos quartos-de-final entre Argentina e Inglaterra, jogado a 22 de junho de 1986, no Estádio Azteca, na Cidade do México, quando Diego Armando Maradona decidiu, em cinco minutos, transformar-se em santo, demónio, batoteiro, génio, herege, poeta, carteirista e funcionário não remunerado do Ministério da Vingança Simbólica da República Argentina. Primeiro, a “Mão de Deus”, esse pequeno delito aéreo cometido com a elegância de quem rouba uma carteira no meio de uma procissão. Depois, o “Golo do Século”, essa viagem impossível em que Maradona atravessa meia Inglaterra como quem atravessa a História, deixando para trás defesas, guarda-redes, império, moral vitoriana, fair play, Margaret Thatcher, Bobby Robson e talvez a própria ideia inglesa de que o futebol lhes pertencia por direito de invenção.

A guerra, a memória e uma mão caída do céu
O grande mérito de The Match está em não se limitar a ser mais uma ode à mitologia maradoniana. Cabral e Franco podiam ter feito apenas um altar ao número 10, com imagens de arquivo, música épica, lágrimas argentinas, indignação inglesa e um plano final de Diego a subir aos céus de Nápoles de braço dado com Deus, que, vendo bem, naquela tarde até parece ter descido bastante para jogar de punho fechado. Mas o filme é muito mais inteligente. Pega no jogo e pergunta: quando começa realmente um conflito? Quando termina? No apito final? Num tratado de paz? Na memória dos mortos? No ressentimento dos sobreviventes? No guarda-redes que, quarenta anos depois, ainda não perdoou? Ou naquele adepto que nunca foi às Malvinas, nunca viu um soldado, nunca pegou numa arma, mas ainda hoje sente que Maradona vingou uma ferida nacional com uma mão ilegal e uma corrida sobrenatural?
É aqui que The Match se torna um dos documentários mais fascinantes dos últimos tempos. Se dizem que crítica perdeu o entusiasmo, esta crónica vai-vos mostrar o contrário. O jogo de 1986 não caiu do céu, embora uma das mãos envolvidas pareça ter vindo de lá. O filme recua, abre a lente e atravessa mais de dois séculos de encontros, desencontros, invasões, comércio, colonização, influência cultural, orgulho ferido e mal-entendidos entre argentinos e ingleses. A Argentina e a Inglaterra são inimigas íntimas, rivais históricos e parentes contrariados. Estão ligadas por guerras, investimentos, caminhos-de-ferro, clubes, nomes, costumes, bolas trazidas por marinheiros e imigrantes, por uma certa ideia aristocrática do desporto e até por essa ironia deliciosa que faz com que um clube argentino se chame Vélez Sarsfield, nome que, de uma maneira ou de outra, também nos lembra que a História nunca é pura, nunca vem limpa, nunca joga com equipamento titular.
Depois há as Malvinas, ou Falklands, conforme o passaporte, a ferida, a bandeira e a escola onde se aprendeu geografia. Quatro anos antes daquele jogo, em 1982, a ditadura militar argentina lançara o país numa guerra absurda contra o Reino Unido, como tantas guerras são absurdas: comandadas por homens que não morrem nelas, combatidas por rapazes que mal tiveram tempo de perceber onde ficava o inferno. O filme trata esse capítulo com sobriedade admirável. Não faz do relvado uma continuação literal da guerra, porque isso seria indecente. Um golo não ressuscita soldados. Uma vitória num Mundial não devolve filhos às mães. Um drible não repara uma ditadura. Mas também não finge que aquele jogo aconteceu no vazio, como se vinte e dois homens tivessem entrado no Azteca apenas para cumprir calendário, beber água, ouvir Carlos Bilardo gritar e tentar sobreviver à altitude mexicana.
O que The Match mostra muito bem é que os jogadores talvez não carregassem conscientemente todo o peso da História, mas a História carregava-os a eles. Do lado argentino havia luto, orgulho, trauma, ditadura recente, rapazes mortos nas ilhas. Do lado inglês havia ferida, imprensa, patriotismo e essa velha certeza imperial de que a bola, afinal, também pode ser uma questão de Estado. O documentário não absolve nem condena. Observa. E, ao observar, percebe que o futebol é muitas vezes o sítio onde os povos descarregam aquilo que não conseguem dizer de outra maneira. É barato, tribal, ridículo, perigoso, lindo. E é por isso que funciona como escape.
Maradona, Lineker, Valdano, Shilton e a beleza da injustiça
O filme tem ainda um enorme sentido de construção dramática. Não é apenas uma colagem de imagens antigas com cabeças falantes a dizerem “foi incrível”, “foi difícil”, “Diego era Diego” e “ninguém esperava aquilo”, que é basicamente a fórmula de metade dos documentários desportivos feitos para plataformas onde o algoritmo acha que a História começou em 1998. Anda par a frente anda, par trás, quando é preciso. Aqui há uma ideia de cinema. Há uma ideia de encenação. Os antigos jogadores são filmados quase como sobreviventes de uma batalha mítica, colocados num estúdio ou espaços escuros, diante — ou por trás — de imagens que parecem convocar fantasmas. Valdano, Lineker, Shilton, Barnes, Ruggeri, Burruchaga, Giusti, Olarticoechea não estão ali apenas para confirmar factos. Estão ali para negociar com a memória. E a memória, como se sabe, é uma jogadora mais perigosa do que Maradona: finta-nos por dentro, muda a direção da jogada, exagera dores, suaviza culpas e às vezes até marca golos que nunca existiram.

Gary Lineker é uma das grandes armas do filme. Inteligente, elegante, irónico, sem ressentimento de tabloide, oferece o contraponto inglês que impede o documentário de cair na celebração unilateral argentina. Lineker, que marcou o golo inglês do 2-1 e foi o melhor marcador daquele Mundial de 1986 — o mesmo Mundial que correu tão mal à Seleção Portuguesa, eliminada logo na primeira fase, debaixo da sombra tristemente célebre do Caso Saltillo — aparece como aquilo que sempre pareceu ser: um avançado com cérebro, coisa que no futebol é ainda mais rara do que um defesa-central que leia poesia sem ser objeto de chacota dos outros. Ao rever o segundo golo de Maradona, não se limita à amargura. Reconhece a beleza. Percebe que há momentos em que até o adversário deve ter vontade de aplaudir, embora esteja, tecnicamente, a ser humilhado perante milhões de pessoas.
Peter Shilton, por sua vez, continua a ser Peter Shilton, o capitão da equipa que no inicio do jogo aperta a mão a Maradona, capitão de recurso, porque Passarela ficou em casa na Argentina, doente. Shilton é a estátua viva da indignação. E tem razão, claro. Maradona marcou com a mão. O golo era ilegal. O árbitro tunisino Ali Bennaceur não viu, o fiscal de linha não assinalou, e a FIFA ainda não tinha inventado essa maravilha contemporânea chamada VAR, que hoje talvez anulasse o lance depois de sete minutos de suspense, três linhas tortas no ecrã, uma publicidade a apostas e um árbitro com cara de quem está a tentar perceber o que na realidade se passou. Shilton nunca perdoou totalmente. Talvez nunca pudesse perdoar. Porque naquele lance não perdeu apenas uma bola. Perdeu uma versão da justiça. E há pessoas que conseguem viver com derrotas, mas não com injustiças, sobretudo quando a injustiça fica repetida eternamente em todos os resumos televisivos da humanidade.
E depois há Maradona, claro. Sempre Maradona. Mesmo quando não está, está. Mesmo morto, ocupa mais espaço do que os vivos. O documentário sabe que é impossível explicar aquele jogo sem cair no buraco negro da sua figura, mas resiste à beatificação fácil. Maradona era tudo ao mesmo tempo: génio absoluto e criança impossível, artista e aldrabão, libertador simbólico e prisioneiro das suas próprias lendas, homem capaz de produzir no mesmo jogo o gesto mais sujo e o gesto mais belo da história do futebol. Pelé foi a perfeição institucional. Messi é a perfeição técnica com melancolia de funcionário celestial. Maradona era o caos com tornozelos. Era um bairro inteiro a jogar contra o império. Era a injustiça dos pobres devolvida em forma de batota sublime. Era a prova viva de que Deus, quando joga à bola, talvez prefira os pecadores.
A camisola azul, Bilardo e a “Nuca de Deus”
Um dos episódios mais saborosos, entre vários que são contados, é o das camisolas azuis. A Argentina por sorteio tinha de jogar com o equipamento alternativo, mas as camisolas oficiais eram pesadas, impróprias para o calor e a altitude da Cidade do México. Carlos Bilardo, esse cientista louco do futebol, treinador capaz de misturar tática, medicina, superstição, espionagem e delírio com a serenidade de um alquimista armado em preparador físico, recusou-as. Mandou procurar camisolas mais leves. Compraram-se equipamentos genéricos em lojas mexicanas. Costuraram-se emblemas à pressa. Aplicaram-se números prateados, quase de futebol americano. E foi com essa camisola improvisada, nascida do desenrascanço, da ansiedade e da loucura organizativa, que Maradona marcou os dois golos mais célebres da história. Há aqui uma moral profundamente latina: quando tudo parece mal preparado, nasce uma lenda. Em Inglaterra chamar-se-ia incompetência logística. Na Argentina chamou-se destino.
Bilardo é uma personagem extraordinária e o documentário dá-lhe o devido destaque. Do outro lado estava Bobby Robson, cavalheiro, pragmático, inglês até no modo como parecia sofrer com compostura. Bilardo era outra coisa: um homem capaz de acreditar simultaneamente na ciência e nas “cabalas”, na preparação física e no azar, no 3-5-2 e na necessidade de repetir o mesmo trajeto de autocarro porque da última vez tinha corrido bem. Um treinador que via vídeos até à exaustão, acordava jogadores, calculava espaços, media adversários e construía uma equipa inteira para que Maradona pudesse ser livre. Enquanto os outros carregavam o piano, Diego tocava. E que piano. Um Steinway com lama nos atacadores.
Também aqui o documentário é mais rico do que a simples lenda. Mostra que o “Golo do Século” não foi apenas um milagre individual, embora pareça. Foi também o resultado de uma equipa desenhada para proteger o génio, de companheiros dispostos a sacrificar metros, pulmões e ego, de um sistema tático que deixava Maradona receber a bola no sítio exato onde o impossível podia começar. Valdano, correndo ao lado no segundo golo, é quase uma personagem borgeana: está dentro da jogada, mas transforma-se em espectador. Corre para ser opção de passe e percebe, enquanto corre, que talvez a melhor forma de participar naquele momento seja não tocar na bola. Há grandeza nisso. Nem todos os cúmplices precisam de pôr a mão no crime. Alguns limitam-se a correr ao lado da eternidade.
E há ainda a “Nuca de Deus”, que nunca mereceu o devido lugar no altar. Porque se há a Mão de Deus de Maradona, há também aquele corte milagroso de Julio Olarticoechea, perto do fim, quando o fabuloso John Barnes entrou pela esquerda e começou a lançar cruzamentos com a precisão de quem tinha decidido mudar o guião. Lineker apareceu, a Inglaterra quase empatou, e Olarticoechea salvou de nuca, de costas, de instinto, de medo, de pátria, de tudo. A História podia ter mudado ali. Bastava uma bola entrar, um desvio falhar, uma nuca estar dois centímetros ao lado, e hoje talvez falássemos menos da mão, menos do século, menos da vingança, mais do prolongamento, dos penáltis, da crueldade inglesa, da Argentina despedaçada. O futebol é esta coisa obscena: uma civilização emocional inteira também pendurada numa nuca.
Borges no relvado, Queen no palco e Cannes a aplaudir de pé
É por isso que The Match funciona tão bem, mesmo para quem não gosta de futebol. Porque o filme não exige que se saiba o que é um 3-5-2. O documentário lembra ainda que Argentina e Inglaterra nunca foram apenas adversários. Foram também países ligados por admiração, influência e cultura pop. A presença dos Queen na narrativa, com o grande concerto em Buenos Aires em 1981 e Maradona a subir ao palco, é um achado precioso. No meio de tensões políticas, ditadura, nacionalismos e ressentimentos, aparece Freddie Mercury, esse argentino honorário de bigode imperial e alma universal, a provar que a música, como o futebol, às vezes atravessa fronteiras antes dos diplomatas. Os Queen suavizaram por uma noite o que a política endurecia todos os dias. Não resolveram nada, claro. Nenhum refrão resolve uma guerra. Mas há momentos em que uma multidão a cantar junta parece-se mais com uma assembleia das Nações Unidas do que aquela que conhecemos.
E Valdano é, de facto, mais uma das almas do filme e talvez por isso merece ficar para o fim. Não apenas porque esteve lá, mas porque sabe falar do futebol como se o futebol merecesse pensamento, ao contrário de muitos programas televisivos com comentadores aos gritos. No final, quando lê um texto de Jorge Luis Borges, o documentário toca uma zona inesperadamente comovente. Borges, que desconfiava do futebol e talvez preferisse labirintos menos barulhentos, entra ali como uma espécie de árbitro metafísico. Depois de tanta guerra, tanto ruído, tanta pátria, tanta mão, tanta nuca, tanta camisola, tanta ferida, surge a literatura como se viesse dizer: tudo isto passou, mas nada disto acabou. A bola rolou durante noventa minutos. A memória continuará a jogar para sempre.
Em Cannes, pelo que se sentiu na sessão de imprensa, o filme entrou pela sala como entram os grandes documentários, mesmo para os não convertidos ao futebol. Havia adeptos, claro, mas havia também espectadores que talvez nunca tenham discutido um fora-de-jogo, nem saibam o que isso é mas que, ainda assim, foram apanhados pela emoção. Dez minutos de aplausos e muitos “bravo” não fazem automaticamente uma obra-prima — Cannes também aplaude sapatos, penteados, egos e filmes que depois ninguém quer rever —, mas neste caso dizem alguma coisa. Dizem que The Match encontra uma vibração comum. Fala de futebol, sim, mas fala sobretudo da história do século XX, de memória, injustiça, reconciliação, orgulho, velhice, mortos, infância, imagens que regressam e homens que, quarenta anos depois, continuam presos a uma tarde de calor no México.
The Match será certamente um dos documentários mais emocionantes e inteligentes deste Festival de Cannes 2026. Não porque descubra uma verdade secreta escondida no relvado do Azteca, mas porque percebe que as grandes verdades raramente estão escondidas. Estão à frente dos nossos olhos, repetidas até à exaustão, só que precisamos de alguém que as reorganize. Cabral e Franco pegam num jogo que todos conhecemos e mostram que ainda havia ali um país inteiro a tremer, outro a ranger os dentes, uma guerra por enterrar, uma ditadura por superar, um império por digerir, uma camisola azul comprada à pressa, uma mão ilegal, uma nuca salvadora, uma pomba branca pousada numa baliza, dois narradores extraordinários e um homem chamado Diego Armando Maradona, que durante cinco minutos pareceu resolver o século XX com o punho e com o pé esquerdo.
Claro que não resolveu. O futebol nunca resolve nada. Mas consola. Engana. Ilumina. Vinga por instantes. Dá-nos a ilusão de justiça quando a vida é injusta, e às vezes dá-nos a injustiça mais escandalosa embrulhada na beleza mais perfeita. É por isso que continuamos a ver. É por isso que continuamos a discutir. É por isso que Shilton não perdoa, que Valdano ainda se emociona, que Lineker ainda admira, que os argentinos ainda chamam Deus a uma mão, que os ingleses ainda chamam batota ao mesmo gesto, e que todos, no fundo, continuam presos àquela tarde. Porque o futebol, como a vida, raramente é justo. Mas quando é grande, quando é mesmo grande, até a injustiça fica com uma estranha forma de beleza.