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Moulin Rouge!, de Baz Luhrmann, estreou no Festival de Cannes há 25 anos, precisamente no dia 9 de Maio de 2001, como se a Croisette tivesse sido atacada por um frasco de purpurinas, uma garrafa de champanhe, uma jukebox em curto-circuito e uma crise nervosa em Technicolor. Em 2001, o cinema ainda fingia que a Internet era uma coisa de adolescentes fechados no quarto, os jornais ainda mandavam críticos para festivais com ares de missão diplomática, e eu estava apenas na minha segunda presença em Cannes. Tinha ido pela primeira vez em 2000, para assistir à Palma de Ouro ganha por Dancer in the Dark, de Lars von Trier, com Björk como protagonista. Isto só para fazer o ponto da situação: eu ainda estava muito verde nesta coisa dos festivais de cinema e acreditava em quase tudo, nas estrelas, no glamour, nos hotéis de luxo, nas entrevistas exclusivas e, sobretudo, na ilusão piedosa de que um jornalista português sentado numa mesa-redonda internacional talvez conseguisse fazer uma pergunta a Nicole Kidman.
Moulin Rouge!, visto agora à distância, continua a parecer uma anomalia deliciosa no mundo das seleções oficiais do Festival de Cannes, mesmo em 2001: um musical pós-moderno, histérico, romântico, barroco, adolescente, operático, pimba de luxo e profundamente sincero ao mesmo tempo. O realizador australiano Baz Luhrmann pegou em Paris, no cabaré Moulin Rouge, em Toulouse-Lautrec, no can-can, no amor impossível, em Nicole Kidman, Ewan McGregor, Elton John, Madonna, The Police, Queen, Nirvana e em metade da discoteca sentimental do século XX, enfiou tudo dentro de um elefante dourado e gritou: “Isto é cinema!” Uns aplaudiram de pé. Outros procuraram imediatamente uma aspirina. Cannes, como sempre, fez as duas coisas ao mesmo tempo. Eu não. Ainda estava demasiado verde na crítica para perceber exatamente se tinha assistido a uma obra-prima, a um ataque epilético com plumas ou às duas coisas ao mesmo tempo.
O filme era, e ainda é, um daqueles objetos que não entram numa sala de cinema: invadem-na. Começa a correr antes de nós percebermos onde estamos, canta antes de termos tempo de nos sentar, monta a sua própria vertigem e depois pede-nos, com uma candura quase indecente, que acreditemos em Verdade, Beleza, Liberdade e Amor. Quatro palavras que, ditas assim, parecem inscrição de copo comprado numa loja esotérica, mas que no filme funcionam porque Luhrmann acredita nelas com a força de quem acabou de beber uns dez cafés e de descobrir Verdi, a MTV e o cabaret francês no mesmo fim-de-semana.
No dia seguinte à gala oficial no Grande Teatro Lumière, — a que por sorte assisti, por benesse do distribuidor nacional — lá fui para a minha estreia no circo dos “junkets” de imprensa. Só a palavra já parece uma doença profissional. “Junket”. Uma coisa entre excursão organizada, interrogatório diplomático e castigo elegante para jornalistas que ainda não aprenderam a dizer que sim a tudo ou não, quando é preciso. A entrevista era no Grand-Hôtel du Cap-Ferrat, a cerca de 40 quilómetros de Cannes: distância suficiente para parecer outro mundo e curta o bastante para nos lembrar que, em Cannes, até o glamour precisa de motorista. Lá fomos nós, um grande grupo de jornalistas, em excursão organizada até Cap-Ferrat, como uma turma de finalistas, mas com gravadores, blocos de notas e ansiedade profissional.
O Grand-Hôtel du Cap-Ferrat não é propriamente um hotel. É um palácio. É um paraíso. É uma declaração de guerra ao salário médio de jornalista. Tudo ali parece escolhido para nos lembrar que há pessoas que nasceram para atravessar salões e outras que nasceram para pedir desculpa por existirem dentro deles. Cheguei, como se diz, composto. Isto é: nervoso, suado, com ar de quem tinha decorado três perguntas inteligentes e um plano de sobrevivência no meio de um grupo de repórteres ávidos. Afna, eu ia entrevistar Nicole Kidman. A Nicole Kidman, minha gente! A estrela de De Olhos Bem Fechados, de Disposta a Tudo, a atriz que naquele momento saía do casamento com Tom Cruise, entrava numa nova fase da carreira e surgia em Moulin Rouge! como Satine, a cortesã-cantora que descia do céu num trapézio como se Deus tivesse decidido fazer casting para uma opereta.
A entrevista era de grupo como o habitual. Seis, sete, oito jornalistas, já não sei bem. O que sei é que, naquele grupo, estava o famoso Baz Bamigboye, então colunista do Daily Mail, uma criatura lendária da imprensa de espetáculo britânica, daqueles jornalistas ou colunistas que não entrevistam estrelas: cumprimentam conhecidos. Este Baz — que não é o realizador do filme — conhecia toda a gente, tratava toda a gente pelo primeiro nome e tinha aquele à-vontade imperial de quem entra numa suíte de hotel e se senta numa mesa de “junket” como se tivesse pago a mobília. Olhava para nós quase como quem diz: “Mas o que é que vocês estão aqui a fazer?” Na verdade, ele não estava ali para fazer perguntas. Estava ali para continuar uma conversa antiga com Nicole, sendo nós, os restantes, figurantes internacionais de apoio. Foi, digamos, um massacre educado.
Baz perguntava e Nicole respondia. Baz ria, Nicole ria. Baz fazia uma observação sobre alguém, Nicole acrescentava qualquer coisa. Nós olhávamos. Eu, que levava as minhas perguntas preparadas com a solenidade de um estudante antes do exame oral, comecei a perceber que talvez não fosse o dia da minha consagração jornalística. Talvez fosse apenas o dia em que eu aprenderia a arte muito nobre de estar presente numa entrevista sem, na verdade, entrevistar ninguém. No fim, trouxe a “entrevista” para a PREMIERE. Claro que trouxe. Um jornalista também é isto: às vezes não faz a pergunta, mas apanha a atmosfera, rouba o ar da sala, transforma a derrota em texto e ainda finge, com dignidade, que era esse o plano desde o início. No fundo, comigo ou com outros, estes “junkets” de imprensa nos festivais continuam mais ou menos na mesma: muda a tecnologia, mudam os gravadores, mas permanece a sensação de que há sempre alguém na mesa com mais intimidade, mais tempo de antena e melhor lugar no banquete.
Mas antes do pequeno desastre profissional houve o verdadeiro acontecimento que quase mudou a minha vida: a perda da inocência jornalística. E aqui peço desde já desculpa aos devotos do altar Kidman, porque o que vou dizer pode soar a sacrilégio, blasfémia ou, pior ainda, sinceridade.
A entrevista era ao final da manhã, depois da tal noite de gala que acabou muito tarde. Fui talvez o primeiro a entrar na suíte reservada para a mesa-redonda, ainda a tentar portar-me bem, quando vejo aproximar-se de mim uma mulher muito branca, quase pálida, alta, magra, ruiva, ligeiramente desengonçada pela própria altura, como se o mundo tivesse sido desenhado uns centímetros abaixo dela. Estendeu-me a mão, apertou-a com leveza, e eu olhei-a de baixo para cima. Era mesmo a Nicole Kidman.
E eu fiquei meio desorientado. Não por ela ser deslumbrante no sentido esperado, mas precisamente pelo contrário: porque era real. Demasiado real mesmo. O cinema tinha-me vendido uma deusa de luz, pele translúcida e fotogenia sobrenatural, e ali estava uma mulher cansada, educada, branca como porcelana depois de uma noite de Cannes, muito alta, muito magra, muito ruiva, muito humana. Não a achei tão bonita como imaginava. Pronto, está dito. Podem chamar a polícia do glamour e dizer que sou um idiota. Mas já disse…
De facto foi uma desilusão quase infantil. Não uma desilusão com a Nicole Kidman, mas com a minha própria fantasia. Queria que ela entrasse na sala já iluminada por um diretor de fotografia, com vento controlado no cabelo, música de Craig Armstrong ao fundo e um elefante dourado estacionado na varanda. Em vez disso, entrou uma atriz profissional, exausta, simpática, disponível dentro do possível, com um aperto de mão leve e a humanidade toda à vista. Foi nesse instante que percebi uma coisa terrível: as estrelas de cinema só são estrelas quando há câmara, luz, montagem, maquilhagem, distância e desejo. Ao vivo, são pessoas. Algumas fabulosas, outras insuportáveis, algumas generosas, outras ocas, muitas apenas cansadas. Mas pessoas. Uma chatice.
Curiosamente, Moulin Rouge! é precisamente um filme sobre isso mesmo: a fabricação do encanto. Satine é a estrela do cabaret, “o diamante cintilante”, a mulher transformada em espetáculo para consumo dos homens, dos ricos, dos poetas, dos empresários, dos espectadores e, já agora, da própria câmara. O filme sabe que o glamour é uma máquina. Sabe que o palco é uma armadilha. Sabe que a beleza custa dinheiro, os espartilhos partem costelas e as canções de amor precisam quase sempre de alguém a morrer no terceiro ato.
Nicole Kidman sofreu fisicamente no filme — costelas, tornozelo, espartilhos, trapézios, coreografias impossíveis — e talvez por isso Satine tenha aquele ar de criatura cintilante a lutar contra a própria vitrina. Moulin Rouge! é ridículo? Muitas vezes. Exagerado? Sempre. De mau gosto? Um bocadinho, mas com orgulho. Mas é também uma obra de coragem emocional rara: não se envergonha de ser sentimental, não tem medo do kitsch, não se encolhe por acreditar no amor como se o amor ainda fosse uma força revolucionária e não apenas uma aplicação de encontros com fotografias de ginásio, filtros no telemóvel e promessas aparadas ao milímetro.
Na altura, o filme dividiu Cannes. Normal. Cannes adora ser dividida. É uma forma elegante de o festival continuar vivo. Houve quem visse ali uma reinvenção do musical e houve quem visse apenas um ataque epilético com plumas. O tempo, esse crítico menos histérico do que nós, foi generoso. Moulin Rouge! tornou-se um clássico moderno, recebeu oito nomeações aos Oscars, incluindo Melhor Filme, ganhou dois prémios, ajudou a devolver prestígio ao género musical, que andava então muito esquecido, e provou que uma grande produção de Hollywood ainda podia ser profundamente estranha sem autorização do departamento de cinismo.
Quanto a mim, nessa manhã no Cap-Ferrat, não fiz pergunta nenhuma a Nicole Kidman. Zero. Bola. Nem uma. Fiquei sentado a assistir ao campeonato de esgrima verbal do Baz Bamigboye, que fazia perguntas como quem atira pétalas, enquanto eu tentava manter uma expressão profissional e não parecer um estagiário infiltrado. Foi o meu batismo nos “junkets”: percebi que há entrevistas em que a nossa função é existir discretamente, gravar bem, sorrir pouco e não derrubar a água mineral que está na mesa.
Desde então, vi Nicole Kidman várias vezes. Em conferências de imprensa, festivais, salas grandes, palcos, passadeiras vermelhas, sempre no seu habitat natural: entre flashes, perguntas previsíveis, vestidos arquitectónicos, respostas medidas e aquele mistério que só as grandes estrelas conseguem reconstruir depois de nos terem mostrado, por acidente, que também são feitas de ossos, pele e manhãs difíceis. Com o tempo, Nicole voltou a parecer-me outra vez Nicole Kidman. A estrela regressou ao lugar dela. Talvez porque eu também aprendi a olhar melhor. Afinal, já passou mais de um quarto de século nesta profissão. Ou talvez porque o cinema, mesmo depois de desmascarado, continua a ser a mentira mais bonita que conhecemos. Mas nunca mais me estendeu a mão.
E talvez ainda bem. Aquele aperto leve, bem educado e formal, ficou como uma pequena relíquia privada da minha educação sentimental em Cannes. A mão de Nicole Kidman ensinou-me mais sobre cinema do que muitas conferências de imprensa: ensinou-me que a distância é parte do feitiço, que o glamour precisa de nevoeiro, que as deusas não devem ser vistas ao final da manhã depois de uma gala e que um jornalista, quando perde a inocência, ganha finalmente material para escrever uma crónica.
Moulin Rouge! faz agora 25 anos e continua a dançar como se tivesse acabado de descobrir a eletricidade. Eu também continuo a lembrar-me daquela manhã como se tivesse sido ontem, embora o meu ego profissional preferisse arquivar o episódio numa gaveta sem legenda. O filme sobreviveu. Nicole sobreviveu. Baz Luhrmann sobreviveu. Baz Bamigboye sobreviveu e continua a saber coisas antes dos outros: passou do Daily Mail, onde foi durante décadas uma das grandes figuras da crónica de espetáculo britânica, para a Deadline, em 2022, porque há jornalistas que parecem ter nascido com pulseira vitalícia para os bastidores do cinema. Eu sobrevivi também, embora sem pergunta feita, mas com uma história. E, no jornalismo cultural, sejamos honestos, às vezes uma boa história vale mais do que uma pergunta inteligente. Sobretudo quando a pergunta inteligente foi feita por outro.
Moulin Rouge! estreou-se em Cannes em 2001, recebeu oito nomeações aos Oscars e ganhou dois prémios (Figurinos e Direção Artística). As histórias de bastidores continuam a alimentar a lenda: as lesões de Nicole Kidman durante a rodagem, os espartilhos criminosos, os números musicais filmados como se o cinema ainda pudesse ter vertigens e a certeza de que Baz Luhrmann não realizou propriamente um musical, mas um ataque cardíaco com plumas, diamantes falsos e sentimentos verdadeiros. Vinte e cinco anos depois, talvez seja essa a melhor definição possível: Moulin Rouge! é um filme que parece berrar, mas afinal canta. E, quando canta, ainda consegue fazer-nos acreditar, por breves segundos, nessa coisa absurda, pirosa, indispensável e perigosíssima chamada glamour.